quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Vejam lá se o reconhecem


Onda! Hoje toda a gente partilha caricaturas da edição especial desta Quarta-feira do Charlie Hebdo. E fazem muito bem. Olhar para os outros – sim, outros, essa moda do je suis Charli há-de passar – é quase sempre bom. Mas falta um grande quase. Quando olhamos para os outros e deixamos de olhar para nós próprios, estreitamos horizontes ao invés de alargá-los. E esquecemo-nos de quem somos, o que não é mesmo nada bom. Por tudo isto, e porque já há gente em número suficiente a partilhar o que toda a gente partilha, não me apetece ser mais um. Mas não prescindo de aqui partilhar uma caricatura. É da autoria do Rui Zink, chama-se “Manual do bom fascista (ou não)” e segue abaixo. Vejam lá se reconhecem o boneco. A seguir imaginem-no maravilhado ao descobrir que deixa de estar sozinho porque existe uma organização de outros bonecos iguais a ele que, para além de lhe fornecer os meios necessários para poder fazer “justiça” pelas próprias mãos, ainda lhe oferece o conforto de o fazer acreditar que tudo o que faça será ao serviço da “mãe Pátria” ou na qualidade de soldado de Deus. Creio que não necessitam de lhe pôr um turbante na cabeça para perceberem como o massacre do Charlie Hebdo tem servido para canalizar o medo e a intolerância que, distracção nossa, estes cromos continuam a não despertar.


Manual do bom fascista (ou não)

 1. O fascista nunca ofende. É sempre ofendido.

 2. O fascista coloca a honra acima de tudo. A dele.

 3. Excepção feita, por vezes, «ao meu Benfica».

4. O fascista tem sempre razão.

 5. O fascista tolera pretos, desde que saibam o seu lugar.

 6. E joguem bem.

 7. O fascista respeita as mulheres e só lhes bate quando estão a pedi-las.

 8. O fascista não gosta de ser chamado fascista. Acha que o retrato não lhe faz justiça.

 9. E a justiça é muito importante para o fascista. Ele não suporta injustiças.

 10. O fascista é sempre justo, mesmo quando reconhece que «exagerou um bocadinho».

11. O fascista não pensa. Ele é mais que a modos de que um homem de assão.

 12. O fascista é contra o acordo ortográfico. Pelo direito a continuar a escrever no verdadeiro portuguez de Tentúgal.

 13. O fascista não tem saudades de Salazar.

 14. Acha apenas é que Portugal precisava de um outro Salazar.

 15. Alguém que pusesse isto nos eixos. Ou no eixo.

 16. O fascista tem saudades de quando Portugal era Grande.

 17. Até porque «eles gostavam de nós».

18. E sabe que a descolonização foi muito mal feita.

 19. Agora vão lá para a terra deles.

 20. O fascista acha que os políticos são todos corruptos.

 21. E que isto só vai lá com uma grande mudança.

 22. E por ele ia tudo preso.

 23. E devíamos ter um governo a sério, que não se metesse em política.

 24. Como o nosso presidente, só que em mais firme.

 25. O fascista acha que temos de ser rigorosos.

 26. Indigna-o é que o «sô guarda» não tenha fechado os olhos.

 27. Afinal «foi só um instantinho».

28. E isto temos de ser uns para os outros.

 29. O fascista nunca leu um livro. Mas é contra o acordo ortográfico porque lhe disseram que é contra os brasileiros. E aí tudo bem.

 30. O fascista é nacionalista. Para ele Portugal é tudo. Excepto, talvez, o Sporting.

 31. O fascista agora já gosta do Pepe.

 32. O fascista acha que Portugal está a ser destruído. E por quem. (Pelos imigrantes.)

 33. O fascista sabe como se resolvia isto. «Era assim.»

34. O fascista não faz ameaças. Promete. «Um dia eu perco a cabeça e não respondo por mim.»

35. O fascista indigna-se que não lhe reconheçam o direito à diferença, como aos paneleiros e às gajas e aos [preencher ao gosto do freguês].

 36. O fascista é contra o direito à diferença.

 37. Mas escandaliza-se que não lhe reconheçam o direito à diferença.

 38. O fascista é contra a liberdade de expressão.

 39. Mas acha uma injustiça não o deixarem falar.

 40. O fascista é a favor da censura.

 41. Mas sente-se vítima da censura.

 42. O fascista se mandasse nisto ia tudo preso.

 43. O fascista não gosta de ser preso…

44. O fascista é contra a injustiça.

 45. Mas se ele mandasse ia tudo a eito.

 46. E fazia a folha a uns não sei quantos. Era uma limpeza.

 47. Muito gosta o fascista de usar a palavra «limpeza».

48. E, justiça lhe seja feita, nem sempre é para compensar.

 49. O fascista sabe avaliar qualquer situação em poucos segundos.

 50. E tem a solução para tudo.

 51. O fascista é assim a modos que uma espécie de Chuck Norris.

 52. Só que sem golpes de Karate amaricados e falando em bom português.

 53. O fascista é contra a democracia.

 54. Mas acha que «isto não é democracia».

55. O fascista acha que «as mulheres são todas umas putas».

56. Sobretudo as que não querem nada com ele.

 57. O fascista detesta que lhe chamem fascista.

 58. O fascista por vezes sabe que, ao negar que o é, está a ser manhoso.

 59. Outras vezes não sabe mesmo.

 60. Aí é preciso explicar-lhe, com muita paciência:

 61. «Ó Xico, tu achas que a culpa disto tudo é dos imigrantes, que deviam ir todos para a terra deles, que somos vítimas dum complô larilo-judaico, que os muçulmanos estão todos com 500 anos de atraso coitaditos, receias que percamos a nossa identidade milenar, achas que temos de andar todos armados, que a sociedade deve ser ‘viril’ e não ‘efeminada’, a palavra que mais usas é ‘detesto´… Então desculpa lá mas és fascista, homem!»

62. Ocasionalmente podemos acrescentar: «Ou isso ou um atraso de vida, filho....»

63. O fascista ao ouvir isso – ou ao ler estas linhas – enfurece-se. Mas como, se reagir sugere que ficou picado e enfiou a carapuça? É um dilema, até porque (ver alínea 34) ele não é menino de se ficar.

 64. Aqui, o fascista fica frustrado. E vocês não queiram ver o fascista frustrado. «És muita espertinho, vamos lá a ver se continuas assim depois de veres os dentes no chão.»

65. «Ou de levares um balázio.»

66. O fascista odeia o humor, porque odeia as coisas que não entende.

 67. É pela mesmíssima razão que o fascista odeia o mundo.

 68. Isso o fascista tem em comum com o humorista e o poeta.

 69. Diga-se de passagem. Também eles não entendem o mundo.

 70. Só que eles sabem que o amor é isso mesmo. Gostar do que não entendemos.

 71. E que o encontro é isso: tentar entender quem está do outro lado.

 72. E trazê-lo para o nosso lado.

 73. Ou não.

5 comentários:

fb disse...

Vejam lá se reconhecem o boneco. A seguir imaginem-no maravilhado ao descobrir que deixa de estar sozinho porque existe uma organização de outros bonecos iguais a ele que, para além de lhe fornecer os meios necessários para poder fazer “justiça” pelas próprias mãos, ainda lhe oferece o conforto de o fazer acreditar que tudo o que faz faça será ao serviço da “mãe Pátria” ou na qualidade de soldado de Deus. Creio que não necessitam de lhe pôr um turbante na cabeça para perceberem como o massacre do Charlie Hebdo tem servido para canalizar o medo e a intolerância que, distracção nossa, estes cromos continuam a não despertar.

RH disse...

O fascista é contra o Acordo Ortográfico?

Manuel Alegre
Fausto
Manuel Villaverde Cabral
Francisco Louçã
Vítor Silva Tavares
Pedro Barroso
Natália Correia
Inês Pedrosa
Vitorino Magalhães Godinho
Maria Lúcia Lepecki
José Barata-Moura
Baptista-Bastos
Sophia de Mello Breyner
Sérgio Godinho
José Jorge Letria
Carlos Pinto Coelho
Hélder Macedo
Júlio Machado Vaz
Ricardo Araújo Pereira
Vicente Jorge Silva
João Tordo
Miguel Tiago
António Lobo Antunes
Rui Reininho
Eduardo Lourenço
José Gil
Garcia Pereira
Mário de Carvalho
Ricardo Pais
etc.

Tudo ilustres fascistas.
Mais: o PCP foi o único partido que se absteve aquando da votação do AO. Todos os outros votaram a favor. O Avante não aplica o AO.
Essa saiu-lhe mesmo pela culatra.

Filipe Tourais disse...

Não percebeu. Rejeitar o acordo ortográfico por motivos patrioteiros como o apontado. Eu, que não sou comunista - essa é que lhe saiu ao lado -, rejeito o AO por ser uma aberração que retira coerência à nossa língua escrita.

RH disse...

A mensagem destinava-se ao autor do texto, o Zink. Não ao Tourais. E apoiar o AO por motivos patrióticos não é ser fascista, parece-me. É apoiá-lo por motivos patrióticos. Alegre que o diga. Quanto ao mais, só me deu razão.

Filipe Tourais disse...

Pois pensei que fosse para mim, porque o Zink é público que não é comunista. Quanto aos "motivos patrióticos", o que é lá isso?