quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Sobre a direita canhota a querer ganhar juízo (gostei de ler)


«Nacionalizar a grande indústria e recuperar bens públicos, incluindo os caminhos de ferro, o gás e a electricidade, aumentar a progressividade dos impostos, investir para criar emprego, reconstruir o serviço nacional de saúde, abolir as propinas nas universidades, sair da NATO e recusar as aventuras belicistas, terminar com a opção nuclear das forças armadas britânicas. É o programa de Jeremy Corbyn, que é hoje o candidato mais bem colocado para ganhar a liderança dos trabalhistas britânicos (eleições em setembro).

A explicação para esta ameaça de um terramoto político dentro da social-democracia britânica parece fácil de entender. Primeiro veio Tony Blair, que conduziu o partido trabalhista aos crimes de guerra no Afeganistão e no Iraque, promoveu as parcerias público-privado, atacou os serviços públicos e afirmou o liberalismo como um dogma económico e financeiro para todo o sempre. A City reforçou-se e os conservadores voltaram tranquilamente ao poder e lá permanecem. Depois, o partido trabalhista prosseguiu a mesma política com os sucessores de Blair, de Brown a Miliband, mesmo que este tivesse prometido uma nova orientação, frustrando os seus apoiantes.

Ao longo de vinte anos, a doutrina da terceira via, segundo a qual as eleições se ganham ao centro com uma política de centro, conduziu à vitória monumental da direita. Por isso, muitos militantes trabalhistas querem romper com este passado e Corbyn aparece como o homem certo para o fazer.

Os cínicos argumentam que Blair tem mesmo razão e que, se o partido virar à esquerda, a direita se eternizará no poder. Vai ser refrão em Portugal e em toda a Europa, assustada com esta surpresa. Portanto, a ideia é que tudo deve continuar na mesma, com o centro a aceitar que a direita determine a única política admissível. Esta solução é a da eternidade da ordem liberal.

De facto, os partidos socialistas submeteram-se a tal razão cínica. Não é essa a história de Hollande? Eleito com promessas gloriosas (fazer frente a Merkel! em poucas semanas renegoceio o Tratado Orçamental e acrescento um plano para o emprego!), alinhou-se no consenso europeu e assim ficou. O mesmo se dirá de Renzi (que já enfrentou uma greve geral contra a mudança da lei laboral), o mesmo se dirá de Seguro e de Costa (para quem não há vida para além do Tratado Orçamental e dos comunicados do Eurogrupo), de Sanchez (que quer um ministro das finanças europeu, como Schauble e à imagem de Schauble) e de todos os outros.

A Inglaterra tem no entanto duas diferenças assinaláveis em relação a França, ou Itália, ou Portugal. A primeira é que o partido trabalhista tem uma história organicamente ligada ao movimento operário e sindical, o que explica que neste caso ainda tenha havido gente e convicção para esta aspiração a uma viragem anti-blairista e anti-liberal. A segunda é que o país não está submetido nem ao euro nem às regras do BCE e tem assim margem de manobra para políticas próprias, o que permite um debate mais aberto sobre alternativas realizáveis. A Corbymania que tanto incomoda o establishment resulta dessas duas potencialidades.

Deve ser levada a sério. É mesmo uma ameaça, porque é mais uma expressão de como os sistemas políticos subjugados às ideias liberais e à austeridade tendem a acumular tensões, que em alguns casos começam a explodir: assim começou na Grécia, continuou em Espanha e chega a Inglaterra. Mas como todos os exemplos mostram, é preciso muito mais do que um homem honesto, que abomine Blair e os seus crimes e que queira ser verdadeiro com a sua gente: é preciso ter a capacidade, o programa e a relação de forças para criar um poder que enfrente o poder. E isso não se consegue a partir de um partido mergulhado na renúncia e nos interesses. A divisão do partido trabalhista pela sua direita parece então ser o destino de uma hipotética vitória de Corbyn — e veremos se todos os outros candidatos e todos os bonzos do partido não se juntam contra ele. Se se separarem, ainda bem, não há nada que substitua a clareza de propostas políticas para um país e o seu povo. (…» – Francisco Louçã, no TME.

2 comentários:

fb disse...

Nacionalizar a grande indústria e recuperar bens públicos, incluindo os caminhos de ferro, o gás e a electricidade, aumentar a progressividade dos impostos, investir para criar emprego, reconstruir o serviço nacional de saúde, abolir as propinas nas universidades, sair da NATO e recusar as aventuras belicistas, terminar com a opção nuclear das forças armadas britânicas. É o programa de Jeremy Corbyn, que é hoje o candidato mais bem colocado para ganhar a liderança dos trabalhistas britânicos (eleições em setembro).

Anónimo disse...

Este parece mesmo trabalhista. Se chegar a fazer um quarto do que promete, já é uma grande vitória.