domingo, 11 de janeiro de 2015

Leituras obrigatórias

«(...) Há a ideia de que as palavras se opõem aos actos; que as acções transformam a realidade e que as conversas adiam essa transformação. Nada mais errado. As palavras criam as fronteiras da nossa forma de pensar. Quando as palavras mudam, também mudam os horizontes. Um país de "empreendedores", uma espécie de vendedores ambulantes sem direitos, é um sítio de escravos. Um país que transforma a compensação do trabalho em "direitos adquiridos", supostos privilégios corporativos, é um local onde mandam os especuladores e pagam os cidadãos. As palavras, ao contrário do que se pensa, não estão gravadas na pedra. O seu significado e avaliação muda ao longo do tempo. Esse significado é um campo de batalha nunca encerrado. Estudos políticos demonstram que nos anos 70, em França e em Portugal, a palavra "nacionalização" tinha um valor social positivo. Quando, pela primeira vez, François Mitterrand ganhou a presidência francesa, já no início dos anos 80, a palavra já causava pânico nas chamadas classes médias. Conta a revista "Nouvel Observateur" que, logo depois da vitória do candidato socialista, houve uma senhora que acorreu ao banco para levantar o seu dinheiro. Muito afogueada, repetia "Este banco vai ser nacionalizado, este banco vai ser nacionalizado", ao que o caixa retorquiu: "Minha senhora, este banco foi nacionalizado [pelo general De Gaulle] há 30 anos". (...)» – A ler: "As palavras fazem o mundo", por Nuno Ramos de Almeida,no I.
«(...) Que a União Europeia seja ela própria o principal factor de degradação dos valores da democracia não é de hoje. Mas a demonstração deste misto de pesporrência e atrevimento vai-se tornando mais exibida. No entanto, esse processo não foi inventado por Moscovici ou por Barroso, ou suscitado de repente para o caso grego. De facto, ele nasceu com a União, antes de se chamar União. (...) Pierre Mendès France, deputado radical e depois membro do Partido Socialista Unificado, discursou no parlamento francês em Janeiro de 1957 – há quase sessenta anos, ainda a procissão ia no adro – contra a ideia de mercado comum de Jean Monnet. Disse ele que “A abdicação de uma democracia pode ser conseguida de duas formas, ou pelo recurso a uma ditadura interna concentrando todos os poderes num único homem providencial, ou por delegação desses poderes numa autoridade externa, a qual, em nome da técnica, exercerá na realidade o poder político, que em nome de uma economia saudável facilmente irá impor uma política orçamental, social e, finalmente, uma política” (cit. in Medeiros Ferreira, 2013, Não Há Mapa Cor-de-Rosa, Lisboa: Edições 70, p.97). (...)» – A ler: "Vá lá, até podem votar se se portarem bem", por FranciscoLouçã, no Público.
«Há 5 anos que sofrem na pele as consequências de um processo de engenharia social, digno de um capítulo do livro Shock Doctrine, de Naomi Klein. Há 5 anos que vêem governos a rodar, mas é sempre a mesma austeridade, sempre mais crise, mais pobreza. Há 5 anos que vivem no país que ninguém quer ser, mas é agora que  Berlim, Bruxelas e o FMI ameaçam o povo grego inteiro com as duras consequências de um "voto errado" no dia 25 de Janeiro. Não, as eleições gregas não são um plebiscito à permanência da Grécia no euro. Até ver, se ela acontecer, será por imposição da Alemanha e não por escolha democrática. As eleições gregas são, só e apenas, o momento em que todos nós, todos os europeus, poderemos finalmente vislumbrar uma inversão na relação de forças na Europa e acreditar que é possível resgatar a democracia da asfixia dos mercados. (...) Uma eventual vitória do Syriza pode alterar as relações de poder na Europa. Se o Syriza na oposição já inspira tanto medo, capaz de juntar Merkel, Juncker e FMI na sua condenação, imaginemos o efeito de uma voz em Bruxelas que coloque os direitos dos cidadãos, defendendo a justiça económica e social à frente dos "direitos" dos mercados. Finalmente, teremos quem fale por nós em Bruxelas, e irá fazê-lo em grego. Que orgulho.» – A ler: "Um Governo que nosdefenda", por Mariana Mortágua, no Expresso.
«(...) Com o aproximar das eleições na Grécia sucedem-se as pressões para influenciar o povo grego. O medo é que ganhe o Syriza. A sua intenção de iniciar o processo de renegociação da dívida pública grega contraria a vontade dos “senhores” (a “senhora”) e até “ex-senhores” da União Europeia. E, logo agora, que os sinais de crescimento económico começam a ser tão evidentes provando que a política de austeridade é um sucesso e que, por isso, simples eleições democráticas não a podem pôr em causa! Só mesmo com algum humor se pode suportar algumas das afirmações que temos lido e ouvido nestes últimos dias. Imagine-se o que sentem os Gregos! (...)Se o BCE cortasse o acesso da banca grega ao Eurosistema, o sistema bancário grego implodiria de um dia para outro de forma similar ao que ocorreu em Chipre. Acresce que o Estado grego deixaria de se poder financiar. Portanto, esta é uma ameaça muito séria, mas não deixa de ser paradoxal que o BCE, ao mesmo tempo que ameaça com uma “arma nuclear”, afirme que a Grécia não pode retaliar com as suas “armas nucleares”. E que o BCE só se preocupe com o seu umbigo. (...)» – A ler: "As ameaças à Grécia", por Ricardo Cabral, no Público.

1 comentário:

fb disse...

Quatro textos imperdíveis que foram sendo publicados ao longo desta semana. Um breve excerto só para aguçar o apetite, que podem saltar se preferirem clicar nos links colocados no final de cada um e lê-los na íntegra tal e qual foram publicados no original. Boas leituras.