sábado, 17 de janeiro de 2015

Lido por aí: o banquete e as migalhas


«(...)Esta semana, o Tribunal de Justiça Europeu veio desobstruir o caminho ao BCE, afirmando que o Banco Central tem toda a legitimidade para fazer programas de compra de dívida como o Outright Monetary Transactions (OMT) que foi lançado em 2012. O OMT acabou por nunca ser activado, mas só a sua mera existência (e as palavras de Mario Draghi de que tudo faria para defender o euro) funcionou como escudo para proteger a moeda única e aliviar os juros da região.

Mas o OMT tinha um pecado original: foi feito à medida da Espanha e da Itália. Predispunha-se a comprar dívida soberana apenas dos países que estivessem sujeitos a algum tipo de programa acordado com as instituições europeias e que tivessem um acesso garantido e regular aos mercados. Portugal e Grécia, na altura sem acesso aos mercados, estavam automaticamente proscritos.

O novo programa que será anunciado pelo BCE poderá padecer do mesmo problema se se confirmar que apenas comprará dívida com um rating acima de investment grade, o que deixará novamente de fora os países periféricos do euro. Quem defende esta opção argumenta que Portugal e Grécia acabarão por beneficiar indirectamente quando os juros dos países beneficiados pelo programa caírem para terreno negativo. Nesse cenário, os investidores voltariam a procurar dívida portuguesa e grega por terem rendibilidades positivas. Quem defende esta teoria está a dizer que os grandes países do euro farão um grande banquete à custa do BCE e pode ser que sobre alguma migalha para países como Portugal e Grécia.

Aliás, esta tentação de puxar pela Europa a duas velocidades e esta teoria das migalhas também se aplica claramente à flexibilização das regras do Pacto de Estabilidade e Crescimento (PEC) que foi decidida esta semana e que só permite fechar os olhos à derrapagem do défice – pela via do investimento e do plano Juncker – se os países em causa estiverem fora dos procedimentos por défices excessivos. Os defensores desta flexibilização, feita à medida da Itália e da França, defendem que países como Portugal e Grécia, apesar de não poderem beneficiar no imediato, irão ganhar pela via das exportações. Quando a França e a Itália descolarem, vão comprar mais pastéis de nata a Portugal e queijo feta à Grécia. Migalhas, digo eu. (...» - Pedro Sousa Carvalho, no Público.

1 comentário:

fb disse...

Quem defende esta opção argumenta que Portugal e Grécia acabarão por beneficiar indirectamente. Quando a França e a Itália descolarem, vão comprar mais pastéis de nata a Portugal e queijo feta à Grécia. Migalhas.