terça-feira, 17 de março de 2015

Café para a preguiça


Quer porque mais de 90% de nós vive de rendimentos do trabalho, quer porque quase 4 em cada 5 euros das receitas que pagam os nossos serviços públicos e as nossas pensões de reforma são gerados por rendimentos do trabalho, quer porque são os salários que comandam o consumo em função do qual o emprego cresce ou se retrai, quer porque a nossa felicidade individual e colectiva são deles indissociáveis, qualquer cidadão deveria dominar os temas trabalho, condições laborais e redistribuição da riqueza pelo menos tão bem como as esterilidades que predominam nas conversas de café desta Primavera do culto do efémero. Se fosse assim, teríamos imensamente mais condições para construirmos uma sociedade melhor.

Infelizmente, não é isto que se verifica. E às vezes fico de boca aberta com certas reacções de pessoas que nem com as suas vidas a passarem-lhes diante dos olhos num gráfico conseguem dizer mais do que um daqueles disparates que jorram com abundância dos televisores que todos nós temos em casa. Tornei a constatá-lo um dia destes ao partilhar esse aí em cima, onde se vê como Grécia, Espanha e Portugal, os campeões do desemprego europeu, são também os países da Europa onde se trabalha mais tempo. Não é por acaso. E adoptar a receita de sucesso dos americanos no combate à crise de 1929 e reduzir o horário de trabalho de forma a distribuir os poucos empregos que existem por mais gente seria não apenas a medida socialmente mais justa, seria também aquela economicamente mais racional. Pois houve gente que o que descobriu no gráfico foram cafezinhos a mais e gente que comentou que estar no trabalho não significa estar a trabalhar, um argumento que na lógica de gente normalzinha justificaria a supressão das horas em que nada se produz mas que na ilógica de certas anormalidades moralistas legitimaria até um aumento das horas de permanência no local de trabalho a título de punição do pecado da preguiça.

Lembrei-me desta ignorância esclarecida ao ler o que o seu querido FMI hoje nos diz sobre  as baixas qualificações dos gestores portugueses e sobre o que o Governo também não fez para aumentá-las. Não é que seja novidade que as qualificações médias dos patrões portugueses são inferiores às qualificações médias dos seus trabalhadores, tão-pouco que devamos levar a sério o que diz uma instituição tão especializada em receitas de ruína como o FMI,  mas apeteceu-me oferecer-lhes este “cafezinho”. Bem sei que o café pouco efeito tem sobre a ignorância, mas pode ser que lhes desperte a preguiça que os impede de perceber que a baixa produtividade que é apontada a Portugal se deve não ao pouco que trabalhamos, trabalhamos muito mais do que a  média, mas sim ao mal que trabalhamos e que quem organiza o trabalho nunca sentirá necessidade de melhorar competências enquanto a sua incompetência puder ser compensada com horas suplementares de trabalho cada vez mais gratuitas à medida que os direitos laborais vão sendo pulverizados.

Vagamente relacionado: A primeira frase do documento dedicado a Portugal resume assim o “severo” impacto da crise no país: “O desemprego mais do que duplicou desde 2008, a emigração atingiu números recorde (mais de 300 mil pessoas saíram do país nos últimos três anos) e o PIB encolheu para níveis de 2000.” Pelo caminho, vários direitos fundamentais “foram afectados”, sobretudo o direito ao trabalho. Estas são conclusões de um relatório publicado nesta terça-feira pelo Parlamento Europeu (PE) sobre “o impacto da crise nos direitos fundamentais” em sete países: Portugal, Espanha, Grécia, Chipre, Irlanda, Itália e Bélgica.

1 comentário:

fb disse...

Há gente que o que vê neste gráfico são cafezinhos a mais e gente que diz que estar no trabalho não significa estar a trabalhar, um argumento que na lógica de gente normalzinha justificaria a supressão das horas em que nada se produz mas que na ilógica de certas anormalidades moralistas legitimaria até um aumento das horas de permanência no local de trabalho a título de punição do pecado da preguiça.