quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Faz de conta que não vamos ter que pagar


Os portugueses habituaram-se a ouvir falar em eleições legislativas como aquele momento em que são chamados a eleger um Governo e não os deputados que irão representá-los nessa escolha que se faz no Parlamento e apenas aí, a comunicação social pode ir-se dando ao luxo de chamar a este o que não chama àquele, “candidato a Primeiro-ministro”, e o hábito vai-se perpetuando para benefício de alguns e para prejuízo de todos e da democracia. Uns são os “candidatos”, os outros são os “irrealistas”. A escolha torna-se simples.

Os portugueses têm alergia a números, Passos Coelho e Paulo Portas puderam dar-se ao luxo de se apresentarem a eleições com um programa sem números e António Costa com um com uma série de números mal amanhada, mas são “candidatos a Primeiro-ministro” e os outros não. Os outros só complicam e não querem governar.

Os portugueses, habituados a dizerem “eu quero votar num partido que seja Governo” para se obrigarem a fazer a escolha entre o mau e o péssimo que a sua frase transforma numa escolha entre um melhor e um pior, permitem que um Governo ande quatro anos a chamar poupanças aos cortes sucessivos desferidos sobre as suas vidas para agora, nós somos os “bons” e eles são os “maus”, permitirem a um candidato à sucessão andar para aí a dizer que poupanças não são cortes sem concluírem que o seu “bom” até na linguagem é igual ao seu “mau” ou que, ao fim e ao cabo, o seu “mau” afinal também diz o que o “bom” sempre disse. Os outros nem vale a pena ouvi-los, não são nem candidatos, nem são realistas.

E hoje os portugueses tiveram notícias dos milhares de milhão que, pela segunda vez em meia dúzia de anos, apareceram do dia para a noite para pagar o buraco escavado por mais uma quadrilha de banqueiros, magia, sem abalar a convicção inabalável e “responsável” da grande maioria de que “não há dinheiro”. Grande surpresa. Apareceram no défice orçamental, o tal que se reduziria com os seus impostos, os seus salários, as suas pensões de reforma, os seus serviços públicos, as vidas de centenas de milhar dos seus que foram empurrados para a pobreza e para o desemprego sem retorno. O défice que se reduziria mas que não se reduziu: os 2,7% do “Portugal no bom caminho”, soubemo-lo hoje, transformaram-se nos 7,2% do Portugal à espera da noite das eleições. O que é que dizem ao respeito o candidato “bom” e o candidato “mau”?

Voltam a dizer basicamente o mesmo, que não aconteceu nada. Um repete as promessas da campanha eleitoral de 2011 e jura que Bruxelas não nos obrigará a “medidas adicionais”. O outro desfaz-se em auto-elogios ao seu programa para garantir que não necessitará de ser alterado, presume-se, nem mesmo que Bruxelas assim o dite.

Vamos também fingir que não aconteceu nada.

Discutamos se o Sócrates deve ser ou não acompanhado pela polícia quando for votar.

Vai tudo recomeçar outra vez daqui a nada.

Há um ditado que diz “se queres ver o vilão, põe-lhe o pau na mão”. Ao menos que vá para o mais simpático. Escolha difícil. Verdade seja dita, o Pedro é simpático e o António não lhe fica nada atrás.

Os outros, os que sempre disseram que isto terminaria assim, os que tudo fizeram para que não terminasse assim, esses são “irrealistas”, “utópicos”, “radicais”. É não fazer-lhes caso, eles não querem governar.

1 comentário:

fb disse...

O défice que se reduziria mas que não se reduziu: os 2,7% do “Portugal no bom caminho”, soubemo-lo hoje, transformaram-se nos 7,2% do Portugal à espera da noite das eleições. O que é que dizem ao respeito o candidato “bom” e o candidato “mau”?