segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Gostei de ler: "Um bocejo bem perigoso"


«Escreve Ricardo Costa que o programa do PàF é um bocejo: “O programa da maioria não se limita a ser simples. É confrangedor na falta de pensamento ou ousadia ideológica. Pode dar para ganhar, claro, mas com um imenso bocejo”. Será um bocejo. Mas é um bocejo perigoso.

É antes de mais um programa incompetente. Depois de todo o fuzué a respeito das contas do cenário macroeconómico do PS, o PàF apresenta um programa sem contas, sem compromissos precisos, sem descrever os instrumentos para as políticas, sem indicar prazos e medidas, portanto sem credibilidade. Evita o debate no país não dizendo quase nada sobre o que pretende para o país. Não incomoda e conforta as clientelas, mas também não se compromete. O que lá está escrito podia estar ou não estar.

Talvez tudo isto não seja então falta de “ousadia” mas antes pela língua de pau do poder, paroquial e cortês, sobretudo matreiro porque sabe que a “Europa” não autoriza veleidades, esperançoso de uma recuperaçãozinha que financie uma subida de receitas fiscais mas ciente de que lhe falta poder para que tal milagre chegue aos cofres.

De resto, ideologia banal. Umas escolas com mais autonomia, mais uns dinheirinhos para o ensino privado, entregar uns hospitais às misericórdias para que os “irmãos” distribuam entre si os cargos de administradores e outras prebendas.

Num ponto, o programa é mesmo moderado face ao do PS: enquanto o PS propõe a receita mais acelerada para a corrupção do sistema eleitoral (os círculos uninominais), o PSD é forçado a ceder ao CDS e a ficar-se por propor uma escolha preferencial dentro das listas partidárias, o que foi sendo facilitado e justificado pelas tímidas incursões do modelo das primárias que só um partido ensaiou, aliás com resultados que o envergonham.

Onde, no entanto, o bocejo se torna mais perigoso é na segurança social, pois retoma a velha proposta do plafonamento, cuja função é conduzir as poupanças para os sistemas financeiros privados (uma parte do PS andou no passado a namorar esta proposta, mas ela nunca foi aceite até hoje). Mais uma vez, falham as contas, nem se sabe quem é abrangido nem quanto custa a operação proposta pelo PàF. Mas podemos fazer as contas que faltam ao PàF: demonstrou-me um colega, economista da segurança social, que um plafond a 2 mil euros vai reduzir no longo prazo as receitas em 8%. Dito de outra forma, o que este modelo assegura é o caminho dos fundos de pensões e, depois, a obrigação da redução das pensões do sistema público, porque o sistema previdencial, hoje equilibrado, entrará em défice graças à perda de receitas. Dois coelhos de uma cajadada.

Onde é concreto em medidas, o programa é perigoso. Onde não trata de medidas, é simplesmente ameaçador. Não bocejemos, portanto.» – Francisco Louçã, no "Tudo menos economia".


Vagamente relacionado: "Vai por aí uma atrapalhação na esquerda. Não é para menos. O Partido Comunista de Chipre, que então governava o país, aceitou o Tratado Orçamental que podia ter vetado e estamos onde estamos. O Syriza, depois de uma vitória esmagadora no referendo, aceitou o programa económico de austeridade imposto por Berlim. Estas duas derrotas calam fundo. Mas a perplexidade maior, penso eu, nasce de outro espanto: muita da esquerda não concebia que a União Europeia e a gestão do euro fossem tão exuberantemente brutais e descobriu, de repente, que tem vivido numa ilusão possibilista. (...) Não dizer nada, não escrever nada, calados e discretos, deixa passar e logo se vê, essa é a atitude dominante da esquerda atrapalhada, os que, na aflição, lideram correndo para as traseiras da opinião pública. (...) Pergunta-se: podem continuar a acreditar numa negociação europeia com soluções razoáveis, depois da cimeira sobre a Grécia? Respondem que sim. Pergunta-se: quando a austeridade é um ultimato, as mesmas regras ou o mesmo Tratado Orçamental permitem uma economia socialmente responsável, evitando a austeridade? E respondem outra vez que sim. Pergunta-se: mas esse euro novo, sem a Alemanha, só do Norte, só do Sul, de onde virá ele, com acordo consensual de 19 ou de 28 países, com os parlamentos, governos e partidos a aceitarem mudar os tratados com uma vénia amável aos países aflitos? E respondem que talvez. Pergunta-se: mas quem vai impor essa transmutação europeia, se assistimos ao poder absoluto da finança e de Merkel? E respondem que será Hollande. Mas Hollande não é o side-car de Merkel, não é ele quem propõe reservar para os seis fundadores a governação do euro e expulsar os coitados? E respondem que então será Costa que há-de convencer Hollande a convencer Merkel. Mas Costa não aceita e aplica o Tratado Orçamental, como pode ser ele a corrigir a Europa? E recomendam que não se fale mais no assunto. (continuar a ler)"

1 comentário:

fb disse...

Onde, no entanto, o bocejo se torna mais perigoso é na segurança social, pois retoma a velha proposta do plafonamento, cuja função é conduzir as poupanças para os sistemas financeiros privados (uma parte do PS andou no passado a namorar esta proposta, mas ela nunca foi aceite até hoje). Mais uma vez, falham as contas, nem se sabe quem é abrangido nem quanto custa a operação proposta pelo PàF. Mas podemos fazer as contas que faltam ao PàF: demonstrou-me um colega, economista da segurança social, que um plafond a 2 mil euros vai reduzir no longo prazo as receitas em 8%. Dito de outra forma, o que este modelo assegura é o caminho dos fundos de pensões e, depois, a obrigação da redução das pensões do sistema público, porque o sistema previdencial, hoje equilibrado, entrará em défice graças à perda de receitas. Dois coelhos de uma cajadada.