«António Costa renunciou à
presidência da Câmara Municipal de Lisboa para ocupar a tempo inteiro as
funções de secretário-geral do PS. Não falta quem diga que a afirmação do
partido nas sondagens foi prejudicada pelo atraso nesta decisão. Porém, há algo
de mais profundo que escapa ao folclore dos noticiários, algo que liga
episódios tão diversos como a pesada derrota do PS na Madeira, o descalabro do
PS francês, o declínio do PSOE em Espanha e a crise do Partido Democrático
italiano, para não falar do desaparecimento do PASOK na Grécia. Salta à vista
que a crise da zona euro é também a crise da social-democracia europeia, na sua
versão social-liberal, após Mitterrand ter substituído o socialismo democrático
pelo europeísmo ordoliberal.
Antes de mais, o confronto entre
o governo grego e a troika (agora “Grupo de Bruxelas”) clarificou os limites da
tolerância dos nossos credores relativamente à política orçamental e não deixou
dúvidas quanto ao que se deve entender por “reformas estruturais” a promover
nos países da zona euro, sobretudo na periferia endividada. É relativamente às
reformas no sistema de pensões e à legislação laboral que se trava um
braço-de-ferro nas negociações com o governo grego, ao mesmo tempo que este é
sufocado financeiramente pelo BCE. Qualquer que seja a escolha do governo
liderado por Alexis Tsipras, ruptura ou capitulação, uma coisa é certa: a
social-democracia europeia participou neste processo de chantagem sobre um
governo com programa social-democrata que foi legitimado pelo voto para
suspender as medidas de austeridade. Como há muito viu Dani Rodrik (“Greek
Elections, Democracy, Political Trilemma, and all that”), a integração
económico-financeira supranacional é incompatível com o exercício da
democracia. António Costa sabe que não pode prometer aos portugueses outra
política económica, ou sequer um modelo de desenvolvimento com alguma
fundamentação realista. Os portugueses vão percebendo que afinal não há luz ao
fundo do túnel, e isso vê-se nas sondagens.
Depois, mesmo que o impacto da
saída da Grécia seja contido pela intervenção enérgica do BCE nos mercados
financeiros, a sobrevivência da zona euro está longe de garantida. Com a
proibição da política orçamental, mesmo com o desemprego ao nível da Grande Depressão,
não há instrumentos de política económica que permitam enfrentar a gravíssima
crise de procura produzida pelo fim do endividamento externo fácil da
periferia. Antes de a crise de 2008 atingir a Europa, na ausência do risco de
desvalorização com a adopção do euro, os spreads das taxas de juro quase
desapareceram, pelo que o crédito dos países ricos se tornou muito acessível
aos bancos dos países menos desenvolvidos. Por conseguinte, a financeirização
das periferias foi obra conjunta de credores e devedores e, embora os bancos
credores tenham até agora sido poupados aos prejuízos decorrentes dos elevados
riscos que assumiram, isso não significa que os seus países consigam escapar
aos efeitos da bancarrota que ajudaram a criar. António Costa e a sua equipa de
economistas deviam meditar nestas palavras de Michael Pettis: “Depois de muitos
anos a negar a insolvência, e muitos anos de promessas de que as reformas
seriam implementadas e conduziriam a um crescimento suficiente para resolver o
endividamento, os decisores políticos de países como Espanha serão forçados a
mudar de posição ou serão demitidos pelo voto – simplesmente porque as
condições económicas se terão deteriorado tão drasticamente que uma
reestruturação não poderá ser adiada por mais tempo.” (“When do we decide that
Europe must restructure much of its debt?”)
Assim, os partidos do
social-liberalismo da periferia estão confrontados com um dilema vital: renegar
a moeda única para recuperar a política económica da esquerda, ou desaparecer
como corrente política relevante. Do meu ponto de vista, a ideologia
social--liberal, e os interesses que envolvem estes partidos, impedem o
reconhecimento do dilema tornando-os irreformáveis. Este é o drama da
social-democracia europeísta.» – Jorge Bateira, no
I.


1 comentário:
Salta à vista que a crise da zona euro é também a crise da social-democracia europeia, na sua versão social-liberal, após Mitterrand ter substituído o socialismo democrático pelo europeísmo ordoliberal.
Enviar um comentário