quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

O medo de alguns e a esperança de todos


E se os portugueses se lembrassem de imitar os gregos e elegessem quem governasse pelo seu povo e não contra o seu povo? Os estremeções que a ideia vai provocando notam-se nos fantasmas que vão sendo postos a circular. António Saraiva, da CIP, aterrorizado com a notícia da reposição do salário mínimo pré-existente na Grécia antes do “programa de ajuda” que destruiu o país, diz que a economia portuguesa não aguentaria uma subida do salário mínimo. “Economia portuguesa”, não faz por menos.

Bom, mas é uma opinião, vale o que vale, e tem sido repetida tantas vezes que para muitos é uma verdade tão absoluta que nem mesmo olhando ao seu redor se apercebem que poderá ser exactamente ao contrário. A economia portuguesa começou a arrefecer e a deixar de criar emprego quando, já lá vão quase 15 anos, surgiram os primeiros congelamentos salariais na Administração Pública e a inflação se encarregou de reduzir-lhes o salário real. Ficou gelada e o desemprego apareceu em força quando o salário mínimo provou do mesmo veneno, os salários e pensões começaram a ser cortados também em termos nominais e, como se não bastasse, o rendimento disponível das famílias se reduziu ainda pela mão de uma carga brutal de impostos, de uma vaga de desemprego sem precedentes e de cortes nas prestações sociais.

Mas se o nosso exemplo não chegar para registar a correlação que existe entre perdas salariais e destruição da economia, é olhar para a Grécia. Se os factos ainda valem mais do que opiniões baseadas no “ouvi dizer”, a economia grega não aguentou uma redução do salário mínimo de 751 para 580 euros: encolheu 25%e o desemprego quase duplicou. Não faço ideia como se dirá Saraiva em grego, mas o salário mínimo grego foi reduzido, diziam os saraivas gregos, para que a economia pudesse crescer.

Seguramente que também não será a economia portuguesa que preocupa os Antónios Saraivas que temos por cá. Até porque a esmagadora maioria das nossas empresas não tem mais do que 5 trabalhadores. Um aumento de, vá, 70 euros, aquele que devolveria o valor real do primeiro salário mínimo fixado em Portugal depois do 25 de Abril, multiplicado por esses 5 seria largamente compensado a curto prazo pelo aumento de vendas subsequente. É a procura que gera a oferta, não a oferta que gera a sua própria procura.

Temos a vantagem de poder comprová-lo pelas notícias que nos chegarão da Grécia nos próximos tempos e verificar o seu efeito nas habituais intervenções desinteressadas de Belmiros, Soares dos Santos e outros grandes empregadores a 500 euros que se preocupam imenso com a “economia”. A eles, sim, qualquer aumento do salário mínimo lhes sai do bolso multiplicado por centenas de empregados. É o seu enriquecimento que fica ameaçado sempre que se fala em actualizar o salário mínimo, tal como é o crescimento económico que é sacrificado sempre que os salários também o são para enriquecer Belmiros. Quanto? É ir acompanhando os números do emprego e a evolução do PIB grego nos tempos mais próximos. Aposto que nos vamos chocar com o que andamos a perder.



«Numa entrevista ao canal britânico Channel 4, Varoufakis estabeleceu três prioridades para o novo governo da esquerda radical. A primeira será lidar com a crise humanitária, uma preocupação central do Syriza. "É impensável que em 2015 tenhamos pessoas que até há um par de anos tinham empregos e casas e pequenas empresas e que agora estão a dormir na rua", disse. A segunda prioridade de Varoufakis, segundo disse ao Channel 4, é fazer reformas profundas e atacar o "pecado triangular que existe na Grécia": "as empresas de serviços que se alimentam de rendas estatais, os banqueiros e as empresas de comunicação social", a que chama "as bases da oligarquia grega". "Vamos destruir as bases sob a qual assenta a oligarquia que, década após década, suga a energia deste país", promete. A terceira prioridade estabelecida por Varoufakis é a renegociação da dívida grega. No primeiro contacto que alguém do Syriza tiver com Bruxelas, dizia na entrevista, deve "falar a verdade sobre a insustentabilidade da dívida pública".»

1 comentário:

fb disse...

António Saraiva, da CIP, aterrorizado com a notícia da reposição do salário mínimo pré-existente na Grécia antes do “programa de ajuda” que destruiu o país, diz que a economia portuguesa não aguentaria uma subida do salário mínimo. “Economia portuguesa”, não faz por menos.