terça-feira, 30 de junho de 2015

Gostei de ler: "Uma semana vertiginosa para uma contagem decrescente"


O anúncio-surpresa do referendo apanhou toda a gente desprevenida. Schauble, que há pouco mais de um mês tinha sugerido a hipótese em estilo fanfarrão, critica agora a iniciativa porque teme o seu efeito. Lagarde afirma que a escolha não tem objecto. Ontem, Schultz e Juncker, mais uma plêiade de figurões, anunciaram a sua campanha eleitoral para grego ver.

Começou portanto a contagem decrescente.

Hoje, a Grécia não pagará ao FMI. O que não tem consequências legais imediatas: durante duas semanas, andarão cartas para lá e para cá a constatar o evidente. A Grécia não poderá recorrer a fundos do FMI, mas a porta estava fechada desde o verão passado, nada de surpreendente. Em todo o caso, é um ponto de viragem.

Virá então a campanha. Manifestações e emoção. Com os bancos fechados (excepto os balcões que vão abrir para pagar aos pensionistas) e os multibancos com movimentos limitados a 60 euros, ninguém terá dúvidas de que é uma escolha fundamental, num sentido ou noutro.

A campanha será então assim: Merkel contra Tsipras. Como o Partido Socialista e todo o centro, mais a direita, votaram contra o referendo, esses serão os embaixadores de Merkel. O Partido Comunista apelou ontem ao voto nulo, é-lhe indiferente se o programa da troika é aprovado ou rejeitado. E a Aurora Dourada, o partido nazi, defende a manutenção no euro.

Do lado do governo, só há duas vantagens nesta campanha. Uma, vai pagar os salários e as pensões a tempo. Duas, a escolha é entre o Partido do Medo e o Partido da Grécia. Será isso suficiente para vencer? O medo poderá fazer pesar a balança para a humilhação, apresentada como segurança, ou resistirá a dignidade, apresentada como a opção democrática responsável? Só domingo se sabe, mas o medo costuma vencer quando não há grandes movimentos telúricos na sociedade.

Para já, o Sim parte maioritário. E tem condições para reforçar a vantagem, atendendo à instabilidade acentuada pelo fecho dos bancos; o apelo da dignidade nacional pode ser menos congregador, mesmo num país que reduziu o seu rendimento nacional em 25%, do que o receio pelas poupanças. Para mais, a incerteza do que aconteceria depois de uma rejeição da austeridade também joga a favor do Partido do Medo. A fronda internacional ainda mais: o BCE jogou no referendo, ao decidir não liquidar os bancos (a assistência financeira mantém-se mas não assiste) mas não lhes dar os euros necessários para operarem (o que obrigou o governo a fechar os bancos desde 2ªf). Lagarde, agora, admite uma negociação mais cordata – se o Sim ganhar. Dijsselbloem repete o mesmo. Com o Sim, a Europa promete ser dialogante e até bondosa.

O problema é que o voto será contado, mas a consequência não será. De facto, a escolha em si parece fácil: entre aceitar (Sim) ou rejeitar (Não) o ultimato da troika. Tudo claro. Mas o difícil é que não se sabe o que vem depois, ganhe o Sim ou ganhe o Não.

O voto Sim deixaria tudo em aberto. Ninguém sabe o que vem depois. Vejamos: se o Sim vencer, ou o governo se demitirá, provocando novas eleições, ou aplicará as medidas do ultimato. A possibilidade de eleições imediatas só seria evitada se houvesse maioria para suportar um governo tecnocrático, como no passado, e resultou sempre mal. Além disso, exigia o acordo do Syriza, que tem maioria neste parlamento, o que parece inaplicável. Em contrapartida, o Syriza aplicar as condições do ultimato será impossível (Varoufakis sugeriu tal hipótese, um dos seus excessos dos últimos dias: nem os credores aceitariam nem o Syriza teria condições para tal desvario). Resta a possibilidade de novas eleições. Mas poderá o centro e a direita ganhá-las? As sondagens davam a Nova Democracia, a direita, com 13%, menos de metade do que obteve há cinco meses, e o Partido Socialista com votação residual. Para completarem o ultimato, precisam de uma vitória eleitoral.

Para quê? A resposta não é inédita, essa coligação trará o terceiro resgate. E depois virá o quarto ou o colapso de uma economia exangue: continuar a cortar salários e pensões depois do que já sofreram os gregos, para prometer saldos primários como a Alemanha nunca teve nos seus melhores tempos de prosperidade, é uma ignomínia.

Outra incógnita se houver eleições: qual será a nova proposta eleitoral do Syriza e o seu impacto? Não é coisa pequena. Não pode ser outra negociação sobre a dívida, não houve nenhuma enquanto o partido conduziu o governo e não foi por não ter proposto e tentado. Se alguma coisa ficou evidente, foi o que são as autoridades da União Europeia e do Euro.

Por outro lado, pior ainda, um novo governo que negoceie um novo programa com a troika precisará não só de ter a aprovação do parlamento grego como do parlamento alemão e de outros (o que pode ser muito difícil na Finlândia, por exemplo) e, em todo o caso, de todos os governos da zona euro. Um imbróglio.

Com a hipótese mais difícil da vitória do Não, o ultimato é rejeitado. Mas também não se sabe o que vem depois. Não é fácil que seja uma nova ronda de negociação, só Varoufakis parece acreditar nisso: ninguém antecipa Lagarde, Schauble e Draghi reunidos de novo com o mesmo governo grego e a aceitaram o que sempre rejeitaram, essa reestruturação da dívida com a qual só Obama parece concordar. Se é verdade que o golpe imposto com o ultimato era simplesmente motivado pela intransigência da União Europeia contra um governo que não seja da cor de Merkel, então a conversa nunca regressa ao ponto de partida. A Grécia só terá a opção da saída do euro, imprimindo dracmas para poder pagar salários e pensões, porque o BCE vai liquidar os bancos quando se lhes esgotar a liquidez. E aí o Syriza tem uma dificuldade, é que nem se preparou tecnicamente nem discutiu com a população essa alternativa. Terá que improvisar, onde era preciso que houvesse planos de contingência detalhados. Eles têm sido preparados por alguns sectores na esquerda, sobretudo dentro do próprio Syriza, mas não fazem parte da plataforma do partido e da sua direcção. Vai ser precisa uma resposta clara, contundente, com um plano de operações de curtíssimo prazo, se o Não ganhar. E não se pode voltar a cometer o erro de pensar que os chefes da Eurozona querem o bem de todos ou sequer uma negociação de boa fé.

Contagem decrescente? Sim, para domingo. Mas ninguém sabe nem pode saber o que acontecerá na segunda feira. Nem muito menos depois deste tempo vertiginoso, quando à esquerda se pensarem as lições deste golpe em curso e à direita se tomarem medidas para que isto nunca mais possa voltar a acontecer.» – Francisco Louçã, no TME.

1 comentário:

fb disse...

O problema é que o voto será contado, mas a consequência não será. De facto, a escolha em si parece fácil: entre aceitar (Sim) ou rejeitar (Não) o ultimato da troika. Tudo claro. Mas o difícil é que não se sabe o que vem depois, ganhe o Sim ou ganhe o Não.