terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Debaixo dos nossos narizes



A OIT fala em 61 milhões de empregos destruídos em 6 anos em todo o mundo, em melhorias recentes nos Estados Unidos e Japão mas não na Europa e em perspectivas de que o número de desempregados continue a crescer a bom ritmo até ao final da década. Quanto mais desempregados, maior o desespero. E quanto maior o desespero, tanto melhor para obrigar as pessoas a aceitarem trabalhar recebendo salários menores e com piores condições de trabalho. Nada que preocupe o directório europeu, antes pelo contrário. A austeridade que enriquece uma pequena minoria empobrecendo a restante maioria está a correr pelo melhor, como confirma outra organização, a Oxfam, que reporta como os 1% mais ricos conseguiram aumentar os já inacreditáveis 44% da riqueza mundial que detinham em 2009 para 48% em 2014 e como a manutenção das políticas que proporcionaram tal aumento da concentração da riqueza poderá fazer com que esses 1% sejam donos de metade de toda a riqueza produzida mundialmente já em 2016, para chegarem ao final da década ainda mais ricos, com 54,32% de um bolo que continua a encolher para os restantes 99%, sublinhe-se bem, em clima de harmonia e paz social. E lá nisto somos mesmo o melhor povo do mundo. É  verificar como fomos aceitando pacificamente que esta mesma austeridade aplicada por cá em doses crescentes por sucessivos Governos fosse dando cabo do nosso Serviço Nacional de Saúde, como não reagimos nem mesmo ao sabermos que o resultado da última década desta austeridade consentida produziu o inferno que por estes dias em apenas duas semanas já fez mais 1000 mortos do que seria suposto nos nossos hospitais  e como não se verá qualquer reacção à rentabilização destas 1000 mortes que se lê no despacho do secretário de Estado Adjunto do Ministro da Saúde que abre a possibilidade de, em períodos de maior afluência , as urgências de hospitais privados poderem substituir as do SNS que se desmantelou para fortuna dos 1%. Talvez em 2020 já sejam donos do filão que lhes faltava explorar. Talvez em 2020 apenas aqueles que tenham capacidade económica tenham acesso a cuidados de Saúde. Para já, a grande maioria ficará muito satisfeita ao saber que vai ao privado, à rico, como nas revistas dos famosos. Quem tenha a sorte de adoecer, até pode ser que tenha a felicidade de privar por lá com algum. Nunca se sabe. Como diz o ditado, mais vale rico e saudável do que pobrezinho e doente.

2 comentários:

fb disse...

A rentabilização destas 1000 mortes que se lê no despacho do secretário de Estado Adjunto do Ministro da Saúde que abre a possibilidade de, em períodos de maior afluência , as urgências de hospitais privados poderem substituir as do SNS que se desmantelou para fortuna dos tais 1%. Talvez em 2020 já sejam donos do filão que lhes faltava explorar. Talvez em 2020 apenas aqueles que tenham capacidade económica tenham acesso a cuidados de Saúde. Para já, a grande maioria ficará muito satisfeita ao saber que vai ao privado, à rico, como nas revistas dos famosos. Quem tenha a sorte de adoecer, até pode ser que tenha a felicidade de privar por lá com algum. Nunca se sabe. Como diz o ditado, mais vale rico e saudável do que pobrezinho e doente.

fb disse...

as urgências privadas podem vir a tratar doentes do Serviço Nacional de Saúde em alturas de maior afluência aos hospitais”. Quem trabalha com contas públicas de forma séria sabe que era este o objectivo. As urgências no sector privado cresceram com a Troika 84%. Trata-se agora não de remunerar decentemente os profissionais de saúde no sector público para garantir a todos uma saúde digna – usando os impostos que pagamos para tal – mas de usar esses mesmos impostos para ampliar o mercado de urgências no sector privado. E a minha nota é que com esta medida, a médio prazo, vão morrer mais pessoas. A médio prazo, no sector privado não vamos ter nem bons cuidados de saúde, nem salários decentes, vai haver em consequência quedas da produtividade (uns fingem que pagam, outros fingem que trabalham) e por isso vamos ter – escrevo-o – mais mortos no futuro nas urgências nos hospitais privados do que hoje nos públicos. E é essencial dizê-lo que hoje há meios num país que produz de PIB 170 mil milhões de euros e em que quem vive do salário paga o maior volume de impostos de sempre, para garantir que no público estas situações serão de todo evitadas.

Porquê? Porque o sector público serve de bitola ao privado e está a ser desnatado. Com o fim dos consultórios privados pela queda do consumo interno, e o desmantelamento dos serviços públicos, e a queda do salário médio dos médicos no público, cai por arrastamento o salário destes no sector privado. Porque os médicos no privado deixam de ter força negocial para exigir boas condições laborais. Agora podem fazê-lo, e cada vez menos (já há indicadores de queda dos salários oferecidos pelo privado desde que caiu no público), porque ainda podem dizer “ou me dão condições aqui ou saio, de volta ao público ou ao consultório”. Quando estes deixam de existir ou estão tão degradados que não são moeda de troca para exigir condições de trabalho decentes nós vamos ter um serviço privado caro e caótico; vamos ter urgências caríssimas, 22 horas de espera no sector privado e médicos pauperizados e desmoralizados. A consequência desta política é lapidar: destrói-se o serviço público, amplia-se o negócio da saúde no sector privado, este vai fazer da saúde a máxima rentabilidade possível (aumentando o lucro, descendo o custo unitário do trabalho), o que resultará na diminuição drástica da qualidade dos cuidados de saúde prestados no sector privado. Iremos ver os Mellos desta vida, os hospitais com luz e sem luz, acabar como a PT e o BES – vão ser desmantelados, vamos pagar mais por piores serviços. Paulo Macedo estará com honras de Estado e desonras públicas ao lado de Ricardo Salgado e Zeinal Bava. Ninguém que tenha conhecimentos rudimentares de economia pode hoje, com sinceridade, negar esta evidência, esta forma peculiar de levar um país para o abismo. Como ninguém pode negar que os médicos e profissionais de saúde, com a força que têm hoje, podem travar esta nau de loucos que engolem os nossos impostos regurgitando capitais financeiros, com a ética de um Nero que ateia fogo e ri.