«Portugal em 2015 está um país
muito esquisito, amorfo e ao mesmo tempo zangado; cansado e ao mesmo tempo
agitado, cheio de "criadores culturais" e ao mesmo tempo ignorante
como nunca; egoísta, mas incomodado pelo seu egoísmo, com má consciência. (...)
Olhe-se em volta. Nos cinemas dos
centros comerciais (não há outros), a parte da Humanidade que é do sexo
feminino faz fila para comprar bilhetes para ver um vago filme erótico, com
chicotes e algemas, mas onde tudo é bonito, milionário, com gosto e controlado,
asséptico. Parece que o sadomasoquismo chique está na moda entre as mulheres.
Na verdade, não é uma grande novidade, mas presumo que os homens se interrogam
sobre o que é que não tinham percebido nas suas mulheres, companheiras,
namoradas, amantes e seja lá o que for. Vão continuar sem saber nada.
A crise grega entra nas redes
sociais por via da roupa do ministro Varoufakis. Discute-se o blusão de couro,
o cachecol, as camisas de fora ou de dentro. Não admira. Muita da nossa inteligência
feminina, metrossexual e gay gosta muito de discutir roupas e ocasionalmente
gatinhos. Sendo assim, não admira que tenham passado dos sapatos Prada, dos
fatos Armani e Boss do nosso ex-primeiro-ministro caído em desgraça, para a
discussão contínua das gravatas e terminar na mais imbecil crítica feita alguma
vez a Passos Coelho, a dos fatos suburbanos de segunda. Essa gente não se
enxerga mesmo. É isto segredo para alguém, indiscrição, boato, ou má língua?
Não, não é. É o conteúdo habitual desse ruído moderno do Twitter e do Facebook,
feito por gente que diz abominar a Caras e a Lux e faz muito pior.
O que tem mais graça, aliás o que
é mais ridículo, é que esta gente que discute roupas, restaurantes e outros
ademanes da cultura urbana, que fazem a Time Out ganhar a sua vida
(honestamente), é toda muito de esquerda, muito de causa dos costumes, muito do
social, muito modernaça. Seja dito, no entanto, que há também uma fauna de
direita, muito "ajustadora", que é exactamente igual. Aliás dão-se
bem e exercem activamente a boa prática do fishing for compliments, ajudando-se
uns aos outros na luta pela vida. (...)
Em política, Pavlov reina como
mestre de cãezinhos. É tudo tão previsível, tão fácil de identificar, tão
rudimentar, tão… pavloviano. Grite-se Sócrates, Costa, Boaventura, Syriza,
Bagão, Louçã, Manuela, eu próprio, os gregos, Varoufakis e logo uma pequena
multidão começa a salivar nas redes sociais, nos blogues, nos
"porta-vozes" oficiais e oficiosos do PSD e do CDS. Muita desta raiva
vem do desespero. Os melhores dias já estão no passado e as perspectivas são
sombrias. (...)
Enganam-se se pensam que são os
esquerdismos do programa do Syriza que mobilizam as simpatias. É por isso que
há pouca gente nas manifestações, porque elas são miméticas desse esquerdismo.
Mas o que faz as sondagens maioritárias pró-gregos, a "maioria
silenciosa", é a afirmação nacional, a independência, a soberania, a honra
perdida das nações resgatada por um povo. É uma gigantesca bofetada nos
patriotas de boca e empáfia que aceitaram tudo, assinaram tudo, geriram o
"protectorado" com zelo e colaboração, e terminam o seu tempo útil
servindo para fazer o sale boulot alemão.» – Pacheco Pereira, na Sábado.


3 comentários:
A parte da Humanidade que é do sexo feminino faz fila para comprar bilhetes para ver um vago filme erótico, com chicotes e algemas, mas onde tudo é bonito, milionário, com gosto e controlado, asséptico. Parece que o sadomasoquismo chique está na moda entre as mulheres. Na verdade, não é uma grande novidade, mas presumo que os homens se interrogam sobre o que é que não tinham percebido nas suas mulheres, companheiras, namoradas, amantes e seja lá o que for. Vão continuar sem saber nada.
E assim, restas tu, Pacheco Pereira, o desalinhado "sem má consciência", o pequeno-burguês desiludido que queima esquerda e direita para se ajustar a ele próprio, na sua imagem direita e sem futuro. Já percorreste todo o espaço político e continuas desalentado e sem consciência que juras ter e outros não! De ti só vais restar uma coisa "inimigos"!
O ataque pessoal ao autor é sempre bom sinal. É sinal de incapacidade de rebater o que escreve.
Enviar um comentário