A miséria e os novos barões da
pobreza. Uma economista, Cláudia Joaquim, analisou dados oficiais da Segurança
Social e chegou a conclusões interessantes, chamemos-lhes assim.
Comecemos pelas prestações
sociais não contributivas. Entre 2010 e 2014, com o desemprego real e a pobreza
sempre a aumentarem, o número de beneficiários do RSI diminuiu para menos de
metade (-60%), de 526 mil para menos de
211 mil, o de beneficiários de abono de família foi reduzido em mais de um
terço, de mais de 1,8 para menos de 1,2 milhões (-e o de beneficiários do
complemento solidário para idosos em proporção aproximada, de 246,6 mil para
171,3 mil. Ao mesmo tempo que reduziu prestações sociais, o Governo aumentou o financiamento a instituições
caritativas de tal forma que, números do Ministro da Solidariedade Social divulgados
na semana passada no Parlamento, o número de cantinas sociais aumentou de 60 para 850, ou seja, nada
mais nada menos que um aumento de 1316%.
Este contraste torna-se ainda
mais interessante se conjugado com outros dados. O Estado paga, no máximo,
178,15 euros por titular de RSI; 89,07 por cada um dos outros adultos que
existam no agregado; 53,44 por cada criança. Um casal com duas crianças recebe
no máximo 374,1 euros de RSI. Para o Governo é este o montante mensal
necessário e suficiente para uma família com esta composição satisfazer as suas
necessidades básicas. Já às instituições particulares de solidariedade social
(IPSS), o Estado paga 2,5 euros por cada refeição fornecida pelas cantinas
sociais. Conforme o protocolo, podem as refeições ser fornecidas até duas vezes
por dia, sete dias por semana. Quer isto dizer, que uma IPSS pode receber até
600 euros por mês para fornecer almoço e jantar a um casal com dois filhos e
ainda cobrar 1 euro por refeição. Interessantíssimo.
Mas o interesse aumenta ainda
mais se acrescentarmos a tudo isto outro contraste. Os critérios de acesso ao
RSI foram sendo progressivamente apertados pela desconfiança, tantas vezes
vertida em discursos que roçam a xenofobia,
pelo actual e pelo anterior Governo. A sua atribuição obedece a um
processo burocratizado ao máximo e com fiscalizações levadas ao extremo que
culmina na assinatura de um contrato de inserção social que implica todos os
membros do agregado familiar. Pelo contrário, no reverso desta desconfiança
movida aos pobres, há uma confiança absoluta na nova classe de caridosos
beneméritos que nasceu à sombra do financiamento estatal. A Segurança Social é
capaz de dizer que a 31 de Dezembro de 2014 estavam em vigor 845 protocolos
referentes a cantinas sociais e que estes significavam 49.024 refeições
diárias, mas é incapaz de dizer quantas pessoas delas usufruíam.
A economista que estudou esta
medida do Programa de Emergência Social (PES) lançado em 2011 pelo Governo
encheu-se de interrogações. Quais os critérios de selecção das instituições que
assinaram protocolo com o Estado? Como se determinou a comparticipação pública?
Como é monitorizada a medida, por exemplo, no que concerne ao número de
beneficiários? Os critérios de acesso parecem-lhe relativamente genéricos. Os
protocolos que analisou mencionam pessoas desempregadas, com baixos salários ou
doenças crónicas, mas não há uma tabela. Cada instituição apura o que é
carência económica e decide se determinada família é ou não apoiada pelos
critérios que entenda e sem fiscalização.
Ou seja, tanto podem atribuir
refeições a quem realmente delas necessite, como podem recusá-las com base no
critério que entendam, como podem premiar com refeições quem delas não
necessite mas satisfaça as exigências de quem passou a ter plenos poderes para administrar
o poder que o Estado depositou na conta bancária da instituição respectiva, que
não é pouco. Há 3 milhões de pobres a fazê-los sentirem-se grandes cada vez
que estendam a mão a rogar-lhes a caridade que antes era direito. E são-no, enormes. Eles mandam na fome de quase um terço dos
portugueses. Com o dinheiro dos nossos impostos.


2 comentários:
Entre 2010 e 2014, com o desemprego real e a pobreza sempre a aumentarem, o número de beneficiários do RSI diminuiu para menos de metade (-60%), de 526 mil para menos de 211 mil, o de beneficiários de abono de família foi reduzido em mais de um terço, de mais de 1,8 para menos de 1,2 milhões (-e o de beneficiários do complemento solidário para idosos em proporção aproximada, de 246,6 mil para 171,3 mil. Ao mesmo tempo que reduziu prestações sociais, o Governo aumentou o financiamento a instituições caritativas de tal forma que, números do Ministro da Solidariedade Social divulgados na semana passada no Parlamento, o número de cantinas sociais aumentou de 60 para 850, ou seja, nada mais nada menos que um aumento de 1316%.
Uma canja pra jonet :)
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