segunda-feira, 25 de maio de 2015

À esquerda que é esquerda: 3 em 1


A Segurança Social está oficialmente a saque. As pensões de reforma de quem trabalhou e trabalha uma vida inteira para garantir uma vida digna na velhice perigam. PSD quer reduzir a TSU aos empregadores. PS responde com descida da TSU não apenas para empregadores, também para trabalhadores. Maria Luís Albuquerque acena com mais reduções nas pensões de reforma dos portugueses e concretiza a ameaça atirando para o ar 600 milhões em cortes adicionais que alegadamente salvariam a sustentabilidade da SS. António Costa riposta, primeiro com a incerteza permanente que o seu rigor se encarregará de dissipar e depois rectificando o seu rigor admitindo recuar na proposta de revisão da TSU dos trabalhadores, e sobre a partilha da responsabilidade da incerteza que criticou ficámos conversados. Da minha parte, não sei de que é que a esquerda está à espera para aproveitar a oportunidade que lhe é servida de bandeja para propor um aumento no salário mínimo que comece a repor o poder de compra perdido ao longo destes 41 anos de democracia. Bastaria um aumento nesse montante, 70 euros, pouco mais de dois euros diários no primeiro ano, para produzir descontos e receitas em impostos de valor aproximado  àquele que a senhora ministra sugeriu roubar a quem já não tem idade para se poder defender. E esquerda que é esquerda seria isto que proporia: reduzir a miséria e a exploração, equilibrar por essa via as contas da Segurança Social e ainda travar mais um roubo. Justiça social, crescimento económico e sustentabilidade do Estado social. É um 3 em 1.


Vagamente relacionado: “Passos Coelho critica algumas soluções do PS por serem demasiado liberais, ele que nem aceitaria tal coisa, cruzes canhoto. Responde alguém do PS: mas Passos Coelho já defendeu o mesmo. E dá-se como exemplo uma conversa antes das eleições em que o actual primeiro-ministro propunha a normalização do contrato a prazo, para que seja fácil despedir a qualquer momento. Então, das duas uma. Uma: o que Passos Coelho defendeu é, ela por ela, a proposta de Mário Centeno, o chefe dos doze apóstolos do PS, para o mercado de trabalho. Para Centeno, até poderia haver contrato sem termo, mas a empresa poderia sempre terminá-lo a qualquer instante. O que dá igual ao que Passos Coelho propunha. No compromisso entre os economistas do PS, a formulação é ligeiramente diferente, inventa-se um “procedimento conciliatório” para facilitar e acelerar o despedimento colectivo. O que, mais uma vez, vai no mesmo sentido. Ou seja, o PS ataca Passos Coelho, que o acusou de liberal, dizendo que ele, Passos Coelho, tem a mesma posição que ele, o PS. O que se critica não é o fingimento de Passos – credo, são liberais! – mas o facto de Passos não apoiar a solução do PS, tão parecida com a sua. Ou, então, duas, é o PS que está a copiar as soluções de Passos Coelho. Na TSU, a proposta é, mais uma vez, só ligeiramente diferente: o PS corta mais na TSU (e o PSD e o CDS recuaram na sua proposta), distribui o corte entre empresas e trabalhadores, promete uma vaga compensação com impostos misteriosos do lado das empresas e reduzir as pensões futuras do lado dos trabalhadores. Mas a lógica liberal é a mesma: reduzir os custos do trabalho para melhorar a competitividade e aumentar provisoriamente o rendimento disponível sem aumentar os salários e as pensões. Num caso como noutro, o argumento do PS é: que Passos Coelho não se faça de esperto, ele já defendeu o mesmo, devia por isso apoiar as propostas do PS, que são iguais ou parecidas, mas sem dúvida melhores porque mais liberais. A competição será decidida pelo espelho mágico, que é o que sobra nestas circunstâncias: espelho meu, espelho meu, quem é mais belo do que eu, quem é mais liberal do que eu?” – Francisco Louçã.

1 comentário:

fb disse...

Da minha parte, não sei de que é que a esquerda está à espera para propor um aumento no salário mínimo que reponha o poder de compra perdido ao longo destes 41 anos de democracia. Bastaria um aumento de metade desse valor, não 70 mas apenas 35 euros, para produzir descontos de valor aproximado àquele que a senhora ministra sugeriu roubar a quem já não tem idade para se poder defender. E esquerda que é esquerda seria isto que proporia: reduzir a miséria e a exploração, equilibrar por essa via as contas da Segurança Social e ainda travar mais um roubo. É um 3 em 1.