«Surgiu há alguns anos uma nova
figura nos jornais que é a do cronista desenvolto e com a presunção de ser
inconveniente, mas que em vez de suscitar polémica consegue ganhar a ampla
reputação pública – sem que ninguém assome em sua defesa – de estúpido e
cretino. Esta categoria – e é dela que aqui falarei e não de qualquer das suas manifestações
específicas – é um achado, um verdadeiro ovo de colombo: avançando de rosto
descoberto ou mascarada de ousadia intelectual, a estupidez atrai, exerce um
fascínio a que é difícil resistir. Por isso, tem um vasto público garantido,
faz subir o rating das audiências. Além disso, deixa-nos completamente
desarmados porque é difícil e sempre pretensioso denunciá-la, como nos ensinou
Musil, numa conferência que pronunciou em Viena, em 1937, sobre essa magna e
universal questão que se tornou um tópico da modernidade, desde o Bouvard et
Pécuchet, de Flaubert. A dificuldade em nomeá-la reside na armadilha inevitável
que nos lança: não podemos falar dela e analisá-la sem uma presunção de
inteligência. E a presunção de inteligência é, como sabemos, uma prova de
estupidez inelutável. Ainda assim, conscientes de que ainda só vamos no
primeiro parágrafo e já caímos na armadilha fatal, avancemos. Mas não sem antes
formular uma outra fatal contradição a que este texto sucumbe, mesmo sem nomear
ninguém e procurar deter-se numa categoria: a contestação e a risota de que é
alvo o cronista estúpido e cretino são a garantia do seu sucesso e
asseguram-lhe longa sobrevivência. Ele assumiu a missão de restaurar com grande
aparato a função-autor, até ao ponto de lhe dar a feição demagógica de um
estilo, já que a exibição de um estilo é sempre o triunfo de traços demagógicos
e de um sujeito insolente, vazio e muito vaidoso. Como é sabido, a estupidez
tem uma relação estreita com a vaidade. E o idiota, como evidencia claramente a
etimologia do termo, polariza-se de maneira obsessiva sobre o seu Eu e confere
um privilégio desmesurado ao seu ponto de vista. Estes “autores” não dizem nada
sem que se intrometa o Eu, indiferentes à regra que diz: quanto mais o sujeito
da enunciação atribui a si próprio uma enorme importância, mais os seus
enunciados são vazios. Muitas vezes pretendem ter a coragem do desafio
intelectual, mas o que são de facto é alarves, sem filtro e sem distância
crítica. Chegam a reivindicar a condição de resistentes, de nadarem contra a
maré, mas tudo neles é adesão mimética e acrítica a uma ideologia espontânea,
colagem à estupidez ambiental, incapacidade de saírem de si mesmos. A linguagem
da idiotia sustenta-se na ilusão de que equivale a um pensamento autónomo e
suficiente. E serve o empreendimento do marketing intelectual. Quando acha
conveniente defender-se, o idiota entra no jogo da martirologia. Esse é um dos
papéis que ele, clown de serviço, gosta de representar. Nessa função, ele repete
com frequência uma tirada que é o exemplo mais estúpido de contradição
performativa : “Vou ser politicamente incorrecto”. E o que se segue é
geralmente a mais correcta alarvidade. Traduzida numa categoria estética, a
estupidez destes cronistas é um grandioso empreendimento do Kitsch, triunfo da
imanência que nos dispensa a experiência da distância e suprime todo o
obstáculo à adequação imanentista. Esta forma de estupidez, que só quem se
subtraiu a este mundo não reconhece facilmente, é a manifestação estética e
moral de uma presença que nos é familiar e assume mesmo a missão de estabelecer
com os leitores uma relação de familiaridade, à maneira de uma conversa de
tagarelas.» – António Guerreiro, no Público.
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Há 1 hora


1 comentário:
Esta forma de estupidez, que só quem se subtraiu a este mundo não reconhece facilmente, é a manifestação estética e moral de uma presença que nos é familiar e assume mesmo a missão de estabelecer com os leitores uma relação de familiaridade, à maneira de uma conversa de tagarelas.
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