quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

O rigor é uma coisa muito bonita


"É preciso reconstruir a confiança no país, mobilizar as pessoas com uma governação de proximidade, com diálogo político, transparência e gestão com rigor.” A frase é sonante, como todas do género. Há mais de uma década que ouço governantes dizerem que estão a restaurar a confiança no país quando desmantelam serviços públicos, salários, direitos laborais e sociais, não faço ideia o que será lá isso de “governação de proximidade”, o “diálogo político” faz parte de qualquer democracia e “transparência” todos a incluem na lista de auto-elogios mais utilizados. O mesmo para o “rigor”. Tendo a frase saído da boca de António Costa, aposto neste último. Será difícil não ser rigoroso quando se insiste em dizer generalidades onde tudo cabe. Já quando se sai deste tanto pode ser carne como pode ser peixe e se ignora o quase desaparecimento do homólogo grego e o fracasso do projecto encabeçado  pelo Presidente da sua Internacional para festejar a vitória de um partido como o Syriza, de uma família política que defende políticas que estão nos antípodas das que o rigor de Costa, amarrado ao Tratado Orçamental da austeridade para todo o sempre,  vai apoiando ao não rejeitá-las e ao fugir da renegociação da dívida, o tal rigor estrebucha logo a seguir.

Hoje, no primeiro dia de governação, o Syriza repôs o salário mínimo que vigorava antes do pesadelo troika começar. Costa não pôde festejá-lo, sob pena de lhe ser recordado o congelamento do salário ainda mais mínimo pelo Governo do seu partido, os cortes salariais que começaram ainda com Sócrates no poder e de ser desafiado a comprometer-se a adoptar medida semelhante caso chegue ao poder. Hoje, o novo Governo grego suspendeu as privatizações em curso. Costa não pôde festejá-lo, sob pena de ser humilhado com a recordação de que o seu partido é o campeão das privatizações. Hoje, o novo Governo grego suspendeu os despedimentos na Administração Pública. Costa não pôde festejá-lo, sob pena de lhe recordarem que o seu partido, mais do que ser pioneiro da "mobilidade", desmantelou as carreiras da função pública. Hoje, o Governo que saiu das eleições gregas de há apenas dois dias cumpriu mais promessas eleitorais do que todos os Governos que Portugal conheceu nos últimos dez anos. Costa fez parte de um desses Governos e o seu partido alternou no Governo com o PSD competindo com o seu parceiro de memorando pela liderança do campeonato das promessas eleitorais rasgadas na própria noite das eleições. Um destes dias o novo Governo grego irá renegociar a sua dívida e Costa, enredado nas suas generalidades e omissões, não poderá dar-lhe o seu apoio e dizer que quer o mesmo para a dívida impagável do seu país. O rigor é mesmo uma coisa muito bonita. O PASOK que o diga.

2 comentários:

fb disse...

Hoje, o Governo que saiu das eleições de há apenas dois dias cumpriu mais promessas eleitorais do que todos os Governos que Portugal conheceu nos últimos dez anos. Costa fez parte de um desses Governos e o seu partido alternou no Governo com o PSD competindo com ele pela liderança do campeonato das promessas eleitorais rasgadas na própria noite das eleições. Um destes dias o novo Governo grego irá renegociar a sua dívida e Costa, enredado nas suas generalidades e omissões, não poderá dar-lhe o seu apoio e dizer que quer o mesmo para a dívida impagável do seu país. O rigor é mesmo uma coisa muito bonita. O PASOK que o diga.

Anónimo disse...

Agora é que vai ser...