«Não há tão bom revelador do que
é a elite portuguesa como a maneira como trata os mortos que entende serem
“seus”. O festival de hipocrisia que avassala Portugal sempre que morre um
consagrado “consensual” revela as nossas enormes fragilidades no espaço público,
e uma mistura de reverência oca, de ignorância, de imenso provincianismo e de
uma ritualização pobre e subdesenvolvida. E aqui os media e o poder político
vivem em simbiose total. (...)
Herberto Helder é um completo
desconhecido, pelo povo e pela maioria das nossas elites, que agora aparecem
todas como íntimas de um poeta singular e difícil, que nunca leram e sobre o
qual disseram não só as maiores banalidades, como enormidades. Manoel de
Oliveira, que chegava ao povo mais por ter 106 anos do que pela sua obra, era
“conhecido” por ser autor de filmes intragáveis, que ninguém via até o fim, ou
sequer até ao principio, e gozado por filmar horas de filme em que nada
acontecia ou por fazer fotografia e não cinema. Fazia parte de um certo
anedotário que servia para mostrar desprezo pela cultura e pelos intelectuais,
ou então, no extremo oposto, como um génio intocável, que em tudo o que mexia
produzia arte intangível na sua grandeza absoluta. Estas duas atitudes são
aliás mais próximas do que se imagina, porque criam um ecrã sobre a obra que
dificulta um julgamento equilibrado e o exercício crítico. (...)
Tudo isto se passa num dos
momentos em que a nossa elite política no poder mais afastada está de qualquer
preocupação intelectual e, com algumas raras excepções, com elevados níveis de
ignorância sobre qualquer matéria desta natureza. Por isso é que se agarram ao
discurso pomposo da comemoração necrológica, que lhes dá uma espécie de álibi
cultural que, de outra maneira, não poderiam ter. Quanto mais ignorantes, mais
comemorativos, podia ser um axioma dos nossos dias.
O problema não está apenas na
parte do dinheiro que vai para a “cultura”, questão que nunca considerei ser
uma questão de cultura mas de “política de espírito”, ou seja, a propaganda
moderna que os Estados e os governos fazem usando a intangibilidade das artes e
da literatura para se promoverem ou aos seus chefes. (...) Temos muito
património a esboroar-se, muito património a vender-se mais ou menos às claras
no estrangeiro, muita educação para as artes, quando existe, no mesmo estado
degradado do Conservatório, e mesmo uma “indústria cultural” muito para além da
Joana Vasconcelos, que se “vende” bem.
Se se quer ajudar as pessoas a
compreender o valor de Oliveira ou Herberto Helder, ou melhor ainda, a serem
“tocados” pelas suas obras, naquilo em que a criação nos muda, troco dias de
mensagens, votos de pesar, funerais nacionais (e agora até a obrigação de
colocar os corpos no Panteão...) e luto oficial, por medidas minimalistas que
ajudem a que se conheça a poesia portuguesa ou o cinema nacional.
Seja fazer com que nas livrarias
e nas bibliotecas das escolas haja os clássicos portugueses em edições límpidas
e seguras, baratas e agradáveis (experimentem procurar o Crisfal ou a Menina e
Moça), que nas escolas os professores possam fazer clubes de recitação, haja
concursos nacionais de recitação (com o “serviço público de televisão” ao
lado); se forneça material de vídeo e se ensine a filmar, a montar um filme, a
ir para além dos vídeos do YouTube, depois de se saber fazer vídeos para o
YouTube; se forneçam os laboratórios das escolas para se poderem fazer
experiências de física e química; se ensine a “ler” um quadro ou uma escultura,
e, acima de tudo, que se ajude a curiosidade, mais do que as abstractas “metas”
das disciplinas escolares. Estas atiram alunos, que nunca leram um livro, para
os Maias do Eça, cujo vocabulário, metáforas, histórias mitológicas ou bíblicas
desconhecem de todo, ou a aprender nomenclaturas gramaticais que são decoradas
e esquecidas no dia seguinte, ou a atirar estudantes para Descartes e Kant
(imaginem!) sem qualquer cultura geral seja do que for.
Querem comemorar os nossos mortos
consagrados? Ajudem os vivos a percebê-los e não a colocá-los numa prateleira,
receando que o que haja de subversivo na sua criação saia de lá e chegue à rua.
O poder precisa de múmias e não de arte ou cultura, e, nestes dias, a indústria
de mumificação está em pleno.» – Pacheco Pereira, no Público.
Manuel de Oliveira e a hipocrisia perante a morte dos artistasA morte dos artistas é a maior parte das vezes um momento...
Posted by Carlos MatosGomes on Sexta-feira, 3 de Abril de 2015


1 comentário:
Querem comemorar os nossos mortos consagrados? Ajudem os vivos a percebê-los e não a colocá-los numa prateleira, receando que o que haja de subversivo na sua criação saia de lá e chegue à rua. O poder precisa de múmias e não de arte ou cultura, e, nestes dias, a indústria de mumificação está em pleno.» – Pacheco Pereira, no Público.
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