terça-feira, 16 de junho de 2015

Submissos nos querem, erguidos nos terão



Certos painéis de alegado debate televisivo têm-me feito repescar nas minhas memórias alguns episódios que me remetem para a matriz cultural onde essas doutas opiniões vão angariando apoios.

Lembro-me, por exemplo, da primeira assembleia de condóminos a que compareci na qualidade de proprietário de uma fracção de um imóvel, quando fui obrigado a explicar à senhora administradora, que pouco antes me disse que aquilo sempre tinha sido uma família   harmoniosa onde ninguém nunca levantou problemas, que eu agora também fazia parte dessa “família” e que não tinha que pedir licença para reivindicar direitos que não dependiam do que ali se decidisse.

Ou da vez que essa mesma senhora me apareceu à porta às 9 da madrugada, explicação dela, para que o empreiteiro que a acompanhava verificasse o estado da parede exterior do prédio pela janela do meu apartamento, de como lhe pedi para regressar mais tarde e que avisasse sempre que uma visita daquelas se tornasse necessária, de como insistiu com ares autoritários, que era a administradora do prédio, de como deu meia volta depois do meu “pois, mas esta casa é minha e aqui só entra quem eu quero e quando eu quero” e de como tive que repeti-lo para apaziguar a solidariedade que os meus vizinhos dedicaram à invasora que elegeram soberana da minha privacidade e das minhas horas de sono.

Regressando aos pregadores que fizeram saltar estas linhas, a versão que escolheram para rebater a recusa de Alexis Tsipras em prostituir o mandato democrático que recebeu do seu povo e em deixar morrer a democracia da Pátria que a viu nascer aos pés das imposições dos credores apostou na sua sobreposição com outras vontades populares, alegadamente democráticas e investidas do poder supremo do dinheiro.

Mas mesmo nada democráticas. Tal como os meus vizinhos com a minha vida, os comentadores do regime reconhecem aos vizinhos alemães o direito a condenarem os gregos à miséria, o direito dos vizinhos finlandeses a exigirem uma penúria ainda maior para os reformados gregos, o direito do amigo FMI a recusar a substituição dos cortes nas pensões de reforma dos gregos por reduções em gastos com armamento, o direito dos franceses a recusarem a todos os gregos desempregados o direito a assistência na Saúde e esse luxo chamado electricidade aos mais empobrecidos pela brutalidade do ocupante externo, o direito de todos eles a continuarem a financiar a imposição de uma solução final austeritária contra a vontade soberana de um povo e o direito dos três partidos do nosso rotativismo a alinharem-se com estas imposições, a aplicarem-nos voluntariamente a mesma receita e a replicarem o desastre grego numa versão que vendem como sucesso à prova de contraditório nos meios de comunicação que dominam como querem nesta democracia moldada pelo seu quase monopólio da opinião.

Porque se assim não fosse, caso aqueles "debates" observassem padrões mínimos de contraditório, os colaboracionistas que ganham a vida a promover a subserviência aos ricos e a defender políticas que, quer na Grécia, quer em Portugal, fizeram disparar o desemprego e a pobreza, o crescimento da dívida, a destruição da Saúde, da Educação e da Segurança Social, a emigração   dos nossos jovens e a classe de novos milionários que se encheu nestes anos de protectorado ficariam expostos sempre que tomassem o partido daqueles figurões não eleitos que, ao longo de quatro meses de atitudes a todos os títulos deploráveis até mesmo numa administradora de condomínio parva todos os dias mas eleita pelos seus condóminos, tanto se esforçaram para humilhar um Governo saído de eleições democráticas num país soberano.

E é isto que está em jogo. A derrota do Governo grego constituiria o esvaziamento de qualquer mandato democrático que no futuro ousasse afrontar a estabilidade da austeridade que nos tem as vidas a saque. Seria a oficialização em definitivo de eleições legislativas nacionais circunscritas à escolha entre empobrecer à PSD ou empobrecer à PS, isto é, enterrar qualquer esperança num futuro possível de ser alterado com a força do voto. É esta a estabilidade que estes "europeístas" reclamam para si. Perdemos todos e perde a democracia, mas ficaria à vista de todos que não existe alternativa à saída do euro e, quem sabe, até mesmo à revisão da permanência numa União Europeia da qual portugueses e gregos deixámos de retirar qualquer benefício. Há submissões que duram menos, outras que duram mais, mas não há tirania que resista eternamente. A bem ou a mal, esta, a democracia deles, também há-de rebentar. Sem lhes pedir licença.

1 comentário:

fb disse...

E é isto que está em jogo. A derrota do Governo grego constituiria o esvaziamento de qualquer mandato democrático que no futuro ousasse afrontar a estabilidade da austeridade que nos tem as vidas a saque. Seria a oficialização em definitivo de eleições legislativas nacionais circunscritas à escolha entre empobrecer à PSD ou empobrecer à PS, isto é, enterrar qualquer esperança num futuro possível de ser alterado com a força do voto. É esta a estabilidade que estes "europeístas" reclamam para si. Perdemos todos e perde a democracia, mas ficaria à vista de todos que não existe alternativa à saída do euro e, quem sabe, até mesmo à revisão da permanência numa União Europeia da qual portugueses e gregos deixámos de retirar qualquer benefício. Há submissões que duram menos, outras que duram mais, mas não há tirania que resista eternamente. A bem ou a mal, esta, a democracia deles, também há-de rebentar. Sem lhes pedir licença.