segunda-feira, 23 de março de 2015

"Metrologias"


Creio que era assim. “Homens sem qualidades e sem responsabilidades”. Vi-o algures durante o fim-de-semana. Fazia o título de um artigo de opinião que acabei por não chegar a ler. E esta manhã, ao ouvir na rádio ser hoje o dia internacional da meteorologia, lembrei-me dele ao recordar um dos muitos homens sem qualidades que guardo sem saudades na memória o qual, há uns anos largos, dava a internet os seus primeiros passos, encontrei diante do computador do seu gabinete enfurecido por “aquela porcaria não ter sequer a previsão do tempo”. Primeiro estranhei, depois percebi. O homem procurava pelo instituto de “metrologia”. Há vinte anos não era como agora, os motores de busca ainda não tinham aquele “será que quis dizer” que compatibiliza as “metrologias” com o mundo do, digamos, comum dos mortais, coisa que ele não era apesar de “metrologia” apenas ser uma entre muitas criações de uma ignorância tão burgessa quanto pródiga em produções do género: o meu homem sem qualidades era o director de um organismo público ligado à Cultura. Antes tinha sido assessor de um ministro qualquer, e ser assessor de um ministro qualquer já na altura dava curriculum para poder ser pelo menos director de um organismo público. E antes tinha sido jota, e ser jota já então era uma das formas para se obter curriculum de assessor de um ministro qualquer, ou para ser recrutado e ganhar curriculum na administração de uma dessas empresas privadas que vivem do que é público, ou para ser convidado para leccionar numa dessas universidades cheias de docentes com apelidos repetidos e com lugares cativos que passam de geração em geração, onde quem tem realmente valor é tantas vezes escravo sem direito a curriculum de uma casta de bem nascidos que se perpetua à sombra da ciência que os seus precários produzem sem direito a reclamar autoria e onde quem aparece como autor ganha curriculum para poder servir a lista VIP de rendeiros do país como deputado ou como ministro, que por sua vez dá curriculum para pertencer à lista VIP da aristocracia republicana dos administradores com salário de príncipe e com futuro garantido para toda a linhagem. "Homens sem qualidades e sem responsabilidades". Uma sociedade em que uma minoria coesa de homens sem qualidades consegue organizar-se e subjugar completamente a maioria atomizada que sucessivamente vai esbanjando a responsabilidade de usar a democracia para se livrar da lógica corrupta deste país só para alguns que torna impossível enriquecer a trabalhar. Já vai sendo tempo de tocar a reunir para nos livrarmos das “metrologias”, das imunidades, das impunidades, das irresponsabilidades, dos compadrios, das rendas garantidas, dos abusos desta casta de homens sem qualidades e sem as responsabilidades que a esmagadora maioria não tem sabido exigir-lhes em sede própria. Os gregos e os espanhóis já começaram as suas travessias deste presente que também os renega para o futuro que querem melhor. Para nós é mais fácil. É só seguir-lhes os passos.

1 comentário:

fb disse...

Primeiro estranhei, depois percebi. O homem procurava pelo instituto de “metrologia”. Há vinte anos não era como agora, os motores de busca ainda não tinham aquele “será que quis dizer” que compatibiliza as “metrologias” com o mundo do, digamos, comum dos mortais, coisa que ele não era apesar de “metrologia” apenas ser uma entre muitas criações de uma ignorância tão burgessa quanto pródiga em produções do género: o meu homem sem qualidades era o director de um organismo público ligado à Cultura. Antes tinha sido assessor de um ministro qualquer, e ser assessor de um ministro qualquer já na altura dava curriculum para poder ser pelo menos director de um organismo público. E antes tinha sido jota, e ser jota já então era uma das formas para se obter curriculum de assessor de um ministro qualquer, ou para ser recrutado e ganhar curriculum na administração de uma dessas empresas privadas que vivem do que é público, ou para ser convidado para leccionar numa dessas universidades cheias de docentes com apelidos repetidos e com lugares cativos que passam de geração em geração, onde quem tem realmente valor é tantas vezes escravo sem direito a curriculum de uma casta de bem nascidos que se perpetua à sombra da ciência que produzem sem direito a reclamar autoria e onde quem aparece como autor ganha curriculum para poder servir a lista VIP de rendeiros do país como deputado ou como ministro, que por sua vez dá curriculum para pertencer à lista VIP da aristocracia republicana dos administradores com salário de príncipe e com futuro garantido para toda a linhagem. Uma sociedade em que uma minoria coesa de homens sem qualidades consegue organizar-se e subjugar completamente a maioria atomizada que sucessivamente vai esbanjando a responsabilidade de usar a democracia para se livrar da lógica corrupta deste país só para alguns que torna impossível enriquecer a trabalhar. Já vai sendo tempo de tocar a reunir para nos livrarmos das “metrologias”, das imunidades, das impunidades, das irresponsabilidades, dos compadrios, dos abusos desta cleptocracia feita de homens sem qualidades e sem as responsabilidades que a esmagadora maioria não lhes tem sabido exigir em sede própria. Os gregos e os espanhóis já começaram as suas travessias deste presente que também os renega para o futuro que querem melhor. É seguir-lhes os passos.