terça-feira, 14 de julho de 2015

Lições gregas (continuação): o IV Reich


Sempre me inquietou saber que houve milhões de judeus que, durante o III Reich, mesmo conscientes do que lhes iria acontecer poucos minutos depois e apesar de saberem que o seu número superava largas dezenas de vezes o dos seus carrascos, avançavam para as câmaras de gás para morrerem sem se revoltarem contra metralhadoras em número suficiente para matar alguns mas largamente insuficiente para matá-los a todos. Há relatos de que, de quando em vez, havia um ou outro que se revoltava e era prontamente abatido porque a esmagadora maioria dos restantes não aproveitava para se lhe juntar e ajudar a fazer crescer um motim que, para ter alguma probabilidade de ser bem sucedido, teria que contar com o sacrifício e com a coragem da maioria que preferiu convencer-se que ia apenas tomar um duche para não arriscar perder, no máximo, uns minutos de vida para que houvesse quem se salvasse da morte certa que a resignação de todos a todos garantiu.

E inquieto-me outra vez. Setenta anos depois, alguém se lembrou de substituir metralhadoras por dívida, judeus por gregos e Deutschland por Europe para dar uma nova versão ao Reich. A última semana serviu para clarificar o que tinha ficado por clarificar. Quem manda na Europa e no euro é a Alemanha embora todos jurem “Europe über alles”. A Alemanha gaba-se de ter uma colónia chamada Grécia que está disposta a trocar por Porto Rico com os Estados Unidos. A política oficial da Europa é a pilhagem que a Alemanha dite independentemente do que possa acontecer aos pilhados, ao euro e ao projecto europeu. Os saqueadores não se importam nada se cada euro que consigam extorquir for obtido retirando o pão da boca a uma criança ou poupando no analgésico que humaniza a morte a um doente terminal.

Ficou demonstrado que quem ouse recusar continuar a ser destruído por esta pilhagem não pode contar com a solidariedade nem mesmo de outros países alvo da mesma pilhagem, lá está, porque “Europe über alles” ou, traduzido em bom português, porque quem governa esses países tem direito ao seu quinhão do produto do saque. E que governante europeu que ouse afrontar a vontade alemã, em vez de respeito pelas escolhas democráticas que esteja largamente mandatado para representar, deve contar com um grupo coeso de alemães e alemãezinhos que tudo fará para retaliar sem medir consequências, pelo que nunca por nunca deverá deixá-los muito à vontade relativamente à sua eventual saída do euro, sob pena de ser precisamente essa a bomba atómica que terá apontada à cabeça para o fazer aceitar entrar na câmara de gás e adiar a morte certa mais algum tempo.

Tsipras teve tudo para evitar a humilhação histórica que todos presenciámos na última semana. Teve o povo consigo, primeiro nas eleições em que o poder lhe foi confiado, depois no referendo que convocou para renovar essa confiança, uma aposta ganha que lhe rendeu uma vitória que nem o mais optimista imaginaria poderia saldar-se tão esmagadora como acabou por acontecer. Teve seis meses para tomar as medidas necessárias para programar a saída ordenada do euro que recusou desde o início. Confiou estar a negociar com gente minimamente responsável e não com terroristas. Ignorou a guerra que lhe foi movida para o desgastar internamente que culminou na decisão do BCE de fechar a torneira da liquidez que precipitou tudo. Arranjou maneira de perder em toda a linha. E perdeu.

Resta saber se e o que é que a outra parte ganhou e por quanto tempo. Todos os cidadãos europeus estiveram de olhos postos na Grécia. Se a maioria compreendeu que permanecer no euro não é o tal duche de beleza com que os judeus se convenciam a avançar ordeiramente para a câmara de gás, se com este desembarque fracassado na Normandia a maioria percebeu que o euro é a moeda única da austeridade e que esta Europa é a versão IV do imperialismo alemão, talvez daqui a 70 anos alguém escreva umas linhas de regozijo sobre o que é nosso dever fazer para acabar o mais depressa possível com a loucura de um Führrer de saias apeado antes de conseguir impor definitivamente o seu império da pobreza generalizada pela escravatura do trabalho precário e dos salários baixos que começou a construir sobre os escombros de uma Europa do bem-estar que trouxe a paz e garantiu prosperidade aos europeus nas décadas que se seguiram ao fim do III Reich.

A magna carta desta IV edição chama-se Tratado de Lisboa. Temos estado na linha da frente em tudo o que no futuro será recordado como muito mau, oxalá saibamos posicionar-nos na mesma linha da frente também no que se recordará como bom. Temos responsabilidades acrescidas para nos fazermos recordar por outra coisa que não um “eles avançaram ordeiramente para a pobreza, perderam tudo, até mesmo a democracia que custou tantas vidas a conquistar”.

3 comentários:

fb disse...

Setenta anos depois, alguém se lembrou de substituir metralhadoras por dívida, judeus por gregos e Deutschland por Europe para dar uma nova versão ao Reich. A última semana serviu para clarificar o que tinha ficado por clarificar. Quem manda na Europa e no euro é a Alemanha embora todos jurem “Europe über alles”. A Alemanha gaba-se de ter uma colónia chamada Grécia que está disposta a trocar por Porto Rico com os Estados Unidos. A política oficial da Europa é a pilhagem que a Alemanha dite independentemente do que possa acontecer aos pilhados, ao euro e ao projecto europeu. Os saqueadores não se importam nada se cada euro que consigam extorquir for obtido retirando o pão da boca a uma criança ou poupando no analgésico que humaniza a morte a um doente terminal.

Anónimo disse...

É difícil dizer tanta asneira em tão pouco tempo.
Uns procuram a Paz
Procuram ser Solidários
Outros, infelizmente, procuram atear incêndios... fomentar o ódio.

Filipe Tourais disse...

"O economista britânico Stuart Holland disse hoje em Lisboa que a Europa está "na iminência de um IV Reich", referindo-se à situação na Grécia e à "hegemonia de Berlim" na União Europeia." Leia aqui e instrua-se.