quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Onze mil milhões depois (em bancos)


Coiso e tal, a luta de classes pertence ao passado, o combate às desigualdades é um fetiche ideológico de quem não percebe nada de economia, o que importa é que o PIB cresça com políticas ideologicamente neutras para que a vida de todos melhore. Os mitos dos tempos que correm. Não há comentador que não saiba que tem que ajudar a difundi-los para garantir o seu lugar ao sol. Não há imbecil que não saiba que tem que saber papagueá-los para projectar aquela imagem de cidadão informado e moderno que lhe garante um lugar na “solução”, o hemisfério “positivo” de um mundo de frases feitas cujo hemisfério “negativo”, de onde apenas não fogem os antiquados que não saibam ver “as coisas como elas são”, os “sábios realistas” denominaram “problema”.

Como o poder de decidir o que é ou não notícia deixou de ser considerado uma arma numa luta de classes que pertence ao passado, já nem estranho não encontrar uma linha que seja na imprensa escrita sobre uma peça que ouvi na rádio há uma semana. Até porque notoriamente o estudo conduzido pelo Prof. Pedro Ramos, da Universidade de Coimbra, pertence ao tal hemisfério “negativo”. Dele apenas fiquei a saber o que se ouve nos minutos que dura a gravação, que nos últimos sete anos, em que o bolo total também encolheu, a fatia correspondente a rendimentos do trabalho reduziu-se de 57% de um PIB que há sete anos era maior para 52% de um PIB hoje muito menor, o que é o mesmo que dizer que as fatias distribuídas por lucros, rendas e dividendos financeiros aumentaram os mesmos 7%, 11 mil milhões de euros em termos absolutos, em que se reduziram os rendimentos do trabalho. Uns enriqueceram os 11 mil milhões que os outros empobreceram. E 11 mil milhões é uma soma que equivale ao que nos custaram BPN e BES. Dois bancos.

E ainda faltam mais três. Se multiplicarmos aqueles 11 mil milhões pelos 11% que cada trabalhador desconta para a Segurança Social e lhe somarmos os quase 24% correspondentes ao que cabe aos empregadores descontarem, 35% de 11 mil milhões são 3850 milhões que desapareceram quando os 11 mil milhões deixaram de ser salários e passaram a ser lucros, rendas ou proveitos financeiros, que não geram quaisquer receitas para a Segurança Social. Aqui está ele, o terceiro banco. Nestes 3850 milhões cabem os 2400 milhões que a coligação diz ser agora necessário cortar às reformas a pagamento nos próximos quatro anos, os cortes no rendimento social de inserção e no complemento solidário para idosos dos últimos quatro, o aumento da idade necessária para ganhar o direito a receber uma pensão de reforma sem penalizações, cabe lá isto tudo e ainda sobra. Sustentabilidade da Segurança Social, já devem ter ouvido falar.

Sobre a sustentabilidade da Saúde, da Educação, da Cultura e sobre as reduções salariais que tantas sustentabilidades juntas alegadamente tornaram necessárias por não haver dinheiro, também já ouviram falar com toda a certeza. Quatro em cada cinco euros de receita fiscal provêm, directamente (IRS) ou indirectamente (IVA), dos rendimentos do trabalho. Ao passarem da fatia que contribui com 4 destes 5 euros para a fatia que apenas paga um, aqueles 11 mil milhões deixaram de render o equivalente a mais um banco, o quarto, ao qual se soma ainda mais um quinto, o que resulta do aumento brutal de impostos que pôs uma massa salarial diminuída de 11 mil milhões a gerar receitas fiscais superiores às que gerava antes do roubo. Cinco bancos.

Cinco bancos que não aparecem nas notícias. E se não aparecem é porque nada disto aconteceu.
Mas aconteceu. Nos últimos sete anos, para além do BPN e do BES, há o equivalente a mais cinco bancos que foram roubados aos 90% que vivem de rendimentos do trabalho. Roubados na maior das calmas, lá está, porque a luta de classes, coiso e tal, o combate às desigualdades, essas ideologias esquerdistas, tudo isso pertence ao passado. Nós agora somos cidadãos informados e muito responsáveizinhos. O Governo que se siga que não se ponha a aumentar salários à parva: cortar 11 mil milhões em sete anos aconteceu porque tinha que ser e fruto de políticas ideologicamente neutras, fazê-los retornar ao lugar de onde foram roubados seria um radicalismo ideológico que não faz qualquer sentido porque a luta de classes… isso mesmo, porque não damos luta.

1 comentário:

fb disse...

Nos últimos sete anos, em que o bolo total também encolheu, a fatia correspondente a rendimentos do trabalho reduziu-se de 57% de um PIB que há sete anos era maior para 52% de um PIB hoje muito menor, o que é o mesmo que dizer que as fatias distribuídas por lucros, rendas e dividendos financeiros aumentaram os mesmos 7%, 11 mil milhões de euros em termos absolutos, em que se reduziram os rendimentos do trabalho. Uns enriqueceram os 11 mil milhões que os outros empobreceram. E 11 mil milhões é uma soma que equivale ao que nos custaram BPN e BES. Dois bancos.