sábado, 21 de fevereiro de 2015

Ontem negociou-se


Um acordo de princípio à condição, que ainda não se sabe se irá durar apenas três dias, o pior dos cenários, ou se quatro meses, o melhor. Tudo é melhor do que nada, pelo que ser melhor do que nada nunca será vitória para ninguém. Mas no saldo provisório da reunião do Eurogrupo de ontem há a registar um enorme recuo da intransigência tentada pela Alemanha ao longo de toda a semana, que a tradicional subserviência dos restantes países nunca conseguiu contrariar, e a primeira vez em muitos anos em que se discutiram políticas, afinal havia alternativas, e que umas eleições conseguiram dar voz aos eleitores nas instâncias europeias, há muito tempo que a vontade das pessoas não se conseguia fazer ouvir ali, onde os seus destinos são decididos por uma gente que não as considera mais do que centros de custos e de proveitos. E nada disto é pouco. Será esta voz que o Governo grego irá verter nas propostas que apresentará na próxima Segunda-feira, de igual para igual, não de membro convidado para membros de pleno direito, pelo que teremos que aguardar até lá para fazer o balanço final do quanto conseguirá avançar, e note-se bem que serão sempre avanços, o recuo será sempre relativamente à sua intenção inicial de avançar mais rapidamente. Empresa difícil.

Ficámos a saber como decorrem estas reuniões quando há uma voz dissonante. São 18 contra 1, a Comissão Europeia eclipsa-se, a Alemanha senta-se numa sala, a voz noutra, nada de confianças de todos sentados à mesma mesa, o diálogo faz-se através de documentos que circulam pelo corredor carregados por estafetas, os restantes estados ou são tão alemães como a Alemanha ou esforçam-se por sê-lo ainda mais, como fizeram Portugal e Espanha, que apostaram tudo em impedir um acordo final apesar de serem precisamente aqueles cujo interesse nacional mais coincide com o grego. Uma conduta tão miserável ao ponto de Janis Varoufakis invocar as "boas maneiras" para não comentar as  posições defendidas por Maria Luís Albuquerque. A nossa vergonha tudo fez para vergar a dignidade grega. Fracassou, como inexistência que nem mesmo ajoelhando-se consegue deixar de ser. Ontem negociou-se. E mais uma vez foi o Governo grego que representou o interesse nacional de Portugal.

O primeiro-ministro grego, Alexis Tsipras, disse este sábado numa declaração televisiva que o acordo de ontem com o Eurogrupo “deixa para trás a austeridade, o memorando, a troika”, mas que as “dificuldades reais” estão para chegar. “O acordo de ontem com o Eurogrupo… cancela os compromissos dos governos anteriores para cortes nos salários e nas pensões, para despedimentos no sector público, para subidas do IVA na alimentação , na saúde”. “Ganhámos uma batalha mas não a guerra". “Evitámos a asfixia da Grécia”, “mas o pior vem agora". “Com o decisivo apoio do povo grego".

1 comentário:

fb disse...

A primeira vez em muitos anos em que se discutiram políticas, afinal havia alternativas, e que umas eleições conseguiram dar voz aos eleitores nas instâncias europeias, há muito tempo que a vontade das pessoas não se conseguia fazer ouvir ali, onde os seus destinos são decididos por gente que não as considera mais do que centros de custos e de proveitos. E nada disto é pouco. Será esta voz que o Governo grego irá verter nas propostas que apresentará na próxima Segunda-feira, de igual para igual, não de membro convidado para membros de pleno direito, pelo que teremos que aguardar até lá para fazer o balanço final do quanto conseguirá avançar, e note-se bem que serão sempre avanços, o recuo será sempre relativamente à sua intenção inicial de avançar mais rapidamente. Empresa difícil.