quarta-feira, 29 de julho de 2015

O leão é que não


A morte de um exemplar de uma espécie protegida, um leão, famoso, símbolo nacional do Zimbabwe, é uma das notícias que agitam estes dias. Por toda a parte se lêem abordagens absolutamente estéreis, exteriorizadas ao sabor do instinto e da vontade de superar as anteriores nas adjectivações e nos insultos. Não serei mais um a chover no molhado com explorações da vertente emotiva deste que, sim, realmente é um de muitos episódios de uma tragédia de dimensões globais sem fim à vista. Parece-me que será incomparavelmente mais proveitoso abordar a justificação dada por aquele que foi identificado como o autor do crime, um dentista norte-americano que se escuda atrás de uma hipotética cobertura legal da barbaridade que assume desenvolver como hobby. O homem, cujo nome ninguém recordará daqui a um par de semanas, jura que pagou para obter todas as licenças que delimitam essa legalidade. Resumindo, o senhor é mais um que dá férias à consciência quando acha que a lei lho permite.

Será muito cómodo circunscrever esta forma de pensar a um caso e aproveitá-lo para alimentar o auto-conceito de boas pessoas, muito melhores do que aquele sacana daquele americano, que todos procuramos projectar quando alinhamos na onda de indignação que, ainda bem, a atrocidade em causa desencadeou. Mas olhemos bem para quem se indigna e para a tal mola que a morte de um leão fez disparar.

Temos um salário mínimo completamente legal que, ao condenar milhões a uma existência de privações, faz de Portugal uma das várias reservas de mão-de-obra barata ao dispor dos caçadores de fortunas que queiram aproveitar a liberdade para explorar que lhes é garantida por lei para organizarem os seus safaris do empreendedorismo. E a mola não mexe. Vivemos subjugados por tratados europeus 100% legais que dão aos credores de dívidas, que os próprios se encarregam de ajudar a crescer a coberto da sua lei, o direito a exigirem às suas vítimas que, em vez de canalizarem o que ainda há para darem de comer às suas crianças e de tratarem os seus doentes, desviem o que já não há para pagarem os juros agiotas que se formaram à sombra do poder de legislar que tais senhores se atribuíram a si próprios. E a mola volta a não se mexer.

Definitivamente, a indignação instantânea que se incendeia com notícias sobre caça ao leão não se vê arder com a mesma intensidade com a enxurrada de notícias sobre a caça ao homem que nos vai esvaziando o presente e roubando o futuro. A esmagadora maioria que se manda ao ar ao saber da morte de um leão reparte-se nas intenções de voto que renovarão o poder de legislar a uma, duas ou eventualmente a todas as três forças partidárias que deram legalidade a uma austeridade muito selectiva que desde 2008 roubou 3,6 mil milhões aos salários para oferecer 2,6 mil milhões ao capital. A caça legalizada ao trabalhador, ao velho, ao desempregado, a tudo o que seja público, às nossas pensões de reforma futuras, à Educação dos nossos filhos, ao SNS, às condições de trabalho e aos salários dignos tem ordem para continuar. Não critico ninguém por se revoltar com o espectáculo bárbaro de um leão morto para dar largas ao instinto de um anormal que não sabia o que fazer a 50 mil euros, mas parece-me que se essa indignação toda que hoje se vê por aí não passasse de mera alienação, uma indignaçãozeca de plástico inconsequente e sem sabor a nada, dela sobraria o suficiente para dar por terminada a caça ao coelhinho que se vai cozinhando a si próprio entretido com historietas macabras de dentistas e leões. A culpa também é sempre dos outros.

1 comentário:

fb disse...

Definitivamente, a indignação instantânea que se incendeia com notícias sobre caça ao leão não se vê arder com a mesma intensidade com a enxurrada de notícias sobre a caça ao homem que nos vai esvaziando o presente e roubando o futuro. A esmagadora maioria que se manda ao ar ao saber da morte de um leão reparte-se nas intenções de voto que renovarão o poder de legislar a uma, duas ou eventualmente a todas as três forças partidárias que deram legalidade a uma austeridade muito selectiva que desde 2008 roubou 3,6 mil milhões aos salários para oferecer 2,6 mil milhões ao capital. A caça legalizada ao trabalhador, ao velho, ao desempregado, a tudo o que seja público, às nossas pensões de reforma futuras, à Educação dos nossos filhos, ao SNS, às condições de trabalho e aos salários dignos tem ordem para continuar. Não critico ninguém por se revoltar com o espectáculo bárbaro de um leão morto para dar largas ao instinto de um anormal que não sabia o que fazer a 50 mil euros, mas parece-me que se essa indignação toda que hoje se vê por aí não passasse de mera alienação, uma indignaçãozeca de plástico inconsequente e sem sabor a nada, dela sobraria o suficiente para dar por terminada a caça ao coelhinho que se vai cozinhando a si próprio entretido com historietas macabras de dentistas e leões. A culpa também é sempre dos outros.