quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Os senhores terroristas


A reintrodução da pena de morte em França, a limitação da liberdade de culto, a possibilidade de retirar a nacionalidade, o recurso à tortura em casos de alegado terrorismo, controlo apertado de entradas e saídas  de pessoas nas fronteiras. Quem não consiga perceber que uma praga de formigas não se combate com metralhadoras e que não é nada boa ideia tentar apagar um incêndio regando-o com gasolina ter-se-á encantado com a reacção mais que previsível de Marine Le Pen à tragédia de ontem. Quem conceba um mundo onde o terrorismo “bom” move um combate sem tréguas a um terrorismo “mau”, "bom" por ser o seu,  “mau” por ser o dos outros, aprovará o fundamentalismo do mesmo sinal do da senhora Le Pen que reagiu ao crime de ontem com outro crime, atacando locais de culto em várias localidades francesas. Os apologistas do terrorismo de Estado estarão dispostos a abdicar de qualquer direito, liberdade ou garantia em nome do tal combate ao terrorismo islâmico e aprovarão a importação pelo Governo francês da prática de crimes contra a humanidade dos Estados Unidos e de Israel, comprovadamente tolerados pela maioria dos europeus.

Tudo isto para sublinhar a rapidez com que, enquanto uma esquerda  desunida e desorganizada chora a morte dos seus ensaiando discursos contra um atentado contra a liberdade de imprensa e a liberdade de expressão, as direitas, organizadas, se mobilizaram para se servirem do massacre de ontem para capitalizarem apoios limitando-o à sua dimensão criminal e distorcendo-o   na sua dimensão étnica. E não foi apenas um crime nem foi apenas um ataque às liberdades atrás citadas. O terrorismo, quer o islâmico, quer aquele que é fomentado pela senhora Le Pen, nasce da segregação social, da falta de oportunidades, do desemprego, da pobreza, da falta de instrução e de Cultura que geram a incapacidade de percepcionar muito mais do que a simplificação de um mundo em que apenas existe um “nós”e um “eles” que se confrontam numa disputa da qual, tal como a restante comunidade, sempre saem a perder. E então quem ganha?

Vamos até à Grécia. Os gregos decidirão no final deste mês se querem continuar a deixar-se empobrecer para fortuna de uma estrita minoria que tem beneficiado da venda ao desbarato de tudo o que é público. O responsável máximo do Governo corrupto que lhes tem dado cabo das vidas é Antonis Samaras, simultaneamente o candidato da troika que tem servido à revelia do interesse nacional do seu país. Também comentou o atentado de Paris num comício da campanha eleitoral. Grande patriota. “Hoje em Paris, houve um massacre com pelo menos doze mortos. E aqui alguns encorajam mais a imigração ilegal e prometem a naturalização. (...) O Syriza está noutro planeta, quer dar a nacionalidade massivamente, o acesso a cuidados de saúde e apoio social a todos os imigrantes ilegais”. O discurso é em tudo igual ao de Marine Le Pen. A irresponsabilidade e o interesse em alimentar clivagens sociais para chegar ao poder também. E note-se bem que, lá como cá, quem enriqueceu com a austeridade selectiva – terrorismo social – é uma pequena minoria sem expressão para garantir uma vitória eleitoral. O candidato da troika dirigia-se àqueles a quem o seu terrorismo de Estado tudo roubou. Ele sabe, os senhores terroristas sabem, que Se o poder para prosseguir o saque ao país lhe for devolvido será com o voto dos pobres. E que o voto dos pobres se conquista empregando a linguagem do ódio e do medo.



Vagamente relacionado: "(...) Afinal de contas, quem praticou a injustiça de expulsar da Palestina os seus habitantes e gerou o histórico ressentimento que produziu o Hezbollah e o Hamas? Quem apoiou os Talibãs no Afeganistão e ainda hoje os financia? Quem arma os guerrilheiros da Al-Qaeda no norte de África e no Próximo Oriente? Quem compra o petróleo ao Exército Islâmico para que possa armar-se e recrutar guerrilheiros na Europa? Quem permite a livre circulação dos capitais provenientes dos negócios de droga e armas, e recusa encerrar os paraísos fiscais que os encobrem? Estas são algumas perguntas que, a serem respondidas com seriedade, nos remetem para a geopolítica dos interesses do capital, para regimes políticos despóticos e, vergonha nossa, para a venalidade e hipocrisia das elites da nossa UE e dos EUA. Olhando mais para dentro de portas, quem é responsável por manter no desemprego milhões de jovens europeus, incluindo nos países mais desenvolvidos da UE? Quem é responsável pelas políticas económicas que, em nome da estabilidade dos preços e da confiança dos mercados financeiros, perpetuam o desemprego e a pobreza entre os imigrantes de segunda e terceira geração? Quem desmantelou os controles policiais nas fronteiras entre os Estados-membros da UE em nome do Mercado Único? Quem matou o desenvolvimento da África com a imposição do modelo neoliberal, suscitando o desespero das populações que hoje se entregam ao tráfico e à morte no Mediterrâneo? (...)" (Jorge Bateira)


Ainda mais vagamente: “As televisões têm como comentadores sobre o atentado, generais, directores da polícia, coordenadores dos grupos anti terroristas e chefes de operações especiais. Entrevistam ministros da administração interna, chefes de serviços secretos. Um deles explica agora na SIC Notícias a necessidade de suspender as liberdades, como a livre circulação, por "boas razões", temporariamente. Eu, aqui no meu facebook, vou ouvindo estes fantasmas com um olho e com o outro lendo com atenção e pausadamente os artigos que em Portugal e por este mundo escrevem os filósofos, antropólogos, sociólogos, historiadores, especialistas em religiões, imigração, desigualdade social, geopolítica e que levantam tantas questões, uma parte das quais sem resposta, ainda. Estamos em directo a ser convencidos que, que matando estes 2 loucos, estes bábaros, o dia a dia retomará a normalidade. Um dia disse a um dos meus filhos, então com 9 anos, que ele não tinha já idade para dormir de peluche, era uma vergonha, e ele respondeu-me "se não contares a ninguém, é como se eu dormisse sem ele". Disse-lhe que não era bem assim, era preferível ele dormir sem ele e continuar a pensar que dormia com ele porque a realidade tem mais força do que as palavras, se fazemos coisas absurdas não mudamos a realidade com palavras, a realidade vai-se tornar absurda com o tempo. E contei-lhe então um dos meus poemas preferidos, tentando explicar-lhe o meu ponto de vista porque estava convencida que a maioria das pessoas não identifica os problemas e cuidadosamente inventa outros. É aquele da Natália Correia: "Temos fantasmas tão educados, que adormecemos no seu ombro, sonhos vazios, despovoados, de personagens do assombro…".” (Raquel Varela)

5 comentários:

fb disse...

Tudo isto para sublinhar a rapidez com que, enquanto uma esquerda desunida e desorganizada chora a morte dos seus ensaiando discursos contra um atentado contra a liberdade de imprensa e a liberdade de expressão, as direitas, organizadas, se mobilizaram para se servirem do massacre de ontem para capitalizarem apoios limitando-o à sua dimensão criminal e distorcendo-o na sua dimensão étnica. E não foi apenas um crime nem foi apenas um ataque às liberdades atrás citadas. O terrorismo, quer o islâmico, quer aquele que é fomentado pela senhora Le Pen, nasce da segregação social, da falta de oportunidades, do desemprego, da pobreza, da falta de instrução e de Cultura que geram a incapacidade de percepcionar muito mais do que a simplificação de um mundo em que apenas existe um “nós”e um “eles” que se confrontam numa disputa da qual, tal como a restante comunidade, sempre saem a perder. E então quem ganha?

Oscar Zambrano Quiroz disse...

Fazer questão de comparar as democracias (imperfeitas) da Europa e os partidos da direita que participam no jogo democrático do continente com os terroristas islamistas que assassinam, decapitam crianças e maltratam as mulheres é de uma sem-vergonha única. As pessoas podem ser de direita, centro ou esquerda,mas perante um acto como o ocorrido em Paris só pode se estar em contra...

Filipe Tourais disse...

Não percebeu ou não quis perceber. É evidente que estou contra o terrorismo islamita. Mas lá por estar contra o terrorismo islamita, tal não exclui que esteja também contra o terrorismo social que as direitas têm imposto aos europeus e contra o terrorismo de extrema-direita que procura ir ainda mais longe do que este último. E o terrorismo de extrema-direita, é bom recordá-lo, nem há 3 anos matou 68 crianças na Noruega. Anders Behring Breivik. Lembre-se dele. E do Adolfo cuja fotografia aparece no post. Esse matou milhões e foi eleito democraticamente, não sinta vergonha de recordá-lo.

Anónimo disse...

já agora faltaram tantos outros, exemplos como o Staline que também mataram milhões.

Filipe Tourais disse...

Tem toda a razão, e nenhum deles é melhor do que os outros. Mas o post perdia se se transformasse numa listagem exaustiva de terroristas.