sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Gostei de ler: "Comentaristas e politólogos"


«Há dias, António Vitorino, um político-painelista, isto é, com lugar cativo nos “painéis” televisivos, comentava na SIC Notícias a situação política pós-eleitoral, contracenando com um seu colega também painelista Pedro Santana Lopes. Riu muito, sem moderação, brincou com o facto de ter sido poupado aos últimos desenvolvimentos do folhetim político por ter estado uns dias no estrangeiro e — disse ironicamente — acabado de aterrar no estúdio ainda com jet lag.

O que significam tanta galhofa, tanto informalismo, tanta displicência? Significam que este comentador está tão habituado àquele lugar e apropriou-se de tal modo dele que o ocupa como se estivesse em casa ou no café com os amigos. O chamado “comentário político” — na televisão, na rádio, nos jornais — tornou-se um lugar de convívio e de tertúlia, onde se encenam consensos e polémicas, acordos e beligerâncias. Um exército armado de painelistas e comentadores capturou a esfera pública e assegura a prossecução desta festa diária que em momentos críticos e de irrupção de algo novo, como é este que estamos a viver, se torna uma torrente de discursos que nos sufocam e sufocam tudo. Trata-se de um exército de elite que tem a seu cargo a acção de mortificar aquilo em que toca.

Para esta orgia tanatológica — oposta, portanto, ao erotismo, nada de vivo passa por ela — muito conta o regime de versatilidade instituído: os políticos tornaram-se jornalistas e os jornalistas tornaram-se políticos. Uns e outros restauram uma função que até no campo da literatura há muito tempo começou a vacilar: a função-autor. Ela é agora uma função vazia, mas com a capacidade de criar uma fábula, a dos autores-comentaristas (não foi também assim que surgiram em França “os novos filósofos”?). Há-os de todos os géneros: satíricos, carnavalescos, épicos e romanescos, dramáticos, raramente líricos, já que o lirismo, ao contrário da narrativa, não satisfaz a exigência de continuidade, tende para a interrupção. Esta torrente mantém-se porque funciona como um sistema homeostático, alimentando-se de si próprio: atinge o ponto da homeostase e, passando a um regime autotélico, deixa de precisar de uma fonte de alimento exterior.

Dito de maneira mais simples: o exercício do comentário tem como objecto outros comentários que, por sua vez, também são comentários de comentários. E assim cresce um burburinho espectacular e um ambiente de guerra civil a partir de uma semiose infinita e barroca, de um processo auto-referencial imparável. Ver aqui uma forma de propaganda, por analogia com a propaganda dos totalitarismos, é não descortinar o essencial: a propaganda era instrumental, enquanto o comentário é, tendencialmente, um meio sem fim, é o todo da política na época em que ela foi cooptada pelo fetichismo da mercadoria. É um poder real, mas tem de ser analisado na perspectiva de um poder constituinte, mais do que de um poder constituído.

A espiral barroca do comentário passa também pelos politólogos. São eles os legitimadores de última instância, chamados de vez em quando a fornecer umas pitadas de verosimilhança científica (ou, pelo menos, de um saber universitário), algo que eles fazem — hipótese benevolente — com a mesma atitude com que um médico receita um comprimido inócuo ao seu doente para produzir um efeito placebo. Enquanto um comentador diz muito simplesmente que “hoje não chove e por isso ainda não vamos ter governo”, o politólogo diz antes: “A chuva é, em termos kantianos, um transcendental governativo, isto é, uma condição de possibilidade de formação do governo. E como estamos em seca...” – António Guerreiro, no Público.

3 comentários:

fb disse...

Um exército armado de painelistas e comentadores capturou a esfera pública e assegura a prossecução desta festa diária que em momentos críticos e de irrupção de algo novo, como é este que estamos a viver, se torna uma torrente de discursos que nos sufocam e sufocam tudo. Trata-se de um exército de elite que tem a seu cargo a acção de mortificar aquilo em que toca.

JOSÉ LUIZ FERREIRA disse...

São o aparelho ideológico de um regime. Mas, quando o regime começa a perder credibilidade, nenhum dos seus aparelhos fica imune a este processo. Salvam-se os que são intelectuais no sentido mais nobre e útil do termo. Não é que lhes seja dada imediatamente razão; muita gente vê-os como líricos e nesta medida ainda menos credíveis do que os seus colegas mais ligados à "realidade", que é a realidade do poder; é que ninguém apresenta um discurso cogente contra eles. A estratégia consiste em ignorá-los, e não tenho dúvida de que se sentem muitas vezes na condição de Cassandra; mas o efeito do seu discurso, ainda que imperceptível, é cumulativo. Ao contrário do discurso dos ideólogos, que, depois de convencer temporariamente todos ou quase todos, se esfuma a certa altura no ar e não deixa vestígios.

fernanda disse...

O problema em Portugal é que as elites são de uma pobreza franciscana; de uma maneira geral têm escassa cultura histórica e filosófica e por isso limitam-se apenas a dar uma forma mais elaborada às ideias do senso comum, do género de "quem ganha eleições, governa." Mesmo muitos daqueles que se dizem de esquerda não conseguem encontrar a forma mais incisiva de desconstruir esses discursos de senso comum. No meio disto, o povo, bombardeado por uma comunicação que sabemos muito bem a quem pertence,faz o quê?