terça-feira, 19 de maio de 2015

Série "novilíngua da austeridade": ser "credível"


FMI exige mais reduções salariais. FMI quer despedimentos ainda mais flexibilizados. FMI diz para reduzir ainda mais as pensões de reforma e para voltar a aumentar a idade mínima para ter direito à mesma. FMI quer despedimentos no Estado. FMI diz que ainda temos professores a mais. O FMI insiste e a economia tem sido peremptória na forma como tem reagido à implementação das suas receitas ao longo da última década. Sim, já lá vão mais de dez anos, estes últimos quatro recordamo-los melhor quer pela intensificação da dose, quer pela marca troika que lhe está associada. Mas já lá vão muito mais do que quatro. E foi sempre a perder.
Ainda assim, continua a haver quem acredite – ou diga que acredita – que este é "o" caminho.
Outros que este é "o" caminho mas que falta dar-lhe uns pequenos retoques, alegadamente suavizadores, capazes, simultaneamente, de convencer a economia a crescer e de continuar a agradar àqueles que vão regando a nossa agonia enquanto povo e enquanto país com milhares de milhão que se distribuem cada vez mais assimetricamente entre a minoria que enriquece com a receita e a esmagadora maioria que empobrece para os enriquecer.
Outros ainda, em muito menor número e alvo de toda a espécie de desconfianças apesar de sempre terem alertado para o desastre económico e social que tais políticas desencadeariam, defendem que apenas conseguiremos, já não seria nada mau, voltar a ser o que já fomos invertendo o sinal destas políticas, renegociando a dívida, auditando-a, eventualmente saindo do euro e definitivamente redistribuindo melhor o rendimento, combatendo as desigualdades, aumentando o investimento público e pondo a economia ao serviço das pessoas.
Mas a grande maioria ou não quer saber ou desconfia. Dedico estas linhas a estes últimos. A desconfiança é uma praga que se propaga por contágio. Uma das teses que mais leio e ouço é a de que a esquerda até tem umas propostas interessantes, pena é que não sejam "credíveis". O conceito merece reflexão. Se a esquerda propõe o inverso do que está a ser feito e o que está a ser feito tem provocado uma autêntica calamidade, a credibilidade está aqui, na própria calamidade.

Por que raio, então, é que a calamidade é credível e as propostas para a combater, pelo contrário, não o são? Onde está a credibilidade da austeridade? Não dou novidade nenhuma se disser que a austeridade conta com um exército de Marcelos, outro de Medinas Carreiras e ainda outro de Galambas – havia para aí um Costa, mas retirou-se entretanto – que todos os dias trabalham para credibilizá-la. E que, apesar do que defendem nos tempos de antena que lhes são oferecidos para o fazerem  ser a calamidade que todos conhecemos, os públicos respectivos continuam a confiar, a ouvi-los religiosamente e a fazer a média aritmética da credibilidade à prova de realidade que vai saindo da boca   de cada um dos seus comentadores de eleição para saberem o que dizer à mesa do café onde mostram que são cidadãos informados. Afinal, é a sua credibilidade que fica em causa se se saírem com ideias menos "credíveis". Fazer um figuraço. Ser consensual. Dizer o que o público respectivo gosta de ouvir. Ser "credível".

Vagamente relacionado: A dívida pública portuguesa continuou a crescer no primeiro trimestre de 2015, revela o boletim estatístico do Banco de Portugal. A dívida pública do país passou de 225.280 milhões de euros no final de Dezembro passado para 226.276 milhões de euros no fim de Março deste ano. Excluindo os depósitos da administração pública, a subida é idêntica, com mais mil milhões a acrescentar a uma dívida que não para de aumentar. Em termos de percentagem do Produto Interno Bruto, o aumento é de 0,1%, com a dívida a representar 130.3% no final de Março, acrescenta o Banco de Portugal.

5 comentários:

fb disse...

A desconfiança é uma praga que se propaga por contágio. Uma das teses que mais leio e ouço é a de que a esquerda até tem umas propostas interessantes, pena é que não sejam "credíveis". O conceito merece reflexão. Se a esquerda propõe o inverso do que está a ser feito e o que está a ser feito tem provocado uma autêntica calamidade, a credibilidade está aqui, na própria calamidade.

José Auzendo disse...

Vai desculpar-me, mas "credível" este seu texto não é ... Mas deve ter-lhe dado muito gozo a escrever, vê-se. Só me custa a entender é para que o publicou. Ou seja: também eu sou pouco credível, não vale a pena preocupar-se comigo.

Filipe Tourais disse...

Nada a desculpar, José, o José Acertou em cheio. Dá-me sempre imenso gozo escrever os textos pouco "credíveis" que vou publicando por aqui. Caso contrário, não os escreveria.

João disse...

Não se percebe para que precisamos de um Governo. O FMI manda cortar nas pensões, manda cortar nos salários, manda isto e aquilo,o "Governo" limita-se a assinar e a publicar.
Cá para mim, corríamos com os "governantes" poupávamos uma data de massa, talvez nem fosse preciso cortar nas pensões...

Filipe Tourais disse...

A ideia tem que ser precisamente a contrária: ter um Governo e correr com o FMI. Com Ao fazê-lo, deixamos de perder constantemente pipas de massa.