Às vezes metem-se comigo a seguir
a saberem que estudei economia. Quase sempre salta a acusação de a culpa disto
estar como está ser dos economistas. E eu acabo por concordar: de CERTOS
economistas, é verdade, porque a disciplina que estuda como funciona a economia
também retrocedeu. Hoje é Quarta-feira, é dia de Alexandre Abreu no Expresso. O
artigo de hoje explica o retrocesso a que aludi atrás, como os neoliberais se desembaraçaram
de variáveis incómodas como o desemprego involuntário, as desigualdades, o
rendimento das famílias que pode ser constantemente comido para engordar lucros
porque o consumo deixou de ser o motor de uma economia ficcionada onde,
imagine-se, a oferta gera a sua própria procura (é exactamente ao contrário, a procura comanda
a oferta). De simplificação em simplificação, de delírio em delírio, os
"economistas"vão dando cabo disto tudo em confronto permanente com
uma realidade que não casa com as suas
teorias ou porque ainda não casa, ou porque as "reformas estruturais"
foram demasiado brandas ou, sei lá eu, talvez até por mero e manifesto...
azarito. Mas azarito sempre dos mesmos, convém sublinhá-lo. A economia deles funciona às mil maravilhas do lado dos que têm sempre "sorte".

Existe uma abordagem muito comum,
aliás dominante, à análise e ensino dos fenómenos económicos que assenta na
modelização dos problemas à escala individual e posterior generalização para a
escala da sociedade. Por outras palavras, que assenta na redução dos fenómenos
económicos - que são intrinsecamente sociais - a fenómenos individuais em
condições simplificadas, a fim de deduzir conclusões que são depois
extrapoladas novamente para a escala da sociedade como um todo.
A chamada economia de Robinson
Crusoé constitui um exemplo
paradigmático deste tipo de abordagem. Nesta experiência conceptual, Robinson
está só na ilha deserta e tem de optar por dedicar o seu tempo ao lazer ou à recolha
dos cocos de que depende a sua sobrevivência - problema típico da teoria
neoclássica do consumidor, nomeadamente quando se assume adicionalmente que
Robinson é perfeitamente racional e que as suas preferências são dadas à
partida.
Através de pequenas alterações de
perspectiva ou modificações ao modelo, a mesma abordagem permite modelizar
também o comportamento de Robinson enquanto produtor de bens alternativos (de cocos
ou peixes, por exemplo) ou introduzir a possibilidade da troca (com um
Sexta-feira igualmente racional e auto-interessado). Em todos os casos, a ideia
subjacente é que as conclusões que retiramos por dedução a partir destes
modelos hiper-simplificados da realidade constituem uma forma adequada - a
forma mais adequada - de compreendermos como, na sociedade como um todo, se organizam
as questões da produção, do consumo e da troca.
É uma abordagem típica das
correntes clássica, neoclássica e austríaca da economia e, em termos mais
gerais, designa-se por "individualismo metodológico": o requisito de
que as explicações causais dos fenómenos sociais assentem nas acções,
motivações e preferências dos indivíduos. Não precisa de envolver cocos e ilhas
desertas. Noutros exemplos populares, temos o padeiro e o merceeiro como
produtores únicos de uma aldeia imaginária, ou o família e os seus membros como
representação da sociedade. Ou ainda, nas versões mais austeras utilizadas em
contexto académico, modelos povoados por "agentes representativos"
com as suas funções de utilidade ou produção.
Efectivamente, um dos
desenvolvimentos mais relevantes na macroeconomia nas últimas três ou quatro
décadas foi a generalização da exigência de que os modelos macroeconómicos
assentem em microfundações deste tipo. Não era esse o caso anteriormente: para
a economia dominante das décadas anteriores, a macroeconomia ocupava-se com
entidades (agregados, como o Consumo ou o Investimento totais) que obedeciam a
uma lógica própria e distinta do que se passava na esfera micro dos indivíduos.
Havia uma descontinuidade fundamental entre os níveis micro e macro da
economia, mas isso não era considerado preocupante. Da década de 1970 em
diante, porém, o individualismo metodológico estendeu o seu predomínio à
macroeconomia, impondo, como requisito para que as explicações macroeconómicas
(neoclássicas ou neo-keynesianas, tanto faz) sejam consideradas respeitáveis,
que estas assentem em microfundações - preferências e acções de agentes
representativos.
Esta evolução da macroeconomia é
muitas vezes apresentada como um passo no sentido do rigor, da consistência
lógica e da cientificidade. Na realidade, porém, constitui um retrocesso. E o
motivo é relativamente fácil de explicar. O problema não reside no recurso a
modelos: toda a ciência recorre a representações simplificadas da realidade,
todo o pensamento científico abstrai de circunstâncias particulares na
formulação de explicações gerais. O problema surge, porém, quando essas
simplificação e abstracção implicam descartar aspectos essenciais do fenómeno
que se pretende explicar. E é isso mesmo que sucede quando se salta para a
escala individual em busca de explicações para fenómenos intrinsecamente
sociais: descartam-se factores e propriedades que se manifestam à escala social
sem que sejam (facilmente) detectáveis ou teorizáveis à escala dos indivíduos.
Nas microeconomias de ilha
deserta compostas por um único náufrago plenamente racional, não existe
desemprego involuntário - mas nas economias reais este existe e é um problema
central. Nas aldeias imaginárias que contam com apenas um padeiro e um
merceeiro perfeitamente racionais e informados, o aumento da massa monetária
apenas aumenta o preço dos produtos e não o volume da produção - mas nas
economias reais a política monetária tem (em circunstâncias normais) efeitos
reais sobre o produto. Nas experiências conceptuais hiper-simplificadas, não
existe história ou relações de poder - mas nas economias reais estes são
fundamentais para a compreensão de tudo o que se passa.
E isto nada deveria ter de
espantoso. A existência de propriedades emergentes associadas à mudança de
escala é uma característica geral do mundo que nos rodeia. Todos os fenómenos
biológicos são, em última instância, fenómenos químicos e físicos, mas não faz
sentido explicar a reprodução ou o envelhecimento com base em teorias assentes
no comportamento de protões e electrões. Da mesma forma, todos os fenómenos
sociais e económicos assentam ontologicamente em indivíduos, mas procurar, no
plano metodológico, compreendê-los ou explicá-los enquanto tal é, mais do que
uma perda de tempo, uma contribuição para o obscurantismo.
É um obscurantismo típico das
ciências que estão ainda na sua infância. À medida que amadurecer, a Economia
não deixará de superar a sua fase Robinson Crusoé.» – Alexandre Abreu, no Expresso.

2 comentários:
Nas microeconomias de ilha deserta compostas por um único náufrago plenamente racional, não existe desemprego involuntário - mas nas economias reais este existe e é um problema central. Nas aldeias imaginárias que contam com apenas um padeiro e um merceeiro perfeitamente racionais e informados, o aumento da massa monetária apenas aumenta o preço dos produtos e não o volume da produção - mas nas economias reais a política monetária tem (em circunstâncias normais) efeitos reais sobre o produto. Nas experiências conceptuais hiper-simplificadas, não existe história ou relações de poder - mas nas economias reais estes são fundamentais para a compreensão de tudo o que se passa.
Às vezes metem-se comigo a seguir a saberem que estudei economia. Quase sempre salta a acusação de a culpa disto estar como está ser dos economistas. E eu acabo por concordar: de CERTOS economistas, é verdade, porque a disciplina que estuda como funciona a economia também retrocedeu. Hoje é Quarta-feira, é dia de Alexandre Abreu no Expresso. O artigo de hoje explica o retrocesso a que aludi atrás, como os neoliberais se desembaraçaram de variáveis incómodas como o desemprego involuntário, as desigualdades, o rendimento das famílias que pode ser constantemente comido para engordar lucros porque o consumo deixou de ser o motor de uma economia ficcionada onde, imagine-se, a oferta gera a sua própria procura (é ao contrário, a procura comanda a oferta). De simplificação em simplificação, de delírio em delírio, os "economistas"vão dando cabo disto tudo em confronto permanente com uma realidade que não casa com as suas teorias ou porque ainda não casa, ou porque as "reformas estruturais" foram demasiado brandas ou, sei lá eu, talvez até por mero e manifesto... azarito. Mas azarito sempre dos mesmos, convém sublinhá-lo.
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