«Em 2012, presumivelmente na
ânsia de demonstrar responsabilidade orçamental perante a opinião pública - e
assim validando implicitamente a leitura errada das raízes da crise proposta
pela direita -, o
Partido Socialista votou favoravelmente o Tratado Orçamental quando este
foi levado à votação na Assembleia da República . É certo que o PS não acedeu
então a viabilizar a consagração constitucional que a maioria PSD/CDS pretendia
que a transposição do Tratado para o ordenamento jurídico português assumisse,
forçando antes a opção pela figura da lei de valor reforçado. Mas não deixou de
votar favoravelmente - e validar politicamente - o Tratado do qual já foi dito
que ilegaliza
o keynesianismo na Europa e que
constitui, no fundo, uma versão mais restritiva e punitiva do Pacto de
Estabilidade e Crescimento (para além de um acto de vassalagem relativamente à
Alemanha).
No essencial, o Tratado
Orçamental institui a obrigação da austeridade para os países deficitários, a
despeito da recessão em que estes possam encontrar-se e sem que sejam
estabelecidas obrigações expansionistas simétricas para os países
excedentários. É uma síntese perfeita de tudo o que está errado com a zona
Euro: viés recessivo, ajustamento assimétrico entre devedores e credores,
agenda de classe, restrição da margem de escolha política e tentativa vã de
ocultar a inviabilidade fundamental sob sucessivas camadas de
irreversibilidade. E é também um Tratado destinado a ser constantemente
quebrado, dado o irrealismo das obrigações que impõe aos países deficitários
(veja-se o
historial de incumprimento desde a sua entrada em vigor ) - ainda que isso
não o torne inofensivo, dada a forma como constrange os parâmetros do debate e
das decisões políticas.
Desde então, porém, não têm sido
poucas as ocasiões em que numerosos dirigentes socialistas têm procurado
distanciar-se deste mesmo Tratado, apelando à chamada "leitura
inteligente " do mesmo. Basicamente, o PS reconhece a iniquidade e
inaplicabilidade do Tratado, mas faltou-lhe a coragem política para o assumir
frontalmente no momento em que mais importava. Em alternativa, tem optado antes
por refugiar-se numa posição que, para todos os efeitos, consiste em apelar a
que se empreguem e institucionalizem excepções e subterfúgios diversos de modo
a escapar o mais possível a aplicar um tratado... que o próprio PS votou
favoravelmente.
A inconsistência e, diga-se com
franqueza, tibieza do PS em relação a esta matéria tem contrastado com a dos
partidos da maioria, cujo entusiasmo com o Tratado foi sempre consistente com
um posicionamento pró-austeritário segundo o qual os
défices são para cumprir custe o que custar
mas já as
vidas são para salvar, mas não custe o que custar . A posição dos partidos
da maioria - a insistência na imposição de uma política fiscal-orçamental
pro-cíclica em contexto de recessão - é caduca em termos de teoria económica e
nociva do ponto de vista social, mas ao menos é assumida de forma frontal e
consistente.
Ou pelo menos era-o até agora.
Pois qual não foi o meu espanto quando anteontem li que o governo português,
pela pena do Secretario de Estado para os Assuntos Europeus Bruno Maçães, submeteu
à Comissão Europeia um documento de
trabalho apelando a duas coisas que, no discurso da maioria, eram até agora anátema
: transferências orçamentais contra-cíclicas, que neste documento assumem a
forma da proposta de uma política comum de emprego que inclua um subsídio de
desemprego europeu; e o apelo a uma leitura flexível das restrições orçamentais
decorrentes dos tratados europeus. Em relação a esta última questão, na
versão do documento veiculada pelo Público , propõe Maçães que na análise
da situação orçamental de cada Estado-membro seja dado um "tratamento
adequado" do ponto de vista orçamental aos custos e investimentos
associados a reformas que esse Estado-membro tenha adoptado e que ajudem à
convergência com a UE. Ou seja, excepções e subterfúgios que permitam escapar à
aplicação de um tratado... que a maioria aprovou entusiasticamente.
Ninguém está impedido de mudar de
opinião - particularmente quando a mudança é em sentido positivo. Mas há
responsabilidades políticas que têm de ser assacadas a todos aqueles que,
contra o bom senso económico e contra o interesse dos cidadãos portugueses e
europeus, aprovaram e transpuseram para o ordenamento jurídico português um
tratado que é fundamentalmente iníquo, para além de em grande medida inaplicável.
Mais grave, um tratado que eles próprios sabem, como têm vindo a demonstrar,
que é fundamentalmente iníquo e inaplicável.
A maioria PSD-CDS e o PS
fizeram-no apesar de terem sido na altura abundantemente alertados para essa
mesma iniquidade quer pelos partidos que votaram contra, quer por um vasto
conjunto de analistas nacionais e europeus. E neste momento histórico em que a
frontalidade e a coragem são tão necessárias, continuam a persistir no caminho
do subterfúgio e da submissão.» – Alexandre Abreu, no Expresso.


1 comentário:
Basicamente, o PS reconhece a iniquidade e inaplicabilidade do Tratado, mas faltou-lhe a coragem política para o assumir frontalmente no momento em que mais importava. Em alternativa, tem optado antes por refugiar-se numa posição que, para todos os efeitos, consiste em apelar a que se empreguem e institucionalizem excepções e subterfúgios diversos de modo a escapar o mais possível a aplicar um tratado... que o próprio PS votou favoravelmente.
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