Nem a pobreza e a desesperança que
varrem o seu país, nem mesmo os reparos severos que ouviu da mesma boca há um
par de semanas fizeram Maria Luís Albuquerque sentir a sua dignidade insultada quando,
ontem, o ministro das Finanças alemão, Wolfgang
Schäuble, num golpe de magia grega, transformou as anteriores críticas em
elogios ao dizer que Portugal, a par da Irlanda, “é a melhor prova" de que
os programas de ajustamento funcionam, uma tirada que se traduz "em
Portugal e na Irlanda fazemos o que queremos e eles não se queixam".
Não tiveram que esperar muito. A
mesma magia grega encarregou-se de retratar patrão e criada pouco tempo depois.
Quem os envergonhou foi alguém de quem se esperava tudo menos dizer que pode
parecer estúpido ser eu a dizê-lo, mas ""pecámos[nós, troika] contra a dignidade dos cidadãos da Grécia, de Portugal e também da Irlanda":
nada mais, nada menos do que o Presidente da Comissão Europeia e não à mesa do café, perante o Comité
Económico e Social.
E, mais magia grega, lembrar-se-ão
dos opinadores de serviço que inundaram o espaço mediático nacional com críticas
à recusa de Francisco Louçã e Jerónimo de Sousa à reunião com os mangas de
alpaca da troika. Pois Jean-Claude Juncker também referiu que não
se põem funcionários a falar à mesma mesa com dirigentes políticos, a dignidade
exige que sejam ou ministros ou comissários. É animador verificar como a História
se vaie encarregando de colocar no seu devido lugar todos os personagens desta tragédia
tão irresponsavelmente consentida mas ainda inacabada.
Porém, o que se vê também e com uma
nitidez cada vez maior é que Europa afunda e, péssimo sinal, os primeiros ratos
começam a bater em retirada antes de afundar de vez. Não foi à toa que Jean-Claude
Juncker, que tem informação privilegiada, se posicionou – também o fez – a
favor da revisão do funcionamento das instituições europeias. Amanhã saberemos
o resultado final do "ou se humilham e aceitam, ou rua" do ultimato alemão
à Grécia. Juncker não falou nem por comiseração por gregos e portugueses, nem para
envergonhar aliados da sua causa de sempre. O que quis deixar bem vincado foi
um "eu bem avisei", nem ele sabe bem do quê. As consequências da irresponsabilidade
europeia na condução das negociações com a Grécia são imprevisíveis. O único
dado adquirido é que nada será como foi até aqui. O fim da paz podre devemo-lo aos gregos.


1 comentário:
A mesma magia grega encarregou-se de retratar patrão e criada pouco tempo depois. Quem os envergonhou foi alguém de quem se esperava tudo menos dizer que pode parecer estúpido ser eu a dizê-lo, mas ""insultámos [nós, troika] a dignidade dos cidadãos da Grécia, de Portugal e também da Irlanda": nada mais, nada menos do que o Presidente da Comissão Europeia e não à mesa do café, perante o Comité Económico e Social.
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