quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Quando damos as mãos


As abordagens e reacções à recente crise dos refugiados, que de recente apenas tem a mediatização que até aqui sempre lhe foi sendo negada, está a ser fértil em surpresas. Destaco duas.

Uma primeira, parte daquela franja mais embrutecida da nossa população, os que sempre vociferaram contra o RSI, os que negam solidariedade aos mais pobres entre os pobres em vez de exigirem responsabilidades aos que, pela calada da vigarice ou ao abrigo das liberdades de explorar quem trabalha que lhes vão sendo concedidas pelos poderes da Nação, enriqueceram acima das nossas possibilidades, agora vociferam que “primeiro estão os nossos” para nos dizerem que espécie de recepção gostariam de ter na fronteira espanhola se por cá estalasse uma guerra que nos deixasse sem tecto e sem sustento, à mercê de tiros e bombas.

Uma segunda, de outra personagem sinistra que de repente também lhe deu para ficar boazinha, Angela Merkel de sua graça, que não esbanjou a oportunidade gerada pelas guerras que sempre apoiou para restaurar as manchas deixadas na sua imagem pela solidariedade que sempre negou aos gregos, tem sido uma das vozes que mais se tem ouvido a apelar à responsabilidade e a puxar pelo dever de todos os europeus na resolução de um problema que até agora sempre fingiu que não existia.

A primeira pela barulheira que gera e tudo abafa, a segunda pelos monstros húngaro, polaco, checo e eslovaco que destacou da galeria dos respeitáveis “parceiros europeus” para ocuparem o altar do vilão que até aqui pertencia à patroa afasta-nos uma e conduz-nos a outra a uma terceira que não é surpresa nenhuma, apenas o será para quem se deixou convencer pela lengalenga do “não há dinheiro”: o dinheiro que sempre apareceu para salvar bancos apareceu pela primeira vez para salvar pessoas.

Ainda é demasiado cedo para comprovar que o consumo gerado por estes milhões terá efeitos que os triliões injectados no sector financeiro nunca tiveram sobre o crescimento económico e sobre a criação de emprego das comunidades que vierem a acolher refugiados mas já é possível fazer um primeiro balanço sobre os efeitos do que acontece quando acordamos da indiferença, somos solidários e damos as mãos para fazer pressão para que seja feita a nossa vontade. A comunicação social foi obrigada a despertar pela insistência de muitas organizações e cidadãos anónimos que denunciaram o drama vivido por uma multidão de refugiados em fuga que foi deixando milhares de mortos pelo caminho. O poder político foi obrigado a agir pelo clamor que se gerou quando as imagens de autêntico terror começaram a invadir as casas dos europeus pela janela da informação e a grande maioria exigiu solidariedade.

Sempre foi e sempre será esta a receita para nos libertarmos da tirania da ganância: solidariedade. A solidariedade que hoje exigimos para os refugiados, a solidariedade que ontem não soubemos reclamar para nós e para os nossos e deitámos tudo a perder, a solidariedade que arruinou a Europa quando a deixámos substituir pela obediência às leis do dinheiro dos senhores que a afundaram e agora se queixam que falta Europa à Europa, a solidariedade que fará a Europa renascer quando soubermos obrigá-la a regressar. E ainda não regressou, atenção. Apenas deu um ar da sua graça.

1 comentário:

fb disse...

Sempre foi e sempre será esta a receita para nos vermos livres da tirania da ganância: solidariedade. A solidariedade que hoje exigimos para os refugiados, a solidariedade que ontem não soubemos reclamar para nós e para os nossos e deitámos tudo a perder, a solidariedade que arruinou a Europa quando a deixámos substituir pela obediência às leis do dinheiro dos senhores que a afundaram e agora se queixam que falta Europa à Europa, a solidariedade que fará a Europa renascer quando soubermos obrigá-la a regressar. Ainda não regressou.