«Na semana passada a polícia
entrou como muitas vezes na Cova da Moura, como exército que entra em terra
conquistada em zona de inimigos. Detiveram uma pessoa, bateram em quem estava
na rua e dispararam balas de borracha. Fizeram tudo o que não fariam se estivessem
na Avenida de Roma. Os moradores da zona estão habituados a ser tratados como
pessoas de segunda, a quem é possível espancar sem consequências, mas a
brutalidade da acção foi tanta que alguns elementos da comunidade, nomeadamente
da Associação Moinho da Juventude, a principal associação com trabalho social
no bairro, foram à esquadra queixar-se da violência policial. Chegados lá,
foram, segundo testemunhos, cercados, espancados, torturados e sobre um deles
dispararam uma bala de borracha, na perna, à queima-roupa - a perna ficou com
um buraco por onde se via o osso.
A polícia não comentou o
sucedido, mas os trabalhadores da associação foram acusados de tentar assaltar
uma esquadra cheia de polícias de intervenção. Provavelmente um deles será
responsabilizado por
ter agredido uma bala de borracha policial com a perna. Ouvidos um dia
depois por um juiz, vão a julgamento. O magistrado considerou que tanto a
versão dos polícias como a dos detidos eram coerentes e tinham de ser dirimidas
em tribunal. Infelizmente, isto não vai dar em nada. E os polícias vão
continuar a ter carta branca para tratar qualquer pessoa nos bairros suburbanos
como um saco de pancada.
No período revolucionário
circulava a anedota de que os alentejanos eram os homens mais altos do mundo:
sempre que a GNR atirava para o ar matava dois. Nos dias de hoje, os
alentejanos pobres tornaram-se negros pobres, a quem se pode fazer tudo sem que
a justiça franza o sobrolho.
Em 2012 entrevistei o dirigente
do principal sindicato da polícia, Paulo Rodrigues, que me recordou a sua
carreira na polícia e os problemas que se lhe depararam quando esteve colocado
numa esquadra da zona: "Na Damaia, como era uma esquadra rodeada por
bairros sociais com várias comunidades, achava-se que os polícias tinham de
utilizar a repressão para impor a autoridade e que a população eram só
criminosos. A todo o pessoal novo que vinha era incutida esta ideia. Chegava-se
depois à conclusão que muitos dos problemas que existiam se deviam a essa
atitude: a população reagia à presença policial considerando que não estávamos
ali para nos preocuparmos com eles. Sentiam que éramos uma espécie de força de
ocupação. Resultado: tínhamos os polícias contra os cidadãos daqueles bairros e
aqueles contra os polícias."
Nada mudou. Somos um país
desigual, em que o poder dos muito poucos, e o seu enriquecimento corrupto, se
garante dividindo a população. O falhanço desta sociedade vê-se nos chamados
bairros; se em Portugal o povo está fora da democracia, nos bairros está fora
da sociedade. É gente invisível.» – Nuno Ramos de Almeida, no I.


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Na semana passada a polícia entrou como muitas vezes na Cova da Moura, como exército que entra em terra conquistada em zona de inimigos. Detiveram uma pessoa, bateram em quem estava na rua e dispararam balas de borracha. Fizeram tudo o que não fariam se estivessem na Avenida de Roma. Os moradores da zona estão habituados a ser tratados como pessoas de segunda, a quem é possível espancar sem consequências, mas a brutalidade da acção foi tanta que alguns elementos da comunidade, nomeadamente da Associação Moinho da Juventude, a principal associação com trabalho social no bairro, foram à esquadra queixar-se da violência policial. Chegados lá, foram, segundo testemunhos, cercados, espancados, torturados e sobre um deles dispararam uma bala de borracha, na perna, à queima-roupa - a perna ficou com um buraco por onde se via o osso.
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