Há pouco, chegou até mim uma das
muitas histórias do género que se vivem por estes dias por esse país fora. Uma
mãe contava-me a sua boa e a sua má notícia da semana. A boa, que a filha tinha
conseguido entrar em mestrado. A má, que a mesma filha, bolseira de
licenciatura, não tinha dinheiro para a
primeira propina, a qual pelos vistos, apesar dos protestos, lhe foi exigida
imediatamente juntamente com a garantia de lhe ser devolvida na eventualidade da
bolsa lhe ser atribuída. São 200 e tal euros mensais, mais do que sobra do ordenado
da mãe depois de pagas a renda de casa, água, luz e outros luxos do mesmo
género, também mais do que a miúda recebe pelas quatro horas diárias que faz na
caixa de um supermercado para ter dinheiro para as deslocações, alimentação, fotocópias
,– e livros são extravagância que está acima de qualquer possibilidade, e restante
material escolar que a mãe não pode comparticipar. Veio à conversa Bolonha, que antes as
licenciaturas eram de cinco anos, que as encurtaram para três, que passaram a
chamar "mestrado" aos restantes dois e que quem quer obter formação
equivalente às antigas licenciaturas de cinco anos passou a ter que pagar estes
dois últimos a preço de "mestrado", muito superior ao da propina
dos três primeiros anos, e com apoio social escolar ainda mais racionado e ainda
mais miserável do que aquele a que têm direito os alunos de licenciatura. E
vieram à conversa os agradecimentos dos ultra da claque rosa ao prisioneiro 44,
Primeiro-ministro do Governo que implementou o Processo de Bolonha, e as
homenagens que mereceu o grande homem da Ciência – digo-o sem qualquer ironia –
que o primeiro escolheu para executar Bolonha na qualidade de titular da pasta
da Ciência e Ensino Superior. Estas linhas são a minha homenagem àquela mãe, àquela
filha e a todos os meus compatriotas que, sem se fazerem notar, lutam diariamente contra as
dificuldades do inferno que todos vamos herdando daqueles que sempre têm lugar cativo
no paraíso dos grandes homens disto e daquilo. Alguns
conseguem vencê-las. Muitos, cada vez mais, ficam pelo caminho. Todos eles são os meus grandes
homens e as minhas grandes mulheres.

2 comentários:
Estas linhas são a minha homenagem àquela mãe, àquela filha e a todos os meus compatriotas que, sem se fazerem notar, lutam diariamente contra as dificuldades do inferno que todos vamos herdando daqueles que sempre têm lugar cativo no paraíso dos grandes homens disto e daquilo. Alguns conseguem vencê-las. Muitos, cada vez mais, ficam pelo caminho. Todos eles são os meus grandes homens e as minhas grandes mulheres.
https://www.facebook.com/photo.php?v=416442875132465
Enviar um comentário