quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Gostei de ler: "O bombeiro pirómano e o arquitecto salvador"



«O Dr. Durão Barroso apareceu brevemente por Portugal para nos industriar sobre o seu sucesso, assunto que gosta de trazer à baila de quando em vez. Com ele, a Europa floriu ou, como diria Brecht, o chefe garantiu que as espigas de trigo cresceriam para cima. De fato, sem o pretérito presidente da Comissão é difícil imaginar o que seria deste continente à beira-mar plantado.
Incansável, ele fez tudo: salvou e construiu. “Não actuámos apenas como bombeiros mas, também, como arquitectos”, veio ele lembrar à audiência agradecida, creio que na Gulbenkian. Mas, modesto, reconheceu que ainda há muito que fazer: a Comissão e o Conselho ainda não têm todos os poderes de que precisam para fazer crescer o trigo como deve ser. Em todo o caso, com ele no leme, ficou garantido desde já que “não vamos voltar aos status quo de antes da crise”.
Não deixando os créditos por mãos alheias, autoparabenizou-se, como agora se diz, pelo muito que fez e deixou feito. Por exemplo, foi com ele que Bruxelas ficou com o poder, “nos mecanismos estruturais que dão mais poderes à comissão europeia, de vetar o Orçamento de um estado-membro antes deste ser apresentado ao Parlamento nacional”. Esclarecedor exemplo, a propósito da abençoada “transferência de soberania”, de como os de cima actuaram, não só como bombeiros, mas também como arquitectos. E como engenheiros, e como pedreiros, e como estrategas, e como fazedores, acrescentaria este seu admirador, Dr. Barroso.
Quando o dr. Barroso se elogia por ter adquirido o direito de veto de um Orçamento “antes deste ser apresentado ao Parlamento nacional”, não nos está só a dizer que o poder dos órgãos eleitos na elaboração e aprovação dos orçamentos se vai tornando uma ficção. Está a dizer-nos que já ninguém se importa com isso.» – Francisco Louçã, no Público.

1 comentário:

fb disse...

Não deixando os créditos por mãos alheias, autoparabenizou-se, como agora se diz, pelo muito que fez e deixou feito. Por exemplo, foi com ele que Bruxelas ficou com o poder, “nos mecanismos estruturais que dão mais poderes à comissão europeia, de vetar o Orçamento de um estado-membro antes deste ser apresentado ao Parlamento nacional”. Esclarecedor exemplo, a propósito da abençoada “transferência de soberania”, de como os de cima actuaram, não só como bombeiros, mas também como arquitectos. E como engenheiros, e como pedreiros, e como estrategas, e como fazedores, acrescentaria este seu admirador, Dr. Barroso.