terça-feira, 29 de setembro de 2015

Era uma vez uma maioria absoluta



A segunda semana de campanha está a ser bastante diferente da primeira. António Costa desistiu de acenar com aquela espécie de programa que serviu de trunfo eleitoral até ao momento em que percebeu a sua incapacidade de o explicar. Pedro Passos Coelho esforça-se por explicar o programa que nunca teve e aposta tudo em convencer o seu eleitorado que agora é que irá cumprir as promessas que passou quatro anos a quebrar.


Uma das notícias do dia, caída do céu para enriquecer as trocas de acusações que utilizam para ofuscar a obediência a Berlim a que ambos se amarraram, é a ordem que a então Secretária de Estado Maria Luís Albuquerque terá dado à Parvalorem, a empresa pública que gere os activos tóxicos do antigo Banco Português de Negócios (BPN), para esconder prejuízos com o objectivo de não agravar as contas do défice de 2012. Os socialistas acusarão agora quem os acusava de falsear contas de fazer o mesmo, os pafistas sair-se-ão com uma tirada técnica qualquer complementada com uma laracha sobre a falta de autoridade moral dos socialistas para os acusarem do que quer que seja, uns dirão que o BPN foi pior do que o BES, outros que o BES foi pior do que o BPN. O “vocês são piores do que nós” que usam para rodear o “somos ambos péssimos” é o jogo deles, contornar o “ambos pusemos os portugueses a pagar a delinquência banqueira” é o manual de sobrevivência deles, apresentar um défice com três décimas a mais ou três décimas a menos como sinal de sucesso ou de fracasso é a lógica deles. Alimentar-lhes o espectáculo é ajudá-los a perpetuarem-se no poder.


Por que é que eles e a sua comunicação social não falam com a mesma insistência e a mesma gravidade das 300 mil famílias carenciadas que serão obrigadas a pagar os manuais escolares dos seus filhos com o dinheiro que não têm e ficar à espera do reembolso? Também reflecte uma medida que visa camuflar o défice, mas esta “APENAS” prejudica pessoas, e quando são pessoas as prejudicadas para eles nunca é grave. Por isso é que quem se bate pelos seus não se pode bater por eles. Gente que é gente bate-se pela sua gente.


E quem se bate pelo que é seu, pela defesa do que é nosso, percebe que a notícia da camuflagenzinha do dia vem mesmo a calhar para abafar a denúncia da noite de ontem feita por gente que se bate pela sua gente: um aumento de impostos que os capatazes das maiorias absolutas já têm acertado com os patrões de Bruxelas para nos pôr a pagar os últimos rombos que a delinquência e a agiotagem financeira dos seus protegidos vai deixando nas nossas contas públicas. Catarina Martins pediu explicações ao Governo, Passos e Portas não as deram, António Costa calou-se e não insistiu na questão. A solidariedade é uma coisa muito bonita, sobretudo entre partidos obrigados a entenderem-se quando a gente que é gente lhes recusa o poder absoluto da almejada maioria para reinarem sozinhos. As sondagens continuam a dizer-lhes que desta vez apenas terão maioria se o espectáculo terminar em casamento, isto é, se os votos “úteis”no PS repartirem a sua utilidade com PSD ou CDS. Surpreenda-se quem se deixar embalar. O eleitorado do centrão adoptou como tradição tropeçar sempre nas mesmas pedras.


Gente que é gente vota sempre mas nunca dá o seu voto a esta gente. Gente que é gente dá as mãos para fazer um país diferente.

1 comentário:

fb disse...

Catarina Martins pediu explicações ao Governo, Passos e Portas não as deram, António Costa calou-se e não insistiu na questão. A solidariedade é uma coisa muito bonita, sobretudo entre partidos obrigados a entenderem-se quando a gente que é gente lhes recusa o poder absoluto da almejada maioria para reinarem sozinhos. As sondagens continuam a dizer-lhes que desta vez apenas terão maioria se o espectáculo terminar em casamento. Se os votos “úteis”no PS repartirem a sua utilidade com PSD ou CDS. Gente que é gente vota mas não dá o seu voto a esta gente.