sábado, 24 de janeiro de 2015

Jornalismo de bordel


Ainda estou de boca aberta de pasmo e de enjoo. Foi tão deplorável como inenarrável a reportagem de José Rodrigues dos Santos de há pouco no telejornal da televisão pública sobre a Grécia (vídeos aqui e aqui). Entre outras pérolas, como o de serem os empréstimos europeus que estão a assegurar o pagamento de férias de uma semana em hotéis de 3 e 4 estrelas pelo magnífico Estado social grego, uma das negociatas entre as muitas opções políticas desse Governo maravilhoso que retirou o acesso a cuidados de Saúde a desempregados que ou encontram dinheiro para os pagar ou arriscam-se a morrer mas que nem por isso o "jornalista" deixa de apoiar incondicionalmente em cada aparição sem aquele decoro que a sua profissão lhe exigiria, José Rodrigues dos Santos comentou o salário  mínimo grego pré-existente antes da troika de 750 euros como uma reivindicação que nem em sonhos passa pela cabeça de portugueses conscientes de que tal número daria cabo da nossa economia. Tenho uma vaga ideia de que o salário mínimo luxemburguês, que é sensivelmente o triplo, e que o salário mínimo alemão, o dobro, não deram cabo das economias dos respectivos países. Tenho uma vaga ideia de ter lido algures que Obama aumentou a remuneração mínima horária como forma conseguida de relançar a economia americana. Tenho uma vaga ideia de haver uma correlação evidente entre a adopção do achatamento salarial como política oficial e o desastre económico que culminará na deflação que está prestes a afundar de vez a Europa. Se a profissão de José Rodrigues dos Santos é informar, como desinformou, que é o contrário de informar, haveria nesta reportagem, apenas mais uma de uma longa série do mesmo tipo, matéria mais do que suficiente para um despedimento por justa causa. E mesmo que a sua função seja essa, moldar as percepções do seu público àquelas que melhor servem a perpetuação do poder dos seus patrões do Governo e da Europa do directório, também não me parece nada correcto que seja com o dinheiro dessa Europa que nos empresta milhões a juros gordos, que tanta falta faz para pagar médicos e professores, que se sustente o salário de um artista que, apesar de ser um profissional  tão rasca, em apenas um mês ganha tanto como num ano 3 ou 4 compatriotas seus daqueles que, nem que sejam os mais competentes e eficientes no que fazem, se livram da condenação a empobrecer a trabalhar durante toda a vida enquanto mandarem aqueles a quem Rodrigues dos  Santos serve usurpando os deveres da sua profissão. O insulto com que hoje os brindou mereceria bem mais do que este reparo num blogue que quase ninguém lê.


Na noite seguinte:

11 comentários:

fb disse...

Se a profissão de José Rodrigues dos Santos é informar, como desinformou, que é o contrário de informar, haveria nesta reportagem, apenas mais uma de uma longa série do mesmo tipo, matéria mais do que suficiente para um despedimento por justa causa.

Hugo disse...

Não há nada que distinga José Rodrigues dos Santos de, por exemplo, Manuela Moura Guedes, ou mesmo de Judite Sousa.
Boa parte dos pivots jornaleiros portugueses são um bando de deslumbrados, que vivem na sua bolhazinha (muitos deles vêm da santa terrinha e transformam-se quando vêm para a capital) e usam os órgãos de comunicação social e a carteira profissional de jornalista para fazer propaganda política pura e dura. É o caso dele ou de Manuela Moura Guedes que têm clarrísimas agendas políticas em mente quando abrem a boca.

Jorge P.G disse...

Pois eu li e assino por baixo.

Unknown disse...

Há quem leia. Mas a amostra de projecto de jornalista merece mesmo é um trapo encharcado na fachada. O que nunca deixará de me espantar é o cidadão que se deixa insultar tranquilamente e vai, a cada quatro anos, votar na quadrilha do costume.

DE R.V. disse...

"(...)
Imagino que na Grécia há muitos malandros. Tenho visitado o país todos os anos desde 2008 em conferências sobre a situação social da Europa e dos gregos e, não sendo eu nem de perto nem de longe uma especialista na matéria, achei que JRS caiu numa caricatura desnecessária. Alguns dados: quem menos paga impostos na Grécia são...os armadores gregos e os Bancos, aliás, salvos pela Europa porque a exposição da banca francesa e alemã à dívida grega era brutal. Quanto? 90%, valor exacto, dos 250 mil milhões de euros de empréstimos da Europa à Grécia foram para pagar aos bancos alemães e franceses e 10% para... a própria Banca grega. O " creative accounting" depois de 1999 - a aldrabice das contas públicas gregas -, foi feita com a assistência técnica da UE e da Goldman Sachs porque a Grécia foi usada como ponte para a reconstrução do sistema financeiro dos balcãs, depois do desmembramento da ex-Jugoslávia. Uma das últimas medidas de arraso com as pequenas e médias empresas gregas foi a obrigatoriedade das cooperativas de leite grego terem um prazo de validade do mesmo até 12 dias, o que só é possível com técnicas de conservação que só têm os holandeses e alemães, ansiosos por exportar excendentes de leite, financiados pela PAC. São estas pequenas cooperativas que fogem também aos impostos, porque se não fugirem desaparecem. Eu não tenho o entusiasmo apocaliptico que a maioria das pessoas têm sobre esta coligação, desde logo porque acho impossível manter a Grécia no Euro, manter o Euro vivo, na verdade, e acabar com a austeridade, há uma quadratura do círculo que nem o Syriza quer enfrentar - mas onde o Syriza governa localmente, nas ilhas jónicas e Ática, foram reduzidos os impostos para as PMEs e pela primeira vez os bancos e grandes superficies comerciais passaram a pagá-los.
Uma nota ainda sobre o salário mínimo. A Grécia não tem um salário social na área da saúde (Estado Social), ou seja, um serviço universal pago com impostos, o salário é ligeiramente mais alto porque contempla o pagamento privado da saúde - a manutenção da força de trabalho - que é toda paga (um parto custa 700 euros, um rx 100 e uma cesariana 1200, por exemplo). Neste momento, aliás, há 3 milhões de pessoas sem qualquer acesso à saúde, que está a ser prestado em forma de serviço voluntário por médicos militantes, às centenas. Dois deles são meus amigos, recebem-me todos os anos na sua casa, e vejo-os chegar a casa, 12 horas depois de saírem para trabalhar, com 40% menos de salário dos que em 2008, e beber mais um café e ir para uma clínica às 9 da noite dar consultas gratuitas. Há muitos malandros no mundo e a boa informação fala-nos deles…mas também dos outros. Aliás, a boa informação tem pelo menos 90% de factos e 10% de interpretação." (Raquel Varela)

Anónimo disse...

Excelente blogue.
O sr "jornalista" JRS é um nojo.
maria

Vasco Joao disse...

Pelos vistos não é só neste blog, foi no meu, e em outras opinioes seja twits, facebooks, blogs. A indignaçao é geral, mas o que é triste é que nada vai acontecer, e só me vem à cabeça ele a dizer que o 2º aviao que bateu nas torres gemeas era a repetiçao do 1º embate, portanto vejam lá o que é lata mais envelhecida que um whiski.

Cecília Cecilia disse...

Peço desculpa mas... indignação porquê???
Pode não se gostar de ouvir, mas as verdades são para dizer! Agradem ou não à direita ou à esquerda, esse é o papel dos jornalistas.
Não é deixar-se ir na onda e ir para Atenas fazer o que os outros fizeram: simplesmente cobrir a euforia de uma vitória.
Porque isso qualquer cidadão comum faria. Bastava comprar um bilhete de avião e ir munido de um smartphone. Não era preciso enviar mais ninguém.

Filipe Tourais disse...

A Cecília acha, então, que aqueles desgraçados que pedem para comer porque não têm sequer para isso em frente àquele palácio têm dinheiro para subornar médicos. Acredita ainda que mesmo que isso fosse verdade, e o artista que o disse não tem provas do que diz, que o tal subsidiozito de um Estado social tão depauperado como o grego valeria o investimento. A Cecília quer-me cá parecer que é uma daquelas pessoas que desenvolveu a capacidade de acreditar naquilo que quer. E fica muito agradecida a quem ganha um salário de 20 mil euros para a manter no seu engano de estimação.

Cecília Cecilia disse...

O que eu acho é que temos que ser realistas. Claro que qualquer um de nós faria o que quer que fosse para arranjar forma de tratar um familiar nosso doente. Até ir roubar se fosse preciso para pagsr a quem o tratasse!
Como também acho que sim, os oportunistas, lá como cá, estão em todo o lado. A pequena corrupção existe.
E não sou coisa nenhuma do que o senhor está a querer insinuar.
Por ter uma opinião diferente da sua já não a posso exprimir? Ora essa!
Boa noite. Passe bem

Filipe Tourais disse...

Pelo que vejo, eu é que não posso exprimir-me: se não concordar consigo, estou a ser "irrealista". Tenha paciência.