sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Quem quiser que se ria


Uma mulher que perdeu o emprego no tempo de Sócrates e nunca mais endireitou a vida. Outra que está a recibos verdes desde esse mesmo ano. Dois cartazes de campanha. Dois cartazes do PS. Com toda a certeza que o intuito das obras-primas da campanha coordenada por Ascenso Simões não é a assunção pública das responsabilidades pela destruição irreparável de largas centenas de milhar de vidas que os Governos do seu partido repartem com o Governo suportado pela actual maioria. Ele próprio é uma das vozes que têm defendido que o que foi feito até agora foi pouco e que é preciso ser ainda mais “arrojado”, leia-se, generalizar e aumentar ainda mais a precariedade dos vínculos laborais e acabar com o que resta de estabilidade no emprego. O amadorismo que os cartazes do PS sugerem convida ao riso e é capaz de pôr ao rubro a chacota da claque laranja e o embaraço da claque rosa. Quem tiver alguma coisa a ganhar com mais um desses faits divers que ajudam a engrossar e a fidelizar as claques dentro do arco, pois que se ria deste amadorismo aparente. Mas quem tiver tudo a perder com a manutenção deste poder que vai pondo cada vez mais gente a empobrecer a trabalhar, que ponha os olhos nos últimos anos da carreira daquela espécie de sindicalista que sempre assinou de cruz tudo o que lhe foi dado a assinar e até andou de viagem pelo país com Sócrates a dizer maravilhas do Código do Trabalho que emoldura aquele cartaz que se vê ali em cima: João Proença foi nomeado pelo Governo de Passos Coelho, primeiro, em 2013, para o exército de assessores da Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal   e, nesta Segunda-feira, foi o escolhido para presidir ao novíssimo  Centro de Relações Laborais, prémio pelos serviços prestados à Nação que acumula com o anterior. Em vez de amadorismo, temos aqui um casamento que denota profissionalismo ao mais alto nível. O arco recompensa sempre os seus fieis servidores. A uns com cargos que dão fortuna ou estatuto. A outros publicita-lhes a desgraça num qualquer cartaz de campanha. O arco oferece-nos mais três décadas de austeridade. Quem quiser que se ria.

Vagamente relacionado: As pessoas que parecem contar as suas histórias pessoais nos outdoors do Partido Socialista são na verdade “figurantes”. E uma delas revelou ao jornal digital Observador que não deu autorização para a sua foto ser usada nestes cartazes. O PS já reagiu, pedindo desculpa. (…)“O PS solicitou já esclarecimentos pormenorizados aos fornecedores e prestadores de serviços, bem como todas as informações necessárias a que se possa avaliar o procedimento seguido”, salienta o comunicado, que em nenhum momento pede desculpa por as histórias contadas não serem das pessoas retratadas.

Ainda mais vagamente: as historietas que o PS conta sobre o desemprego não batem certo nem com o seu curriculum passado nesta matéria nem com as suas propostas actuais. Tudo foi sempre fácil nos cartazes do PS: um deles prometia criar 150 mil postos de trabalho em 2009. Mas a realidade foi madrasta e, com a sua maioria absoluta, deu em alterar o Código do Trabalho, e depois veio a troika, e agora o “despedimento conciliatório” ou, na versão musculada de Ascenso Simões, “o fim do contrato de trabalho”. A história do PS é uma longa peregrinação que passou pela criação dos contratos a prazo, pela promoção das empresas de trabalho temporário, pelas restrições à contratação colectiva, pela punição fiscal das vítimas dos recibos verdes. Por isso, não se diga que a culpa é do Athayde. O PS, que lhe paga, faz bem em preservar a imagem do “marqueteiro”. Porque o que ele faz ou deixa fazer não tem defesa, simplesmente porque o PS é o que é, um partido que se empenhou em enfraquecer os direitos, as regras e os mecanismos de criação de emprego. Os seus cartazes podem dizer o que for, mas serão sempre o retrato dessa realidade: o PS foi inimigo do emprego e agora não apresenta uma proposta consistente para a criação de emprego. Por isso, faz estes cartazes que desdizem o que dizem.
 

E nada a ver com: o vereador da Câmara de Lisboa, Duarte Cordeiro, é o novo director de campanha do PS, depois de Ascenso Simões se ter demitido domingo de manhã.
 

2 comentários:

fb disse...

O arco recompensa sempre os seus fieis servidores. A uns com cargos que dão fortuna ou estatuto. A outros publicita-lhes a desgraça num qualquer cartaz de campanha.

Anónimo disse...

Eu só me surpreendo com quem fica surpreendido com os comportamentos e práticas dos costas do Largo do Rato.
São gente sem honra nem princípios.
Basta ver o modo traiçoeiro como este número 2 empurrou o amigo e camarada José Seguro para se perceber o nível destas gente que quer trepar para o poder