segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Da Grécia, nada de novo


Da Grécia, nada de novo, pelo menos no que respeita a resultados eleitorais. Nenhuma força partidária melhorou ou piorou significativamente o score obtido nas eleições de há 7 meses e o Governo de coligação renovou o poder que desperdiçou para romper com a austeridade imposta externamente ao longo do primeiro mandato.

Resultados à parte, há algumas curiosidades que merecem ser salientadas para memória futura. A primeira delas é, desde logo, o resultado obtido pelo novo partido formado pelos dissidentes do Syriza, que os deixa fora do Parlamento. Foram os únicos que se mantiveram fieis ao mandato anti-austeridade que receberam por duas vezes do seu eleitorado e foram os únicos que honraram o contrato eleitoral com que se fizeram eleger. Mas foi precisamente neles que a maioria não votou, foi a eles que os gregos não quiseram dar voz no Parlamento. Também temos cá disto, por isso lhe chamei curiosidade e não novidade. O povo às vezes é simplesmente maravilhoso e é assim que agradece àqueles que dão o seu melhor para que seja feita a sua vontade.

A segunda curiosidade lê-se e ouve-se em toda a imprensa falada e escrita colega daquela que na Grécia trabalhou arduamente para moldar o voto dos gregos à vontade dos seus donos: em vez de destacarem a batota descarada que as empresas de sondagens gregas fizeram ao longo do último mês, os batoteiros de cá preferem veicular uma versão que nos fala numa “vitória surpreendente” do Syriza. Surpreendente mesmo surpreendente é ainda haver tanta gente que leve o trabalho deste colaboracionismo como informação e não como desinformação.

A terceira curiosidade envolve alguém que também faz parte do grupo dos que há muito perderam toda a vergonha e tudo fizeram para influenciar o sentido de voto dos gregos. A azia com que Martin Schulz ficou após ter conhecimento do lugar para onde os gregos o mandaram juntamente com toda a corte da senhora Merkel fê-lo esquecer-se do cargo que ocupa e pô-lo a comentar a composição do Governo de um estado soberano e a chamar “extrema-direita” ao populismo dos Gregos Independentes. À extrema-direita, mesmo extrema-direita, que o deveria preocupar pelos crimes contra a humanidade cometidos contra refugiados pelas Hungrias desta união da decadência, a que a indigência moral do europeísmo a que pertence continua a fechar os olhos, nem uma palavra. São respeitáveis “parceiros europeus”, pois então.

A quarta e última curiosidade desta minha série de destaques saiu da boca de alguém que ainda há tão poucos dias usou a Grécia e o Syriza como arma de arremesso num debate televisivo, armas essas que agora, vamos lá esquecer a pulverização do PASOK, trocou por vivas à rejeição de um Governo de direita. As voltas que o mundo dá na boca de António Costa. O Syriza é finalmente um partido à imagem do seu, com discurso de esquerda e programa de direita. De direita, é bom não esquecê-lo, porque lhes foi imposto externamente pelos Governos socialistas e não socialistas que se juntaram para os esmagar. E de direita mas sem renunciar à renegociação de uma dívida impagável que os socialistas que não a viabilizam jamais irão reivindicar em nome de um “realismo” a que, quando o “socialismo” tornar a ser socialismo, voltará a chamar-se traição.

1 comentário:

fb disse...

Em vez de destacarem a batota descarada que as empresas de sondagens gregas fizeram ao longo do último mês, os batoteiros de cá preferem veicular uma versão que nos fala numa “vitória surpreendente” do Syriza. Surpreendente mesmo surpreendente é ainda haver tanta gente que leve o trabalho deste colaboracionismo como informação e não como desinformação.