«Com a saída da Grécia da zona
euro à vista, o debate sobre quem será o seguinte é inevitável. Mais tarde ou
mais cedo, a nossa saída acabará por ocorrer. Para que tal aconteça, o povo
português e algumas elites políticas da esquerda ainda têm de fazer a aprendizagem
que a liderança do Syriza fez nos últimos dois meses: perder a ilusão de que a
UE pode ser resgatada ao ordoliberalismo germânico.
Só com um governo apoiado
maioritariamente no parlamento, e eleito com um programa que explicitamente
considere a saída do euro como o caminho para a saída da crise, Portugal tem
condições para tomar em mãos o seu destino. Sendo impraticável um referendo –
criaria o caos no sistema financeiro através da fuga dos depósitos, como está à
vista na Grécia –, uma das primeiras medidas do novo governo seria a introdução
de um forte controlo dos movimentos de capitais, com supervisão apertada de um
BdP com nova direcção. Para tanto, deverá obter previamente algum apoio técnico
na Islândia, Chipre ou outro país com experiência prática nesse domínio. Quanto
à execução das novas notas e moedas, a capacidade técnica para fazer a
reconversão do fabrico de euros para novos escudos está disponível e deverá
iniciar-se de imediato.
Assim, após algumas semanas de
negociação dos detalhes em Bruxelas, numa sexta-feira, à hora do telejornal da
noite, invocando o estado de emergência em que o país se encontra, o
primeiro-ministro falará à nação para dizer aos portugueses que chegou a hora
de recuperarmos a dignidade e a soberania. Avisará que a saída do euro implica
custos transitórios, suportáveis, que terão de ser pagos sobretudo pelos que
mais têm. A saída deve ser apresentada como condição necessária, mas não
suficiente, para que o país tenha futuro. Nesse discurso, o primeiro-ministro
mobilizará os cidadãos para uma estratégia de desenvolvimento, acompanhada de
transformações institucionais que revitalizem a democracia portuguesa e
concretizem os valores do preâmbulo da Constituição da República.
Mais ainda, informará o país de
que nessa noite será aprovada e promulgada a legislação que institui o
"novo escudo". Por isso, os contratos realizados sob legislação
nacional passam automaticamente à nova moeda, o que inclui salários e pensões,
depósitos, créditos bancários e a dívida pública e privada detida por não
residentes que cumpra essa condição. A dívida pública às entidades da troika,
contraída ao abrigo de legislação estrangeira, manter-se-á em euros e será
renegociada criteriosamente. O país será informado de que estão garantidos empréstimos
externos que cobrem as necessidades imediatas de divisas, mas será prevenido
para a necessidade de um racionamento na importação de bens e serviços
supérfluos. Anunciar-se-ão também dois dias de encerramento dos bancos para que
procedam aos acertos informáticos exigidos pela mudança de moeda. Os que, neste
processo, ficarem insolventes serão nacionalizados, pelo menos até que se
proceda a uma grande reestruturação do sistema financeiro para o colocar ao
serviço da economia.
O principal custo a suportar nos
primeiros dois anos será a inflação. Para um conteúdo médio de 25% de
importações no consumo das famílias, uma desvalorização de cerca de 30% da nova
moeda poderá gerar uma inflação à volta dos 10%, numa estimativa grosseira. O
governo anunciará a reposição nos salários públicos e pensões dos níveis
anteriores à crise, a financiar pelo Banco de Portugal (BdP), e promoverá
acordos de concertação social sobre rendimentos e preços no sector privado.
Finalmente, o primeiro-ministro
anunciará um plano de criação de empregos socialmente úteis, com salários
previamente fixados, a financiar por crédito do BdP e pela redução de despesas
com subsídios de desemprego. As autarquias, em cooperação com instituições
privadas, serão envolvidas no levantamento das necessidades a satisfazer. O
governo assumirá um compromisso com o objectivo do pleno emprego para o país.
Caro leitor, se não gosta deste
cenário, pode começar a imaginar um outro em que Portugal aceita
tornar-se uma província pobre de uma Europa que a Alemanha, após duas derrotas
trágicas, acabou por conquistar sem disparar um tiro.» – Jorge Bateira, no
I.


3 comentários:
Caro leitor, se não gosta deste cenário, pode começar a imaginar um outro em que Portugal aceita tornar-se uma província pobre de uma Europa que a Alemanha, após duas derrotas trágicas, acabou por conquistar sem disparar um tiro
Para isto ser realidade só faltam 2 coisas:
um PM a sério
um povo a sério (capaz de eleger um PM a sério)
É elementar que Portugal aceita ser a província pobre dessa Europa pois os criminosos que agradecem muito aos fritz de pobre não têm nada. Infelizmente para essa corja outros haverá que se vão fartar.
Portugal é um país de cobardolas que têm o que valem.
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