quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Syriza à moda da casa


Pode parecer anedótica se formulada assim, mas a questão do momento é: “olhe, faz favor, onde e como é que a gente faz para também votar no Syriza?” Pois…

No PSD e no CDS não será, com toda a certeza. Ficam às corzinhas, espumam-se todos e reviram tanto os olhos quando ouvem a palavra maldita que, conjugando tudo isto com o que dizem, alimento cada vez mais fundada convicção de que a palavra Syriza lhes provoca incontinência urinária. Pelo menos.

No PS, também não. Num dia dizem que a dívida não é insustentável e no seguinte que a dívida é um problema mas, independentemente do que lhes pareça mais oportuno dizer, se não fosse insustentável, como é, a dívida não seria problema nenhum. Felicitam e colam-se ao Syriza no abstracto e criticam-no e descolam no concreto, quando o tema é austeridade ou negociar com a Europa. Para além do mais, Costa tem medo de levar com a porta na cara, a ideia de renegociar com os senhores da Europa provoca-lhe a mesma incontinência que aos seus sócios de memorando e de Tratado Orçamental, porventura até com umas pinguinhas a mais por saber o que custou ao PASOK fazer o mesmo que o PS vai fazendo.

No “tempo de avençar”, ou lá o que é, também não será. As inconsistências e incoerências são cada vez mais visíveis. Dá a ideia que se urinam de excitação com cada notícia que chega do caminhar das negociações do Governo grego com os seus congéneres europeus e que o problema se agrava quando olham para o lado e disfarçam a euforia, não vá o PS negar-lhes a secretariazinha de Estado como retaliação motivada por uma qualquer eventual incontinência verbal vertida no calor da outra. É dura a vida de um partido que nasceu para ser satélite de outro com uma órbita tão ziguezagueante, ora mudança no abstracto, ora tudo ma mesma no concreto, ora mais radicalzinho, ora mais responsavelzinho. Se a vida de rolha é uma montanha russa, a sina de quem decide esquecer tudo o que fez, disse ou escreveu para sermuleta de uma rolha é mesmo fodida.

No Bloco, se alguma vez foi, já não é. Em traços gerais de uma história longa, uma liderança que até fazia coisas bonitas urinava-se toda com a ideia de perder o controlo do partido. Assim tipo para o eucalipto que destrói tudo ao seu redor, como nos partidos a sério, mas de esquerda. Quando saíram, a sucessão que designaram não resultou e, como essa liderança não soube sair quando devia, foram saindo cada vez mais militantes que não estiveram para aturar-lhes as manias. O Bloco resume-se hoje a um grupo parlamentar composto por oito deputados dos quais apenas uma consegue fazer-se ouvir, a uma dúzia de cabeças que não abandonaram o partido e que vão conseguindo fazer-se ouvir e a uma espécie de associação de estudantes mais velhos que nunca perceberão que anulam o trabalho dos anteriores ao insistirem em pregar assim umas coisas e coisos sobre piropos e procriação medicamente assistida a uma população que, por estar desesperada com a miséria e o desemprego, não tem vida para brincar às causas fracturantes.

No PCP, que neste momento eventualmente será a alternativa mais credível entre as alternativas, e na minha opinião é-o apesar de não ser comunista, também não será. São alérgicos a fazer alianças e o partido não se moderniza com a celeridade que o momento exigiria. Ainda se urinam todos quando se ouvem dizer umas sobre coisas que hoje já não existem como “a burguesia” ou sobre a sociedade sem classes que S. Estaline só não tornou realidade por manifesta falta de tempo para catequizar uma população que fugia sempre que podia para onde pudesse beber Coca-cola sem ser chateada. Tal como o Bloco, fazem autênticos milagres com os poucos votos que lhes são confiados por um eleitorado que raramente tem razões de queixa do seu trabalho, mas também nunca conseguirão afirmar-se enquanto continuarem a escravizar o seu discurso e praxis política aos símbolos e objectos de culto que insistem em incluir no pacote.

Aos oportunistas mais caceteiros e trauliteiros que para aí andam não me apetece dedicar-lhes mais do que esta linha.

E cá estamos nós a olhar uns para os outros com a charada da pergunta do milhão de votos entre mãos. Olhe, faz favor, onde e como é que a gente faz para também votar no Syriza?” Lembra aquela velhinha do “organizem-se!”. E se calhar até é por aí, não sei. Este fica mesmo assim porque tenho que ir ali fazer uma coisinha. Desculpem, sim?

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