«(...) quando Cavaco e Passos
passaram a falar dos “gregos” como uma entidade orgânica, um país de gente
preguiçosa, que só quer férias, que não paga impostos, nem aliás coisa nenhuma,
das portagens à electricidade, e que pretende viver eternamente à custa do
dinheiro estrangeiro, eles engrossaram uma hoste europeia que é demasiado
conhecida e que vai do Partido dos Verdadeiros Finlandeses, à Liga Norte
italiana de Umberto Bossi e à sua reivindicação da Pâdania.
O caso italiano é muito
significativo, porque espelha argumentos muito comuns nas zonas ricas de um
determinado país, em relação às zonas mais pobres, muitas vezes rurais e pouco
industrializadas, como é o caso do Sul da Itália. Por que razão o Norte
italiano rico, industrial, trabalhador e próspero tem que “pagar” para esses
preguiçosos da Calábria que vivem da assistência social e não querem trabalhar?
O mesmo tipo de “argumentos” existe em vários países: na antiga Checoslováquia
por parte dos checos e contra os eslovacos, em Espanha e mesmo em Portugal. E
não é verdade que os alentejanos não gostam de trabalhar e querem viver sempre
à “sombra de um chaparro” a dormir? E Pinto da Costa não falou várias vezes do
Porto e do Norte trabalhador que alimenta os “mouros” de Lisboa para baixo? E
em que é que estes “argumentos”, atingindo povos, regiões, histórias
diferenciadas, são diferentes dos que a extrema-direita dá contra os “pretos”,
os “árabes”, e os “imigrantes”, que também não querem trabalhar, mas viver da
segurança social e das regalias dos países mais ricos, em detrimento dos seus
habitantes “nacionais”?
Cavaco Silva e Passos Coelho
falaram dos “gregos” com o mesmo grau de generalidade e anátema. Como muitos
dos seus repetidores nos media e nas redes sociais, são as “características”
intrínsecas do povo que são atacadas. O que aconteceu na Grécia, nesta versão,
é culpa do povo, não dos anteriores governos gregos. Percebe-se, porque o povo
votou mal e derrotou o governo preferido por Cavaco Silva e Passos Coelho: o
tandem troika-Nova Democracia.
Sim, porque se o PASOK tem culpas
no passado, a Grécia era até Janeiro governada por um governo membro do Partido
Popular Europeu (de que faz parte Merkel, Rajoy, Passos Coelho e Portas) que
foi apoiado pelos partidos no poder na Alemanha, Espanha e Portugal. E mais:
foi governado pela troika, em conjunto ou em cima, e se os resultados deixaram
a Grécia com a gigantesca dívida que tem, e sem “ter feito o trabalho de casa”,
a culpa é de quem? Do Syriza? Silêncio.
E os gregos não querem
austeridade, o pecado mortal da Grécia para Cavaco e Passos. Mas o que é que
eles tiveram nos últimos anos: despedimentos, falências, encerramentos, corte
de serviços fundamentais, cortes na educação, na saúde, na segurança social,
uma queda brutal do produto Interno Bruto? De onde é que isto veio, do
esbanjamento e da preguiça inata aos gregos? Como é que se chama a isto, senão
uma dura, penosa, cega, punitiva austeridade? Na verdade, como Passos Coelho
diz com todas as letras: foi pouco, têm ainda que ter mais. Mas o que nem
Cavaco nem Passos dizem é aquilo que é evidente: não resultou, nem resulta, nem
resultará. É uma receita errada quer em Portugal, quer na Grécia. Mas era a
continuação dessa receita, aquilo a que chamam “cumprir as regras”, que Passos
queria para a Grécia, com aquela cegueira que tem os acólitos e que continua
mesmo quando os mestres já estão noutra. (...) Uma parte importante da
intransigência com os gregos vem de governos acossados, como é o caso do
português e do espanhol, que andaram a dizer aos seus povos que não havia
alternativa a não ser a política que seguiam.
Ora, a questão não é a de validar
o programa do Syriza, ou assinar por baixo de Tsipras e Varufakis, mas a de
saber se, no fim de tudo, os gregos têm ganhos de causa ao terem votado como
votaram. E se sim, como é que ficam os que tinham para eles a receita de tudo
continuar na mesma, votando na Nova Democracia, na obediência à troika, e na
política até agora intangível da Alemanha. Esse é que é o mal grego que Cavaco
e Passos querem extirpar.» – Pacheco Pereira, no Público.


1 comentário:
O que aconteceu na Grécia, nesta versão, é culpa do povo, não dos anteriores governos gregos. Percebe-se, porque o povo votou mal e derrotou o governo preferido por Cavaco Silva e Passos Coelho: o tandem troika-Nova Democracia.
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