segunda-feira, 30 de março de 2015

Uma raridade mesmo rara



A notícia é da semana passada mas, por ser uma raridade mesmo rara – e neste caso a expressão não é pleonasmo, merece toda a atenção. Uma empresa, a Lisnave, decidiu por iniciativa dos seus accionistas distribuir pelos seus trabalhadores efectivos 18,5% dos lucros líquidos do exercício de 2014, isto é, 1,2 de 6,47 milhões de euros a título de gratificação. É assim, e não com pancadinhas nas costas que não pagam as despesas lá de casa, que um trabalhador sente que o seu trabalho é valorizado. A gestão da Lisnave tem consciência que a motivação dos seus trabalhadores e a forma como estes valorizam trabalhar na empresa são factores decisivos para aumentar a produtividade e repetir os resultados em 2015. Note-se, porém, como a decisão é estritamente privada e como entre nós, apesar da palavra produtividade andar nas bocas de governantes e respectiva corte de repetidores dos seus miserabilismos serôdios, a distribuição de lucros por aqueles que os trabalham não beneficia de qualquer tipo de incentivo em sede fiscal. E deveria beneficiar. Não apenas por razões de justiça social nem apenas por questões relacionadas com produtividade, o que já não seria pouco. Por uma questão de racionalidade económica que se identifica imediatamente ao perceber que nos bolsos de quem trabalha o rendimento gera o consumo que garante empregos e produz receitas fiscais que não gera nos bolsos de quem consome marginalmente cada vez menos à medida que o seu rendimento aumenta e está isento de imposto sobre grandes fortunas, já para não referir a gratuitidade da possibilidade que tem de transferir capitais para paraísos fiscais sem retribuir um único cêntimo à economia e à sociedade onde fez a fortuna. A economia – não confundir com a casta dona disto tudo – teria tudo a ganhar com políticas que a pusessem a servir as pessoas em vez de servir-se das pessoas. Talvez um dia as pessoas saibam exigi-lo.


Vagamente relacionado: “(…) Mesmo com prejuízos de 63 milhões, em 2011 a Sonae SGPS pagou 66,2 milhões de dividendos. Usou as suas reservas para satisfazer os accionistas. A Zon, em 2012, com modestos ganhos de 22 milhões, pagou o triplo em dividendos, 61,8 milhões. O mesmo já tinha acontecido no ano anterior. A administração foi às reservas. Havia portanto dinheiro. E generosamente: as duas empresas mais endividadas, a EDP e a PT, foram as recordistas do pagamento de dividendos (4,4 mil milhões na EDP e mais de 3 mil milhões na PT). No total, os pagamentos de dividendos em 2014 foram 1,7 mil milhões, ou seja, 57% do lucro foi entregue aos accionistas no caso das empresas não financeiras do PSI20. Se considerarmos o peso dos dividendos comparado com os resultados líquidos, então temos o número esmagador de 154% em todo o PSI20 (em 2013 e por causa dos prejuízos da banca). Os dividendos foram ao pote. Note bem. Durante estes anos vivemos primeiro uma crise financeira e depois uma recessão prolongada. O endividamento destas empresas aumentou e o seu investimento caiu a pique. Ficaram mais pobres. Mas usaram mais de metade dos seus rendimentos para pagar dividendos aos seus accionistas – mesmo quando tinham prejuízos ou quando gastavam mais do que o que tinham ganho. Não foi nem para abater a dívida nem para fazer investimento para terem melhores resultados no futuro (já para não dizer criar emprego ou aumentar a capacidade produtiva). Foi para pagar dividendos. Chama-se a isto viver acima das suas possibilidades. E é a história da burguesia portuguesa . Pois é. O caso Salgado não é só uma maçã podre que perturbava o cesto. O cesto é que é o problema pior.” [Francisco Louçã]


1 comentário:

fb disse...

A Lisnave decidiu distribuir pelos seus trabalhadores efectivos 18,5% dos lucros líquidos do exercício de 2014, isto é, 1,2 de 6,47 milhões de euros a título de gratificação.