Nós e as nossas escolhas
colectivas. Mais ou menos esclarecidamente, mais ou menos instintivamente, umas
vezes escolhemos por acção, outras fazemo-lo por omissão. A forma como
reagimos, e não reagir traduz também uma escolha, tem sempre consequências. O nosso
quotidiano é função destas escolhas. E, de tempos a tempos, somos confrontados
com o que delas resulta. Por estes dias, confrontamo-nos com o resultado da
divisão internacional da riqueza, com a qual nós, europeus, convivemos como se
fizesse parte da paisagem, e com o resultado das guerras semeadas por essa
organização de benfeitores do mundo que dá pelo nome de NATO, à qual a grande
maioria dos ocidentais faz todo o gosto em pertencer. Fizemos
do Mediterrâneo um imenso cemitério, há muito que sabemos que o Mediterrâneo é
um imenso cemitério, mas calhou que, de uma só vez, nos últimos dias o número
de mortos excedesse
largamente aquele que a nossa indiferença colectiva consegue acomodar. E a
reacção que o número gerou obrigou o directório europeu a tomar medidas. O
directório conhece-nos o suficiente para saber que o que chocou os europeus não
foram as causas da tragédia, entre elas aquelas que atrás referi, foi a
dimensão de dois naufrágios e foram as imagens de horror que nos invadiram a
sala lá de casa. Por isso, as medidas que anunciaram prontamente, dez, nem
nove, nem onze, eles sabem que dez tem outro impacto, apenas servirão para nos
ajudarem a esquecer as tragédias destes últimos dias e para nos devolverem à inconsciência que na semana passada ignorava que o Mediterrâneo há muito que é um
cemitério gigante. Um par de semanas será suficiente para voltarmos a ser o que
temos sido, com os do Norte a exigirem mão de ferro para com os preguiçosos do
Sul, os trabalhadores do privado a apontarem os privilégios dos do público, os jovens
a cobiçarem as pensões de reforma dos velhos, o roto a disputar a migalha do descosido.
De tempos a tempos, somos confrontados com o resultado das nossas escolhas colectivas.
Quando o inferno do lado de cá for em tudo igual ao do lado de lá, ninguém arriscará
a vida numa travessia para ficar na mesma. Decidimos enterrar a solidariedade que
nos fazia fortes. Seremos nós, cidadãos europeus, a encerrar o cemitério do Mediterrâneo.
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Há 1 hora


1 comentário:
Quando o inferno do lado de cá for em tudo igual ao do lado de lá, ninguém arriscará a vida numa travessia para ficar na mesma. Decidimos enterrar a solidariedade que nos fazia fortes. Seremos nós, cidadãos europeus, a encerrar o cemitério do Mediterrâneo.
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