sexta-feira, 20 de março de 2015

Gostei de ler: "Estamos amarrados a uma galé, como a Grécia"


«No Financial Times de há dois dias, Dragasakis (vice primeiro-ministro), Varoufakis (ministro das finanças) e Tsakalotos (adjunto do ministro das finanças) alertavam para que o tempo se está a esgotar. Alexis Tsipras tentou um compromisso de última hora para conseguir o financiamento prometido desde há um mês, mas não cumprido, e reuniu-se ontem de noite com as autoridades europeias: as instituições e Merkel, ladeada do inefável Hollande. O encontro deu em nada.

Ou em menos do que nada. Os líderes europeus reafirmaram que a Grécia deve entrar em falência ou apresentar novas medidas de austeridade que, se forem aprovadas, e logo se verá se são, permitirão aceder a algum alívio financeiro. Como tudo se joga em poucos dias, porque a Grécia está já a ficar sem reservas, esta pressão é uma roleta russa. E será sempre a roleta russa, porque cada semana se vai repetir a mesma aflição, mesmo que se passe esta emergência. A Grécia não tem forma de chegar a Junho tomando decisões independentes, se estiver submetida a esta chantagem: nem lhe pagam a tranche prometida, nem lhe devolvem o seu dinheiro retido pelo BCE, nem lhe permitem emitir dívida de curto prazo. Só lhe permitem receber instruções de Merkel e de Dijsselbloem.

O que prefere Merkel? Para já, parece óbvio que prefere ganhar em todos os tabuleiros, tentando obrigar Tsipras a ceder e a promover as medidas de austeridade que foi eleito para abolir. A irritação da Comissão e do Eurogrupo a propósito da primeira lei votada esta semana no parlamento grego, determinando medidas de alívio social para os mais desprotegidos, ou a raiva com que foi recebida a suspensão das privatizações, é reveladora do que isto quer dizer. Melhor do que vencer é subjugar, essa é uma velha lei do poder imperial. Merkel quer ter o gosto de obrigar a Grécia a vergar-se e a levar o governo que a confrontou a ser ele próprio a propor a austeridade nefasta.

O que pode Tsipras? Para já, muito pouco. O governo grego acreditou que tinha uma força negocial única ao criar uma situação inédita na Europa e ao fazer frente à Alemanha. Ora, encontrou pela frente um muro. Nem conseguiu aliados entre outros governos, nem conseguiu flexibilidade dos adversários que perceberam que não havia Plano B para executar a curto prazo. Por isso, teve que improvisar e isso mostra fragilidade. Mesmo com índices de apoio popular crescentes no seu próprio país, é facto que no imediato tem poucas alternativas por onde escolher.

Na verdade, só tem mesmo uma alternativa e ainda tem que se preparar para ela: sair do euro, emitir moeda, controlar os movimentos de capitais, reconstituir a sua economia, proteger os mais pobres e criar emprego aproveitando a vantagem da desvalorização da moeda, reestruturar assim a dívida junto das instituições europeias. Só desse modo poderá negociar e qualquer negociação é melhor do que a guerra de terra queimada a que a Grécia vai ser submetida durante estes meses.

Veremos dentro de dias que escolhas faz ou pode fazer e que medidas toma para impedir a ameaça da austeridade e do caminho de destruição. Foi um sinal significativo ter exigido o pagamento da dívida nazi (que não obterá) e ter iniciado uma auditoria à dívida (que conseguirá realizar), mas também necessitará de medidas mais urgentes e realizáveis.

Para todos os que vivem na Europa, impõe-se em todo o caso uma conclusão: isto é uma galé e estamos acorrentados aos remos. Enquanto o permitirmos, nada muda neste navio fantasma e continuaremos a ser o que somos, prisioneiros de uma ameaça. A União Europeia não aceita a reestruturação das dívidas nem conhece nem reconhece outra coisa que não seja austeridade e a engenharia social do desemprego e do empobrecimento para os países periféricos. Isto é com Portugal, não tenham dúvidas, caros leitores.» – Francisco Louçã, no TME.

1 comentário:

fb disse...

Isto é uma galé e estamos acorrentados aos remos. Enquanto o permitirmos, nada muda neste navio fantasma e continuaremos a ser o que somos, prisioneiros de uma ameaça. A União Europeia não aceita a reestruturação das dívidas nem conhece nem reconhece outra coisa que não seja austeridade e a engenharia social do desemprego e do empobrecimento para os países periféricos. Isto é com Portugal, não tenham dúvidas, caros leitores.» – Francisco Louçã, no TME.