domingo, 29 de março de 2015

Gostei de ler: "Eis o político predestinado: muda de ideias e fica onde está"


«Ouviu-se na raia do Magrebe, tão formidável foi o grito. Estava Carlos Abreu Amorim em gostosa flutuação nas águas mortas e espessas do oportunismo, quando lhe assomou uma ideia à cabeça e um berro ao gorgomilo: "Eureka! Já não sou liberal! O Estado faz aqui muita falta!"

Repórteres do Público recolheram a magna declaração e procuraram acompanhar, com a dificuldade que se adivinha, o itinerário do pensamento lapidar do eminente político e professor de universidade, conquanto particular. Que dedicara a sua vida adulta a estudar os Hayeks, os Friedmans, os de Chicago e os liberais políticos clássicos e, como tal, esconjurava o papel do Estado na economia. Porém, a crise internacional e o crucial papel desempenhado por sua excelência na comissão de inquérito trouxe-lhe uma iluminação de Espírito Santo - o etéreo, o lá de cima... - e lhe mostrou a função salvífica do Estado forte.

Desta pasta se fazem intelectuais e tonitruantes professores da nossa Academia (nossa, vírgula: se fosse nossa rifava a minha parte). Diz sua excelência que estudou muito aqueles autores. Não estudou: empinou. Marrou muito. E ficou tudo colado com cuspo. Não conseguiu perceber que para esses pensadores, o papel do Estado nunca desapareceu. Aliás, se tirasse as palas e visse mais alargadamente, se observasse a história, perceberia que é imperativo e essencial para uma sociedade de economia liberal existir um Estado forte e interventivo. O capitalismo dos Estados Unidos, por muito "desregulado" que se afirme, nunca dispensou os instrumentos de repressão, como Bernard Madoff se vai inteirando nos próximos 145 anos. Lá não é preciso propagandear qualquer Simplex: num dia consegue-se abrir um estabelecimento. Só que o investidor recebe um regulamento muito especificado do que precisa de cumprir para manter a casa aberta, quando não, fecham-lhe a loja. E se o incumprimento afectar a saúde pública dá direito a cadeia. O Estado, mais do que respeitado, é mesmo temido no capitalismo mais liberal.

Foi esse o erro trágico da União Soviética, quando implodiu. Extinguindo-se o Partido Comunista, desapareceu o Estado - e nasceu a leste uma nova Chicago dos anos 30, ainda não completamente domesticada. Os russos agradecem a Putin os seus esforços, não por estar no horizonte a restauração do ideal socialista, mas por se reconstituir o Estado forte.

Mais avisados foram os chineses, que mudaram de rumo mantendo o Partido no poder. Com certeza que houve dirigentes que se locupletaram à grande, mas a verdade é que os capitalistas chineses andam com pezinhos de lã, não vão despertar a fúria do Estado. E de vez em quando, na Rússia e na China, tal como nos Estados Unidos, lá vai um criminoso passar uma eternidade à prisão quando não, como na China, é directamente transferido para a eternidade, pagando a família as balas.

A querela sempre presente é a de saber qual o papel do Estado na economia, se activo ou supletivo. Deve ou não haver empresas nacionalizadas? Quem olha para os Estados Unidos diz que lá não há, mas é um engano: recordam-se de que, nos anos 80, às zero horas de determinado dia, Ronald Reagan despediu instantaneamente cinco mil controladores aéreos? Tanto quanto parece, as companhias aéreas são privadas, não são necessárias companhias de bandeira, dada a dimensão do país e do mercado aéreo - mas o controlo aéreo é assegurado pelo Estado. E assim o é, sempre que necessário, a nível municipal, estadual ou federal, sempre que as necessidades públicas o justifiquem. O problema é saber se em sociedades de pequena dimensão como a maioria dos países europeus, pode ser aplicado de chapa o modelo norte-americano - ou se o Estado tem de estar mais presente, não já por razões ideológicas, mas por imperativos da economia.

Carlos Abreu Amorim, professor de universidade, conquanto particular, insisto, diz que deixou de ser liberal. Mas não deixou de ser ignorante e não perdeu a oportunidade de demonstrar a inanição cultural que em pouco tempo o alcandorou ao pódio como o político mais crasso, trauliteiro e agora cata-vento oportunista.

Os jornalistas do Público que o entrevistaram (alguma coisa devem ter feito de grave, para terem tal castigo...) deixaram escapar a pergunta óbvia: Mudou de ideias? E continua na mesma função de deputado? Não tem um compromisso com os seus eleitores?

Embora, segundo o desavergonhado retrato que Carlos Abreu Amorim faz do seu partido, como um albergue espanhol, como um carro eléctrico onde cabe sempre mais um, por muito avantajado que seja, existe uma questão de honra que se radica no compromisso que o eleito tem com os seus eleitores. Admito que a base de apoio de Carlos Abreu Amorim esteja nos trauliteiros lúmpen-portistas, que verão nele um sólido saco de trincheira para a batalha contra imaginários magrebinos - mas sempre é um compromisso, não é uma predestinação. E um homem de honra, quando muda de ideias, demite-se do cargo para que foi eleito com aquele compromisso, faz a sua travessia no deserto e vai, querendo, procurar refrescar a sua legitimidade electiva com um novo compromisso.» – Óscar Mascarenhas, no DN.

1 comentário:

fb disse...

Carlos Abreu Amorim, professor de universidade, conquanto particular, insisto, diz que deixou de ser liberal. Mas não deixou de ser ignorante e não perdeu a oportunidade de demonstrar a inanição cultural que em pouco tempo o alcandorou ao pódio como o político mais crasso, trauliteiro e agora cata-vento oportunista.