quinta-feira, 4 de junho de 2015

Gostei de ler: "O coliguês é uma língua muito traiçoeira"


«Passos Coelho e Paulo Portas apresentaram ontem o programa da sua coligação. Não, não foi bem o programa. Foram as linhas orientadoras do programa que ainda há-de vir. Com palmas e a benevolente presença de muitos ilustres.

Vejamos então que orientam tais linhas orientadoras.

Orientam a linguagem, em primeiro lugar. Leia isto: “Apesar de todas as frentes emergenciais em que o atual Governo teve de agir, merece realce o facto de nunca ter abdicado de uma perspetiva prospetiva, elaborando e aprovando documentos definidores de estratégias a médio e longo prazo que, ancoradas nas previsões contidas no Programa de Estabilidade, estabelecem prioridades de ação claras e adequadas à natureza dos nossos problemas.” O português passa a ter uma nova dimensão épica, romântica, passa a ser uma língua atrevida, fascinante, cintilante, nova nos sentidos e no alcance: apresenta-se o coliguês, ao seu serviço.

Registe esta maravilha de clareza e de orientação: com a “perspectiva prospectiva”, com “estratégias ancoradas” e com frentes emergenciais”, não seria de esperar menos do que “prioridades de acção claras e adequadas”, “elaborando documentos definidores de estratégias”. Para o “médio e longo prazo”, claro está, não podia ser por menos.

Conhecida a linguagem, permitam que vos evoque a grandeza da lista de “acções claras”.

Primeira “prioridade de acção clara”: corrigir a gralha. Onde se lia que o governo garante um défice “claramente abaixo de 2,7%”, grande vitória, passou a ler-se um défice “claramente abaixo de 3%”, outra grande vitória. Uma diferença clara de 500 milhões de euros. O coliguês é uma língua traiçoeira, no melhor pano cai a nódoa.

Segunda prioridade, ainda de outra “acção clara”: medidas “que removam os obstáculos à natalidade”. Podemos imaginar o que quisermos, mas será tudo gráfico.

Mais uma prioridade: a resposta ao envelhecimento. “Ela exige, também, que face ao envelhecimento progressivo das nossas sociedades se mude radicalmente a forma como olhamos para o papel que os mais idosos devem assumir, valorizando o seu contributo aos mais diversos níveis, nomeadamente por via de medidas que promovam o envelhecimento ativo. Trabalharemos para permitir uma transição gradual da vida ativa, facilitando o prolongamento da vida laboral, de forma voluntária, nomeadamente favorecendo modelos de trabalho a tempo parcial”. Se alguém desconfia que isto quer dizer aumentar a idade da reforma, cortar nas pensões “actualmente a pagamento”, como misericordiosamente esclarece Maria Luís Albuquerque, e um famoso ajustamento de 600 milhões, já percebeu o vigor da proposta.

Mas há mais: “Garantir o rigor na seleção dos docentes” e “Reordenar a rede de ensino superior público”. Como disse que disse?

E depois há grandes soluções para as empresas: “Criando um ambiente favorável ao investimento, quer reduzindo adicionalmente os entraves burocráticos e administrativos que ainda persistem, quer assegurando a estabilidade e a previsibilidade do quadro fiscal, nomeadamente através da continuação da redução do IRC”. Redução do IRC percebeu-se, falta o “ambiente favorável” (mas o investimento total não caiu 22% durante o mandato do PSD-CDS?). Mas são “linhas de acção claras”, não se pode pedir tudo.

Ainda por cima, falta o essencial: “Favorecendo soluções que contribuam para a capitalização das empresas”. E, claro, “apostando adicionalmente em domínios em que apresentamos importantes vantagens competitivas, como é o caso do mar, do turismo e do agroalimentar”. Sem economia verde e azul, sem os mares nunca dantes navegados, nunca seriam “linhas de acção claras”.

As “linhas” não esquecem nada. Os trabalhadores e os salários, tudo claro: “Proporcionando a existência de um quadro de regulação do mercado laboral que assegure a melhoria do rendimento salarial, tendo em conta os acréscimos de produtividade” (ou 12% de queda dos salários durante o mandato).

E depois o essencial, este programa é tal “que não transija perante a corrupção e o compadrio” (mas o Dias Loureiro não é um exemplo de grande empresário?).

Vem ainda a organização do sistema político, em que, como é de bom tom, há soluções: “Esta circunstância impõe a implementação de soluções que incrementem a participação cívica, a proximidade entre eleitores e eleitos e a construção de novos modelos de envolvimento dos cidadãos nas escolhas das políticas públicas, cientes dos efeitos concretos que cada opção possa acarretar”. Na dúvida, há sempre o recurso último do coliguês e de outras línguas nativas: “implementam-se” soluções.

Fica tudo dito. Tudo claro, linhas de acção que respondem a uma “perspectiva prospectiva”, com “estratégias ancoradas” face a “frentes emergenciais”. Sem tirar nem pôr. Direito com um fuso. Mais vale um pássaro na mão do que dois a voar. A coligação não tem nome mas tem virtude, não tem programa mas tem “implementações”, um dia terá respostas mas tem desde já “linhas de acção claras”. E foi sempre estabilidade, continua a estabilidade, a estabilidade tem “linhas de acção claras” — ignorando, evidentemente, a estabilidade da inconstitucionalidade de todos os Orçamentos de Estado, as demissões no governo, a irrevogabilidade das zangas, as linhas vermelhas que foram esborratadas, o caso Relvas, o caso Tecnoforma, os descontos para a segurança social do primeiro-ministro quando estável deputado, e tudo o que mais aconteceu estavelmente durante os anos de tormenta.

E, depois, senhores e senhoras, que abertura de espírito, que civismo, que tolerância, que interesse pela plebe: “O documento que agora se apresenta tem dois objetivos: balizar, com clareza, as orientações que presidirão à elaboração do programa eleitoral da coligação e dar início a um processo de discussão pública, visando obter contributos para esse programa. É, assim, e apenas, o início de um percurso e como tal deve ser entendido.”

É apenas o “início de um percurso”. Em bom coliguês, ficam “balizadas, com clareza, as orientações que presidirão à elaboração do programa eleitoral da coligação”. Depois não diga que eles não avisaram.» – Francisco Louçã, no TME.

3 comentários:

fb disse...

E depois o essencial, este programa é tal “que não transija perante a corrupção e o compadrio” (mas o Dias Loureiro não é um exemplo de grande empresário?).

Jorge Porto Salvo disse...

A opacidade da expressão escrita deste manifesto paupérrimo, a falta de clareza e a banalidade deste amontoado de frases sem sentido, o vazio por trás de tudo isto, leva-me a concluir que "documentos" como este manifesto(?) coloca-o ao nivel do Guião para a reforma do estado , da autoria (??!!) do vice Paulo Portas, Guião esse nunca visto...E mais não merece esta patética declaração de principios(???). Qual???!!!

Anónimo disse...

"A conferência para a apresentação das Linhas Orientadoras do Programa Eleitoral da Coligação PSD/CDS-PP foi um déjà vu da apresentação da reforma do Estado de Paulo Portas. Não aconteceu nada em meia dúzia de páginas com espaçamento triplo e discursos a bold.

A total vacuidade. Nem o nome da coligação se deram ao trabalho de inventar. No cartaz, só estava escrito: Acima de tudo Portugal PSD/CDS. Não acredito que a coligação se vá chamar uma coisa que soa a título de música do festival da canção da RTP. E é má ideia dizer vender a TAP e chamar que a Acima de tudo Portugal quer vender a TAP. Fazia mais sentido, dado que as poucas coisas que este Governo cumpriu foram as privatizações, um "Acima de tudo os chineses".

Portas foi aos pulinhos para o palco e apresentar, não promessas, mas garantias. Um verdadeiro momento de arrojo e um passo no futuro do discurso político, e a escolha do homem certo para nos dar garantias. Se há alguém capaz de nos dar garantias que não dá valor a promessas é Portas.

O vice, e líder da fatia pequena do coligação sem nome (uma espécie de No Name Boys), começou por dizer que a originalidade da proposta começava logo no número de garantia, que eram nove. Segundo Portas, não precisavam de inventar números redondos de propostas só porque isso é o costume. Mas, por acaso, não lhe deu para fazer onze, ou treze. Ficou-se pelas nove, com a desculpa dos números redondos. Um gazeteiro é sempre um gazeteiro. Seja na reforma do Estado, seja nos desejos que o Estado se reforme.

Depois, o vice começou a enumerar as nove garantias e senti falta que fossem doze, e que houvesse doze passas, porque aquilo eram desejos. Uma mistura entre desejos e... promessas. Uma espécie de conversa de "personal trainer" que também nos dá a catequese. Houve um momento em que o ouvi dizer "e comer batata doce e sumos de fruta". No final, quando já tudo dormitava, Portas garantiu que a reforma da Segurança Social será feita "por consenso", o que me leva a suspeitar que vamos ter de descontar para o consenso.

Depois surgiu Passos, com voz colocada, com ar de quem diz: "Chegou o pai. Eu explico o que se passa". Qual vendedor de aspiradores desata a dizer, não o que vai fazer, mas as tropelias que já fez? E descreve um Portugal absolutamente estonteante, com crescimento acima de todos os níveis europeus, desemprego a desaparecer a galope, um serviço de saúde como nunca se viu no mundo, feito com muito menos, e ficamos a pensar que fantástica deve ser a erva em Massamá.
Passos não faz promessas, nem garantias. Não tem discurso escrito, nem nome para a aliança. E não tem programa eleitoral. Passos só tem campanha. É a imagem perfeita deste Governo. O melhor nome para coligação era: Aliança Eleitoral."