segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Gostei de ler: "O “resultadismo comentarista”: do futebol aos debates políticos"


«Prosseguem os debates televisivos entre os protagonistas das próximas eleições legislativas. No de Passos Coelho e António Costa, a larguíssima maioria dos jornalistas e comentadores, por maior ou menor margem, atribuíram a vitória ao dirigente socialista. E tudo começou, em jeito de cronometragem de partida de uma prova de 100 metros, pela opinião determinante de Marcelo Rebelo de Sousa: “ganhou Costa”, disse uns segundos após o debate. Depois foi o que se ouviu, viu e leu. Uma opinião diversa era entendida como partidarizada, errada ou preconceituosa.
A este propósito, lembrei-me dos comentários no fim dos jogos de futebol. O resultado condiciona a apreciação do que a ele conduz. No fundo, exprime uma consonância não polémica e evita o trabalho de justificar o seu contrário.
Esta regra comentarista é, no futebol, quase levada à categoria de universal. Os comentários sobre um jogo acabam sempre por dar razão ao resultado. À falta de melhor conclusão, há até sempre a velha frase “não obstante, o resultado acaba por justificar-se”. Como se vê pelo uso do verbo reflexivo, o dito resultado contém em si a justificação.
Outra faceta dos comentários pós-debates é a da supremacia da forma sobre o conteúdo. Ganha-se porque se fala mais alto e forte, perde-se porque se estava demasiado sereno. Ganha-se porque se mostram gráficos, recortes e papéis (que quase toda a gente não consegue ler e muito menos compreender). Perde-se porque não se exibiu uma qualquer parafernália documental. Ganha-se porque se lançaram umas frases expressivas e que entram bem na memória auditiva, mais conhecidas por “soundbites (1) e perde-se porque não se usou esse estratagema [é curioso que dizer uns soundbites é excelente, se dito por uns políticos, mas para outros lá se diz criticamente que “se limitou, como de costume, a uns soundbites)]. Ganha-se porque se encosta o adversário às cordas, com muitas interrupções. Perde-se porque não se usam truques de linguagem e de interrupção do oponente. Ganha-se porque se falou do passado. Perde-se porque se falou, também, do passado. Ganha-se porque se disseram muitos números. Perde-se porque se abusou dos (mesmos) números.
Quanto ao conteúdo, pouco se comenta. A não ser o que não foi discutido, numa espécie de certidão negativa dos assuntos. E quando se discute um tema — como foi o caso no debate Coelho / Passos, do plafonamento contributivo da Segurança Social — não creio que uma só pessoa tenha ficado a perceber os conceitos e as diferenças para além dos poucos que já os sabiam.
Volto à imagem do futebol. No dia 4 de Outubro à noite — e, claro, dependendo dos resultados — ou se dirá que o debate foi decisivo (se o PS vencer) ou que os debates pouco significam na opção já determinada dos eleitores (se a coligação PàF ficar à frente). Tal qual como no futebol. Viva o “resultadismo”, como agora se diz em futebolês! Explica tudo e em todas as situações. Ninguém fica mal na fotografia.
(1) — soundbites (ou sound-bites), mas nunca soundbytes, como se lê frequentemente.» – Bagão Félix, no TME.

1 comentário:

fb disse...

Ganha-se porque se fala mais alto e forte, perde-se porque se estava demasiado sereno. Ganha-se porque se mostram gráficos, recortes e papéis (que quase toda a gente não consegue ler e muito menos compreender). Perde-se porque não se exibiu uma qualquer parafernália documental. Ganha-se porque se lançaram umas frases expressivas e que entram bem na memória auditiva, mais conhecidas por “soundbites (1) e perde-se porque não se usou esse estratagema [é curioso que dizer uns soundbites é excelente, se dito por uns políticos, mas para outros lá se diz criticamente que “se limitou, como de costume, a uns soundbites)]. Ganha-se porque se encosta o adversário às cordas, com muitas interrupções. Perde-se porque não se usam truques de linguagem e de interrupção do oponente. Ganha-se porque se falou do passado. Perde-se porque se falou, também, do passado. Ganha-se porque se disseram muitos números. Perde-se porque se abusou dos (mesmos) números.