sexta-feira, 28 de agosto de 2015

A globalização é.


Quem é que ainda se lembra dos argumentos que serviram para convencer o mundo a aceitar a eliminação das barreiras que impediam uma globalização que traria felicidade e fortuna para todos? Éramos uns privilegiados, e a palavra era mesmo esta, que vivíamos num patamar de bem-estar que não podíamos recusar a povos condenados à pobreza eterna pelas barreiras que o nosso egoísmo ia conservando. A memória dessa argumentação perdeu-se no trajecto que o destino do mundo percorreu desde esse tempo dos privilegiados que nunca fomos até ao dos escravos em que essa globalização nos vai transformando.

Hoje apenas uma minoria tem a percepção dos efeitos da deslocalização de empresas que se legitimou através da acomodação da fábula da aldeia global da prosperidade nas opiniões públicas ocidentais. O que antes era emprego com direitos deste lado da globalização transformou-se na semi-escravatura que, lá do outro lado do mundo, bem longe das nossas vistas, faz a fortuna de uma classe de negreiros pós-modernos. O que antes era produzido com restrições ambientais passou a poder ser  produzido sem resquícios de respeito pelo ambiente depois do desaparecimento das barreiras alfandegárias que jamais poderiam ser abolidas incondicionalmente se a ideia fosse mesmo a de um planeta ambientalmente sustentável capaz de proporcionar melhores condições de vida lá nesse inferno distante que muito raramente aparece nos noticiários.

Mas a globalização aparece todos os dias nas notícias. Na ausência de partidos com discursos articulados que a desmontem, basta que lhe dêem outro nome para que quase ninguém a veja como ela é, uma concentração da riqueza à escala mundial, a aceleração dos ganhos dos que sempre ganham conseguida através da aceleração das perdas dos que sempre perdem.

São as empresas que fecham por ser impossível sobreviver com regras tão viciadas. São os salários e as condições de trabalho que fazem confusão a uns senhores que aparecem diariamente na TV a catequizar para a mutilação da qualidade de vida que proporcionam para ser possível competir nessa batota. São os Estados sociais que o esmagamento desses salários  deixou de poder pagar. São os milhões gerados à custa deste esmagamento   que se acumularam do lado de lá do mundo multiplicados por toda a espécie de especulação financeira que agora aparecem por cá a aproveitarem a venda a preço de saldos do património construído com os impostos sobre o trabalho de várias gerações que os novos salários de miséria deixaram de poder fazer crescer. São sociedades inteiras, cuja prioridade era o bem-estar das suas populações, reorientadas para a formação de lucros não importa como, sacrificando quem e arriscando o quê. São poderes públicos capturados pelo poder deste dinheiro sujo que se retraem para o deixarem a mandar à sua vontade a construir o mundo que melhor o engorde. São guerras cirurgicamente semeadas onde há petróleo e outros recursos para pilhar.

E são populações inteiras rendidas a uma inevitabilidade que apenas o é por ser função da sua incapacidade de compreender o mundo. O Mediterrâneo transformou-se num imenso cemitério líquido? Mandam-se para lá uns barcos para estancar a praga. A Europa é invadida por refugiados das guerras semeadas pelos senhores do mundo? Erguem-se muros contra o inimigo, agita-se o fantasma do terrorismo, enviam-se soldados para recebê-los de metralhadora em punho, ameaça-se com ainda maisbombas, recolhem-se os corpos das vítimas de um desespero também já despojado de vida.

Mas nada a ver com a tal globalização da prosperidade e da felicidade para todos que ninguém viu e já ninguém recorda. Hoje a globalização dispensa argumentos a favor. "Toda a gente sabe" que ser contra a globalização é ser irrealista e demagógico. Hoje a globalização não se questiona porque hoje a globalização é.

No retrato de Saramago, a globalização era um totalitarismo que não precisava nem de camisas verdes, nem castanhas, nem suásticas, era um mundo com os ricos a governar e os pobres a sobreviver como fosse. Lástima que não tivesse vivido o suficiente para o ler sobre os novos pobres, que mais cedo do que tarde esta repartição internacional da pobreza tornará ainda mais pobres, que, agradecidos ao admirável mundo novo que lhes proporciona salários que dão para pouco mais do que um telemóvel topo de gama comprado a crédito,  hoje se vêem por aí ao lado dos ricos a gritar contra a ameaça dos que fogem da desesperança que, com  todo o tempo e carinho que lhes dispensarem, os ricos se encarregarão  de fazer o favor de encaminhar lá para casa.

3 comentários:

fb disse...

E são populações inteiras rendidas a uma inevitabilidade que apenas o é por ser função da sua incapacidade de compreender o mundo. O Mediterrâneo transformou-se num imenso cemitério líquido? Mandam-se para lá uns barcos para estancar a praga. A Europa é invadida por refugiados das guerras semeadas pelos senhores do mundo? Erguem-se muros contra o inimigo, agita-se o fantasma do terrorismo, enviam-se soldados para recebê-los de metralhadora em punho, ameaça-se com ainda mais bombas, recolhem-se os corpos das vítimas de um desespero também já despojado de vida.

Anónimo disse...

Tudo começou com a queda do muro de Berlim em 1989, ordenada pelos mesmos que agora amam a globalização. Na noite da queda do muro,fui jantar com vários amigos de profissão no Guincho; havia portugueses, holandeses e belgas todos felizes com o facto:agora é que ia ser em grande. Toda a noite, disse nem sei porquê , mas porque pressenti que seria o principio do nosso desastre e dum crescimento incomensurável da fortuna "DELES"...Alguém tem ainda duvidas disso. Vejam as migrações, as primaveras arabes, a exportação da democracia americana para o Iraque, Afeganistão, Egipto, Libia, Siria.....Que lhes parece que merecem os Bush, os Blair, os Aznar, os Barrosos,e todos os que comandam a UE?Vale a pena responder?Claro que não....

Filipe Tourais disse...

Não veio mal nenhum ao mundo com a queda do muro de Berlim. O mal veio depois. Os dois estão relacionados, é verdade, mas pelo bem-estar que o ocidente deixou de sentir necessidade de ostentar aos rivais do outro lado do muro e pelas mãos mafiosas de ambos os lados que se deram nos anos que se seguiram.