terça-feira, 15 de setembro de 2015

Um par de chinelos para Costa


Paulo Portas tinha ido parar ao chinelo, Passos Coelho foi parar ao chinelo. Pela lógica, António Costa também iria lá parar. Acabou por ir e acabou por não ir, dependendo de como se leia o debate de ontem, quanto a mim o melhor de todos pelo grande vencedor da noite: quem assistiu. Foi de longe o debate mais esclarecedor.
Lido por olhos que já aceitaram que o amanhã será sempre pior do que o hoje, almas rendidas ao pavor que lhes inspira o desconhecido, “realistas”reféns da gratidão que lhes merecem aqueles que asseguram a “governabilidade” do país sacrificando as suas vidas, coristas do refrão do “toda a gente sabe que mais vale um Governo que obedeça a Berlim a dizer que não gosta do que outro que o faça a dizer que obedece com o máximo prazer” e outras espécies da mesma família atribuirão a vitória a António Costa, aliás como sempre atribuiriam. O líder socialista mostrou conhecer muito bem o seu eleitorado e serviu-lhes os fantasmas e os chavões que vão alimentando a relação tornando-os surdos a qualquer argumento.
Já lido por quem não se deixou morrer em vida e ainda não desistiu de fazer a democracia valer a pena, o debate de ontem acabou com Costa metido, não apenas num, um só não chegou, num par de chinelos. No primeiro, Catarina arrumou os cortes nas nossas reformas futuras com as quais o PS pretende alimentar o consumo necessário para fazer a economia crescer evitando os aumentos salariais que poriam a perder os milionários ganhadores desta austeridade tão selectiva, os 1660 milhões em cortes nos rendimentos dos reformados que o PS, novamente na vez desses milionários, quer pôr a pagar a sua aventura e mais uma flexibilização de despedimentos, agora chamada de “regime conciliatório”, com a qual o PS quer aumentar ainda mais os ganhos, adivinhem lá, dos mesmos do costume. No segundo, enfiou a renegociação da dívida e a obediência ao Tratado Orçamental que obrigam o PS a governar como a direita assumida, uma retórica que rentabiliza a estupidez natural de quem aceita que a inflação não transforma qualquer congelamento nominal num corte real, o “realismo”que nos vai condenando a empobrecer a trabalhar, a “governabilidade” que quem está na política para representar quem lhe confia o voto e não para se recrear com outra agenda qualquer terá sempre que recusar.
Catarina Martins ainda deu uma oportunidade derradeira a António Costa no último minuto e meio do frente-a-frente: “Eu acho que as pessoas colocam grande esperança, até neste debate e na forma como somos capazes ou não de conversar sobre o país, e eu levo essa esperança e a responsabilidade que ela nos traz muito a sério. E portanto queria dizer-lhe o seguinte: se o Partido Socialista estiver disponível para abandonar esta ideia de cortar 1660 milhões nas pensões, abandonar o corte na TSU, que ofende as pessoas e que tanta gente já se manifestou contra ela, e abandonar esta ideia de um “regime conciliatório” que é uma flexibilização dos despedimentos, no dia 5 de Outubro eu cá estarei para que possamos conversar sobre um Governo que possa salvar o país, que possa pensar como reestruturar a sua dívida, para termos futuro e para termos emprego. Vai falar a seguir a mim. Se me disser que sim ou que vai pensar, já valeu a pena este nosso encontro. Mas se me disser que não, as pessoas vão ficar a saber que no dia 5 de Outubro o Dr. António Costa pretende telefonar a Rui Rio ou a Paulo Portas, que os pensionistas vão perder 1660 milhões, que a TSU vai ser cortada e que os despedimentos vão ser facilitados. Em qualquer dos casos, conto sempre que as pessoas saibam quem é que as pode defender. E que queiram defender o país. E que cada um e que cada uma nestas eleições não desista de que há um futuro possível no nosso país, e que não é de protectorado”.
Em vez do sim e em vez do não, António Costa preferiu acomodar-se nos fundinhos mais fundinhos dos chinelos da sua interlocutora: puxou do politiquês mais redondo e disse... umas “coisas”. Quem votar PS ficou a saber como será usado o seu voto.


(editado)

1 comentário:

fb disse...

Paulo Portas tinha ido parar ao chinelo, Passos Coelho foi parar ao chinelo. Pela lógica, António Costa também iria lá parar. Acabou por ir e acabou por não ir, dependendo de como se leia o debate de ontem, quanto a mim o melhor de todos pelo grande vencedor da noite: quem assistiu. Foi de longe o debate mais esclarecedor.