A notícia é da semana passada
mas, por ser uma raridade mesmo rara – e neste caso a expressão não é pleonasmo,
merece toda a atenção. Uma empresa, a Lisnave, decidiu por iniciativa dos seus
accionistas distribuir pelos seus trabalhadores efectivos 18,5%
dos lucros líquidos do exercício de 2014, isto é, 1,2 de 6,47 milhões de
euros a título de gratificação. É assim, e não com pancadinhas nas costas que
não pagam as despesas lá de casa, que um trabalhador sente que o seu trabalho é
valorizado. A gestão da Lisnave tem consciência que a motivação dos seus
trabalhadores e a forma como estes valorizam trabalhar na empresa são factores
decisivos para aumentar a produtividade e repetir os resultados em 2015.
Note-se, porém, como a decisão é estritamente privada e como entre nós, apesar
da palavra produtividade andar nas bocas de governantes e respectiva corte de repetidores
dos seus miserabilismos serôdios, a distribuição de lucros por aqueles que os trabalham
não beneficia de qualquer tipo de incentivo em sede fiscal. E deveria beneficiar. Não
apenas por razões de justiça social nem apenas por questões relacionadas com
produtividade, o que já não seria pouco. Por uma questão de racionalidade
económica que se identifica imediatamente ao perceber que nos bolsos de quem trabalha
o rendimento gera o consumo que garante empregos e produz receitas fiscais que não
gera nos bolsos de quem consome marginalmente cada vez menos à medida que o seu rendimento aumenta e está isento de imposto sobre
grandes fortunas, já para não referir a gratuitidade da possibilidade que tem de
transferir capitais para paraísos fiscais sem retribuir um único cêntimo à economia
e à sociedade onde fez a fortuna. A economia – não confundir com a casta dona disto
tudo – teria tudo a ganhar com políticas que a pusessem a servir as pessoas em vez
de servir-se das pessoas. Talvez um dia as pessoas saibam exigi-lo.
Vagamente relacionado: “(…) Mesmo com prejuízos de 63 milhões, em 2011
a Sonae SGPS pagou 66,2 milhões de dividendos. Usou as suas reservas para
satisfazer os accionistas. A Zon, em 2012, com modestos ganhos de 22 milhões,
pagou o triplo em dividendos, 61,8 milhões. O mesmo já tinha acontecido no ano
anterior. A administração foi às reservas. Havia portanto dinheiro. E
generosamente: as duas empresas mais endividadas, a EDP e a PT, foram as
recordistas do pagamento de dividendos (4,4 mil milhões na EDP e mais de 3 mil
milhões na PT). No total, os pagamentos de dividendos em 2014 foram 1,7 mil
milhões, ou seja, 57% do lucro foi entregue aos accionistas no caso das
empresas não financeiras do PSI20. Se considerarmos o peso dos dividendos
comparado com os resultados líquidos, então temos o número esmagador de 154% em
todo o PSI20 (em 2013 e por causa dos prejuízos da banca). Os dividendos foram
ao pote. Note bem. Durante estes anos vivemos primeiro uma crise financeira e
depois uma recessão prolongada. O endividamento destas empresas aumentou e o
seu investimento caiu a pique. Ficaram mais pobres. Mas usaram mais de metade
dos seus rendimentos para pagar dividendos aos seus accionistas – mesmo quando
tinham prejuízos ou quando gastavam mais do que o que tinham ganho. Não foi nem
para abater a dívida nem para fazer investimento para terem melhores resultados
no futuro (já para não dizer criar emprego ou aumentar a capacidade produtiva).
Foi para pagar dividendos. Chama-se a isto viver acima das suas possibilidades.
E é a história da burguesia portuguesa . Pois é. O caso Salgado não é só uma
maçã podre que perturbava o cesto. O cesto é que é o problema pior.” [Francisco
Louçã]


1 comentário:
A Lisnave decidiu distribuir pelos seus trabalhadores efectivos 18,5% dos lucros líquidos do exercício de 2014, isto é, 1,2 de 6,47 milhões de euros a título de gratificação.
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