sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Gostei de ler: "Populismo e demofobia"


Quem, no domingo passado, à noite, seguiu a contagem dos votos, na Grécia, através dos vários canais portugueses de televisão, terá sentido uma enorme impaciência perante as milícias civis de comentadores e “politólogos”, que parecem personagens decalcadas dos aforismos satíricos de Karl Kraus contra os jornalistas do seu tempo: dizem e “comentam” porque não têm nada a dizer, e têm algo a dizer porque a sua tarefa é comentar. No meio de tanta indigência, lá apareceu, brandido por alguns, o fantasma do populismo, seja ele efectivamente encarnado ou tenha a condição de espectro. Estas almas penadas - para continuarmos no mesmo plano semântico - parecem não ter ainda percebido que não têm ao seu dispor nenhuma figura do povo para poderem agitar a bandeira do populismo, que o povo como sujeito político, tal como o conhecemos a partir da modernidade, desapareceu; e, no entanto, acham essas almas que existe essa coisa chamada “populismo”, cujo pressuposto, como o nome indica, é o de que ainda existe o povo como sujeito originário da política. Deste modo, tal conceito acaba por dizer muito acerca de quem o usa, mas já nada diz em si mesmo – é um conceito vazio. O que diz ele, então acerca dos seus utilizadores? Diz que ele engendra um conjunto de sintomas de uma doença imaginária, mas apta a produzir efeitos reais, chamada demofobia. Se existe populismo, é lógico que exista o seu contrário, a demofobia, que se traduz, entre outras coisas, numa atitude que minimiza ou lança o descrédito sobre o voto dos cidadãos, sob o pretexto de que ele não é genuinamente livre porque resulta da ignorância, da falta de educação, da desinformação e de manipulações de vária ordem. Em boa verdade, o que hoje solicita um exercício de pensamento não é um pretenso populismo, mas o “despovoamento” do povo (e, já agora, a pergunta se ainda pode existir a ocasião ou a condição de possibilidade de o relançar). (…) Os actuais denunciadores do populismo, incapazes de entender a política como algo mais do que gestão e método, táctica e estratégia, vêem outra coisa: vêem um papão, sob a forma do povo que já não existe. Lutam contra fantasmas. Eles próprios são mortos-vivos, zombies do comentário e da “politologia” do pequeno ecrã.» – António Guerreiro, no Público.

1 comentário:

fb disse...

Dizem e “comentam” porque não têm nada a dizer, e têm algo a dizer porque a sua tarefa é comentar. No meio de tanta indigência, lá apareceu, brandido por alguns, o fantasma do populismo, seja ele efectivamente encarnado ou tenha a condição de espectro. Estas almas penadas - para continuarmos no mesmo plano semântico - parecem não ter ainda percebido que não têm ao seu dispor nenhuma figura do povo para poderem agitar a bandeira do populismo, que o povo como sujeito político, tal como o conhecemos a partir da modernidade, desapareceu; e, no entanto, acham essas almas que existe essa coisa chamada “populismo”, cujo pressuposto, como o nome indica, é o de que ainda existe o povo como sujeito originário da política. Deste modo, tal conceito acaba por dizer muito acerca de quem o usa, mas já nada diz em si mesmo – é um conceito vazio. O que diz ele, então acerca dos seus utilizadores? Diz que ele engendra um conjunto de sintomas de uma doença imaginária, mas apta a produzir efeitos reais, chamada demofobia. Se existe populismo, é lógico que exista o seu contrário, a demofobia, que se traduz, entre outras coisas, numa atitude que minimiza ou lança o descrédito sobre o voto dos cidadãos, sob o pretexto de que ele não é genuinamente livre porque resulta da ignorância, da falta de educação, da desinformação e de manipulações de vária ordem. Em boa verdade, o que hoje solicita um exercício de pensamento não é um pretenso populismo, mas o “despovoamento” do povo (e, já agora, a pergunta se ainda pode existir a ocasião ou a condição de possibilidade de o relançar). (…) Os actuais denunciadores do populismo, incapazes de entender a política como algo mais do que gestão e método, táctica e estratégia, vêem outra coisa: vêem um papão, sob a forma do povo que já não existe. Lutam contra fantasmas. Eles próprios são mortos-vivos, zombies do comentário e da “politologia” do pequeno ecrã.» – António Guerreiro, no Público.