quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Negociar sem maioria absoluta: umas vezes é-se Godofredo, noutras é-se Asdrubal


Há dias uns amigos contaram-me a história que passo a reproduzir tal e qual me foi contada.

«O grande Benfica-Sporting era naquele dia. Os bilhetes estavam a acabar. O mais barato custava 20 euros e, tragédia das tragédias, Godofredo só tinha 19. Tentou que os amigos do café lá do bairro lhe emprestassem o euro que lhe faltava. Em vão, estavam todos lisos ou com os tostões bem contados. Os minutos iam passando, o desespero ia aumentando. Lamentava-se da sua pouca sorte quando Asdrúbal se sentou na mesa ao lado da sua. Calou-se, Asdrúbal era o seu rival de sempre.

Mas Asdrúbal ouviu-o. Era a sua oportunidade. Asdrúbal diz para o ar que tem cinco euros no bolso, “à boa vida”, para aumentar a provocação. Na verdade só tinha um. Godofredo olha para o relógio e inquieta-se. Imagina uma jogada espectacular com o Nicolas Gaitan a fintar quatro adversários de enfiada e inquieta-se ainda mais. Vê o Jonas a corresponder de cabeça ao cruzamento com um toque para trás para Talisca e a inquietação começa a ferver-lhe nas têmporas. Vê a bola como um foguete a encaminhar-se para o cantinho da baliza, vê Rui Patrício a voar para ela, mas de repente tudo se turva e não consegue ver se foi golo ou não. Porra!

“Amigo Asdrúbal, por acaso não tens para aí um eurito que me emprestes?” O Asdrúbal diz-lhe que sim, desde que Godofredo lhe consertasse à borla aquela torneira que na semana anterior queria reparar por 10 euros. Godofredo vê-se a perder 9 euros com a brincadeira mas, que remédio, aceita e estende-lhe a mão para recolher a moeda. Asdrúbal pede-lhe calma e continua, “e me consertes também o chuveiro e a tomada da sala”. Godofredo vê mais 40 euros a voar mas, que remédio, pelo Benfica tudo, continua a aceitar, agora já a imaginar tudo o que poderia avariar na casa do Asdrúbal para se vingar. E Asdrúbal continua: “e me passeies o anormal do cão durante um mês”. Aí Godofredo encoleriza-se e responde-lhe: “e o rabinho lavado com água de malvas, não?” Ao que Asdrúbal responde: “pode ser. Tu é que sabes se queres ir ver o jogo ou não”.»

E mais não me contaram, lamento, prometo compensar-vos com outra mais daqui a bocadinho, sim? Antes queria sublinhar o facto de haver circunstâncias que podem multiplicar por muitos o valor de uma posição minoritária numa negociação, realçar como a arte de negociar tanto pode maximizar o valor final dessa multiplicação como deitar tudo a perder e constatar como negociações que até podem deixar ambas as partes aparentemente satisfeitas no presente também podem potenciar uma instabilidade latente no período seguinte. Atenção que nada a ver com o Costa que anda a fazer de Godofredo para a esquerda e de Asdrúbal para a direita, essa história não é para aqui chamada, ele é que sabe se quer ser Primeiro-ministro ou não.

Prefiro terminar de imediato este que já vai longo com a compensação que prometi há pouco. Então cá vai, passou-se na campanha eleitoral das legislativas de 2011 e ninguém ma contou, li-a num artigo do DN de 14 de Maio desse ano sobre o debate televisivo entre Passos e Portas. Dizia assim (e viva o Benfica):

"Para o líder do CDS, não é importante na formação do próximo Governo se o PS tem mais votos: se a direita tiver maioria absoluta, governará. (...) 20h54. "Vamos ver se o PSD consegue ou não uma maioria", diz Passos. Mas "não é irrealista. E não vale a pena ficar a olhar para trás para ver se fizemos um erro", insiste. Portas responde: "Portugal precisa de mais uma candidatura a primeiro-ministro". E diz que juntos ("com o CDS com 23,5% e o PSD com 23%") a direita "faz a maioria que o PR pede" - mesmo que o PSD não vença, leia-se."

1 comentário:

Anónimo disse...

sublinhar o facto de haver circunstâncias que podem multiplicar por muitos o valor de uma posição minoritária numa negociação, realçar como a arte de negociar tanto pode maximizar o valor final dessa multiplicação como deitar tudo a perder e constatar como negociações que até podem deixar ambas as partes aparentemente satisfeitas no presente também podem potenciar uma instabilidade latente no período seguinte. Atenção que nada a ver com o Costa que anda a fazer de Godofredo para a esquerda e de Asdrúbal para a direita, essa história não é para aqui chamada, ele é que sabe se quer ser Primeiro-ministro ou não.